Depois de décadas garantindo o vai e vem do povo xapuriense, trabalhadores da catraia comemoram o progresso, mas temem perder sua única fonte de renda
A Ponte da Sibéria representa a realização de um dos maiores sonhos da população de Xapuri, especialmente para quem mora no tradicional bairro do outro lado do Rio Acre. Mas, como toda grande mudança, esse progresso chegou acompanhado de contradições. Apenas dois dias após a inauguração, um trio de trabalhadores que por décadas sustentou a travessia histórica do rio vive dias de ansiedade e incerteza.
Valdir Verçosa, 45 anos, 25 dedicados à catraia; Raimundo Silva, 34, cerca de 22 anos na atividade; e Francisco das Chagas Brito de Souza, 42, também com mais de duas décadas de travessia, estão diante do impasse inevitável de que a ponte que beneficiou toda a cidade ameaça o único meio de renda que eles conhecem.
Os três reconhecem a importância da obra e dizem sentir orgulho de vê-la finalmente concretizada, algo que acompanhavam desde criança. Mas, ao mesmo tempo, carregam a angústia de não saber como ficará o sustento das famílias daqui para frente. Raimundo Silva, o mais jovem deles e o que ainda mantém uma incerta esperança em uma solução, traduz com exatidão esse misto de alegria e apreensão com o viés negativo que a ponte trouxe.
“É uma coisa que todo mundo esperava. Foi bom para todo mundo, um sonho realizado. Para mim, fico feliz pela ponte também. Acaba prejudicando a gente, mas acredito que vai haver algo para compensar. A catraia não acaba de tudo, porque tem muito idoso que não consegue ir pela ponte. Aqui no centro é mais perto do banco, do hospital, da farmácia. Ainda tem necessidade, mas o movimento vai cair muito”, explica.

Raimundo conta que a queda no fluxo já começou a ser sentida. Os trabalhadores obtinham renda equivalente a um salário-mínimo e meio — às vezes até um pouco mais — sabem que a nova realidade dificilmente permitirá manter o mesmo nível de receita.
Valdir Verçosa é o mais afetado entre os três. Ele trabalha com uma catraia alugada e diz que o impacto chegou antes mesmo de conseguir se preparar.
“Tinha expectativa pela ponte, mas tinha medo de ficar desempregado. E terminou acontecendo. Os contratos da prefeitura e do governo vão acabar. Eu já parei de trabalhar. O dono mandou. Quero procurar o prefeito Maxsuel para ver se consegue me ajudar, porque não posso ficar sem renda”, relata.

Francisco das Chagas, conhecido pela calma com que cruza o rio há mais de 20 anos, também tenta se agarrar ao otimismo, mas admite que o temor é real. Ele é o único dos três que é dono da catraia em que trabalha, fator que não é capaz de fazer uma grande diferença.
“A gente sabe que a ponte é boa, que vai ajudar todo mundo. Dá orgulho de ver pronta. Mas também bate uma incerteza, porque a catraia é a vida inteira de muita gente. Não sei ainda como vai ser depois, mas torço para que seja bom para a cidade”, afirma.
No fim da conversa, ele mira a silhueta da ponte à distância e empurra a embarcação mais uma vez para dentro do rio, talvez em uma das últimas travessias em que ainda haverá passageiros suficientes para compensar o esforço dos braços e da gasolina do motor de popa que impulsiona a embarcação na maior parte do trajeto.
Mesmo com a ponte, os três concordam que a catraia continuará existindo, ainda que com movimento diminuído. Idosos, pessoas com mobilidade reduzida, moradores de áreas mais próximas ao porto e até viajantes que procuram a travessia tradicional devem manter parte da demanda viva. Mas essa permanência não será suficiente para sustentar todos os profissionais que dependem exclusivamente dela.
O futuro dos catraieiros agora depende de decisões públicas, seja por meio de algum tipo de programas de apoio, inserção em novas atividades, manutenção de parte da travessia ou criação de alternativas que garantam renda a quem vive há décadas do trabalho entre as duas margens do rio.
A inauguração da Ponte da Sibéria abriu um novo tempo em Xapuri e a alegria das pessoas, principalmente no bairro Sibéria, onde os catraieiros vivem, é flagrante. Mas, para Valdir, Raimundo e Francisco, o novo momento chegou acompanhado de um pedido para que o progresso tão desejado não deixe ninguém para trás.








