Rio Branco, 15 de março de 2026.

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Protagonismo feminino no artesanato e na música demonstra força da mulher andina em produções simbólicas do Peru

Carmem destaca a força do turismo comunitário para o povo peruano: Foto Marcus Almeida

A cidade de Cusco, localizada nos Andes peruanos, é um dos destinos turísticos que chama a atenção pela riqueza histórica e cultural. A região possui diversos elementos que marcam simbolicamente a identidade do lugar.

Para apresentar um pouco desses componentes para os brasileiros, a peruana Carmen Rojas, de 40 anos, levou alguns ítens como pelúcias, chaveiros e vestimentas, para serem apreciados durante a semana andina, realizada em Rio Branco.

Morando no Acre há 14 anos, Carmen destaca que as obras são feitas por artesãs cusquenhas com quem trabalha e também desenvolve atividades na área do turismo.

“Quando fazemos turismo de base comunitária, nós levamos essas artesãs, porque são mulheres empreendedoras. Eu gosto muito de poder trazer os seus produtos, já que não conseguiram chegar para essa feira, mas, através de nós, as artes que produziram foram apresentadas. Essa feira está sendo uma grande oportunidade, não só para nós como peruanos, mas também para elas mesmas, para poder fazer esse intercâmbio cultural entre os dois países e com os irmãos da Bolívia também”, destaca.

Uma das artesãs que faz parte desse grupo de mulheres descrito por Carmen, é a Liz Palomino da localidade de Ollantaytambo, que fica a 2 horas e meia de distância da cidade de Cusco. Liz é quem produz os quipus, um tipo de escritura Inca formado por cordões coloridos com nós. Cada cor representa um suyo (ponto cardeal) e cada nó representa uma determinada representação numérica e outras representações de um sistema de escrita tridimensional. Atualmente, esses objetos são usados como cortinas e peças de decoração, sendo muito procuradas e vendidas.

“Igual a essas mulheres, muitas artesãs e artesãos, a cada sábado, oferecem seus produtos na feira de artesãos da Cidade de Cusco. São empreendedores que criam peças e obras de arte da cultura peruana”, detalha.

Símbolos de Cusco

Entre os diversos itens apresentados por Carmen, as pelúcias de Lhamas, animais símbolos de Cusco, com certeza se destacam. Conforme Rojas, as Lhamas são animais típicos da cidade peruana e fazem parte da cultura andina.

“Porque desde os Incas as Lhamas serviram de muita ajuda. Não só serviram como meio de transporte e de carga, mas também em seus rituais, em seus sacrifícios, nas oferendas que eram realizadas. Essa lhama maior, por exemplo, está feita toda de alpaca. A lã é alpaca. Então, essa alpaca é uma lã bem cotizada a nível internacional”, explica.

Outros animais populares na cidade são os carneiros. “A diferença do Brasil para Cusco é que nos Andes se vê carneiro por todo canto, junto com as lhamas”, aponta.

Um outro símbolo importante da cultura cusquenha são os cholitos: os homens dos Andes. “Através do tempo, eles mantêm nossa cultura e levam nossa história com todas as suas tradições. Por exemplo, essas pelúcias representam os cholitos musicais. Eles tocam a famosa quena, um instrumento musical de flauta que transmite tudo o que leva ao vento. Aqui tem outro que possui o violão que, nos Andes, nós chamamos de charango”, descreve Carmen.

Assim como os cholitos, as cholitas também são importantes símbolos da identidade cultural e, principalmente, da força da mulher andina peruana. “Essa, por exemplo, tem a batata andina, que é a batata peruana. Essa daqui é uma criancinha que leva a zamponha, um instrumento musical de sopro. As cholitas são como as avós. Elas transmitem de geração em geração a toda a sua família, a todas as suas filhas, como que é o processo de fio da lã, o tecido, a culinária, como se deve cuidar da casa. Essa daqui guarda toda a história, todos os costumes que a gente tem nos Andes peruanos”, ressalta.

Carmen ainda complementa: “Warmichas, idioma Quéchua, significa mulheres. Lucero é a criadora de todas estas peças que representam a força e garra da mulher e do homem dos Andes peruanos. Cada detalhe conta uma história”, ressalta.

Os imãs de geladeira e chaveiros também servem para apresentar os principais cartões postais de Cusco, como Machu Picchu. A prataria também merece um destaque, pois muitos artesãos trabalham com prata de forma artesanal.

“E trabalham muito com pedras em quartzo, diversas pedras preciosas e em prata 950. Tudo isso é feito a mão, não é industrializado. Também temos as capas que são próprias para o frio. Temos as chompas e o poncho feminino que é uma vestimenta típica de lá. E o curioso da lã de alpaca é que é um tecido térmico, ou seja, no frio aquece e esquenta, mas no calor é leve e fresquinha. Por isso que os animais conseguem sobreviver a mais de 4 mil metros sobre o nível do mar, justamente porque todos os pêlos que possuem são de proteção. Essa é parte da nossa história”, afirma.

Homenagem a força da mulher andina

A música andina também é rica em história e cultura. Uma espécie de hino em Cusco, a Valicha, escrita pelo peruano Miguel Ángel Hurtado Delgado em 1945, é uma canção inspirada em uma mulher andina que celebra sua potência e força.

“Até agora segue viva, tem 104 anos e se mantém em pé. Esse artista, quando chegou na cidade de Cusco, conheceu a Valicha e ficou encantado pelo modo de viver e pela luta dela, por ser uma mulher viúva. A Valicha tinha que manter seu lar, cuidar de seus filhos, cuidar da sua chácara, cuidar de tudo. E quando contava a sua história, a sua vivência, não mostrava nem um pouco de tristeza, pelo contrário, se mostrava feliz. E isso encantou esse artista que construiu e dedicou essa canção ao nome dela”, conta Carmen.

Rojas complementa também. “Como eu estava explicando é uma espécie de hino em toda a cidade de Cusco e que empodera as mulheres dos Andes, pois são guerreiras que resistem ao tempo, a toda a violência que o Peru passou na década de 80 e, ainda hoje, são símbolos de resistência da nossa cultura. Nos Andes, a força feminina é um símbolo que resiste e, apesar do tempo, ainda mantêm suas histórias e passam esses costumes de geração em geração para os filhos, que serão os responsáveis por transmitir para as gerações futuras”.

Boa receptividade

De acordo com Carmen, os produtos apresentados na 1ª Semana Cultural Andina estão sendo bem recebidos pela população acreana.

“Nossa, o brasileiro eu acho que tem um carinho grande pelo peruano. E, do mesmo modo, nós peruanos temos um carinho grande por vocês que são muito acolhedores. Essa similaridade entre os dois povos nos faz ser duas nações juntas, somos dois países irmãos, não somente pela fronteira, mas porque compartilhamos cultura e isso é muito bonito”, enfatiza.

Além desse carinho, Carmen diz se sentir grata pela oportunidade dessas trocas culturais em eventos como a semana andina.

“Eu me sinto agradecida, porque em toda ocasião que tivemos essa oportunidade de participar em feiras e outros encontros, a receptividade de vocês é muito grande. Eu tenho grandes amigos e eu guardo muito carinho pelo Brasil e por vocês acreanos”, finaliza.

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