Rio Branco, 6 de novembro de 2026.

A culpa é do Roberto!

Foto: Daigleíne Cavalcante

Eu descobri, aos 38 anos, que Roberto Carlos tem uma parcela considerável de culpa nas expectativas amorosas de milhões de mulheres brasileiras. Inclusive nas minhas.

E não estou falando apenas das mulheres que cresceram ouvindo suas canções. Estou falando das nossas mães, das nossas avós, das filhas e até daquelas que juram não acreditar mais no amor romântico, mas que, diante dos primeiros acordes de uma canção do Rei, são capazes de esquecer, por alguns minutos, todas as decepções amorosas que já viveram.

Eu estava lá, sentada frente à frente com ele e vi mulheres acreanas de todas as idades reunidas para ouvir um homem de 85 anos cantar sobre o amor. E, enquanto observava aquela plateia, me perguntava: afinal, o que Roberto Carlos tem que atravessa gerações e continua despertando tantos sentimentos?

A resposta veio em forma de poesia.

Roberto não canta simplesmente sobre amar. Ele canta sobre admirar, desejar, esperar, sentir saudade, pedir perdão e, sobretudo, fazer alguém se sentir extraordinariamente especial.

E é aí que começa a culpa dele!

Porque como convencer uma mulher de que ela deve se contentar com um amor pela metade depois de ouvir uma vida inteira que alguém seria capaz de lhe dar o céu, o sol e o mar?

Como aceitar a indiferença quando crescemos embaladas pela ideia de que somos Detalhes impossíveis de esquecer?

A culpa é do Roberto!

É dele a culpa por não nos contentarmos com um sexo de rotina, mas desejarmos ardentemente uma noite de cavalgada por uma estrada colorida, sentindo beijos como açoites e uma mão atrevida.

A culpa é do Roberto por não querermos apenas um homem que divida a cama conosco. Queremos aquele que nos faça uma Proposta, que transforme o encontro de dois corpos em uma experiência de entrega, cumplicidade e desejo. Que saiba que o prazer começa muito antes de tirar a roupa e que a sedução também mora nas palavras.

A culpa é do Roberto por desejarmos um homem que nos olhe dizendo: “você tem todas as coisas que um dia eu sonhei pra mim” e que perceba nossa beleza para além do espelho, que enxergue delicadezas, imperfeições e tudo aquilo que nos torna únicas. Um homem que saiba admirar uma mulher antes mesmo de desejar possuí-la.

A culpa é do Roberto por não nos contentarmos com declarações automáticas, dessas que chegam por mensagem entre um compromisso e outro. Depois de Como é grande o meu amor por você, queremos um sentimento que transborde e que desafie a capacidade das palavras.

A culpa é do Roberto por acreditarmos que ainda existe um homem como o de Esse cara sou eu. Alguém que cuide, que proteja sem aprisionar, que esteja presente, que deseje ser abrigo nos dias difíceis e companhia nos dias felizes. Um homem que não confunda demonstrar amor com perder a masculinidade.

A culpa é do Roberto por sonharmos com a intensidade de Amada Amante. Não queremos ser apenas a mulher que organiza a rotina, administra a casa, resolve os problemas e compartilha responsabilidades. Queremos continuar sendo amantes, desejadas, procuradas, beijadas demoradamente. Queremos que a intimidade dos anos não “mate” o arrepio dos encontros.

A culpa é do Roberto por ainda acreditarmos na possibilidade de viver Outra Vez a emoção de um encontro, de um beijo inesperado, de uma reconciliação apaixonada. Porque o amor não deveria perder a capacidade de surpreender apenas porque duas pessoas já conhecem todos os caminhos uma da outra.

E a culpa é do Roberto por nos fazer desejar uma vida repleta de Emoções. Não apenas os grandes acontecimentos, mas aquelas pequenas experiências que fazem o coração acelerar. Um abraço pelas costas, uma mão que procura a nossa, um beijo roubado na cozinha, uma declaração sem motivo aparente.

Mas há uma ironia nessa história.

Enquanto um homem de 85 anos ainda consegue fazer milhares de mulheres suspirarem cantando sobre amor, desejo e paixão, parece que parte de uma geração de homens mais jovens anda com uma preguiça danada de amar.

Preguiça de conquistar, de surpreender, de beijar demoradamente , de fazer amor real, aquele em que as curvas se acham e as formas se encaixam na medida perfeita.

Há quem tenha terceirizado o romantismo para os emojis, reduzido a conquista a uma curtida e transformado o sexo em mais uma tarefa a cumprir antes de dormir.

É claro que não são todos. Existem homens apaixonados, intensos e extraordinariamente românticos. Mas é impossível ignorar que, em tempos de relações descartáveis e afetos apressados, demonstrar amor parece ter se tornado um esforço grande demais para alguns.

E talvez seja essa a grande questão.

Nós não queremos necessariamente um homem que cante como Roberto Carlos, que escreva poemas ou que apareça com um caminhão de rosas vermelhas.

Queremos um homem que tenha vontade.

Vontade de amar, beijar, tocar e desejar. Quer queira conquistar a mesma mulher muitas vezes, mesmo depois de anos ao lado dela.

Saí do show com a certeza de que Roberto Carlos não canta apenas sobre aquilo que as mulheres desejam ouvir. Ele canta sobre aquilo que muitas de nós ainda desejamos viver.

E se continuamos sonhando com um amor intenso, sensual, romântico, delicado e arrebatador, a responsabilidade é toda dele.

A culpa é do Roberto!

Foi ele quem nos fez acreditar que o amor pode ser dito em versos, em prosa, em ritmo, em silêncio e até em um olhar. Que o romantismo não precisa ser uma demonstração de fraqueza masculina, mas uma das formas mais bonitas de expressar sentimentos.

Quanto a Roberto Carlos, resta responsabilizá-lo por esse estrago sentimental que atravessa décadas.

Afinal, depois de tantas canções, como é que a gente explica ao coração que nem todo homem sabe amar em poesia?

A culpa é do Roberto!

E, quer saber, Rei? Ainda bem!

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Daigleíne Cavalcante

Daigleíne Cavalcante é jornalista com 17 anos de experiência, palestrante, mentora e estrategista em comunicação e oratória.

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