
A ponte recebeu o nome de Josimar Oliveira dos Santos, o Dimar, assassinado em 2023. Sua mãe, dona Maria, de 80 anos, celebra a realização histórica, mas confessa que trocaria qualquer homenagem por ter o filho vivo ao seu lado
A inauguração da Ponte da Sibéria, agora oficialmente Ponte Josimar Oliveira dos Santos (Dimar), marcou um dos capítulos mais emocionantes da história recente de Xapuri. Mas, enquanto a maioria celebrava o início de uma nova era para a cidade, uma mulher de 80 anos vivia uma alegria contida e atravessada pela dor da saudade — Dona Maria Oliveira dos Santos, mãe do homenageado.
Dimar, assassinado com uma facada no peito na noite do seu aniversário de 50 anos, em abril de 2023, teve a vida interrompida de forma brutal. O crime causou grande comoção popular, sentimento que levou o deputado Manoel Moraes a propor na Assembleia Legislativa do Acre (Aleac) a lei que batizou a ponte com seu nome.
A homenagem foi aprovada e sancionada pelo governador Gladson Cameli, mas, para Dona Maria, a grande obra carrega um significado que ultrapassa a política, a engenharia e a história. Um lugar onde sonho e saudade se encontram. “Eu trocaria qualquer homenagem pelo meu filho vivo ao meu lado”, ela diz.
“Tiraram a vida do bichinho sem ele merecer”
Sentada em um banco de madeira do que resta de uma antiga pracinha localizada em frente à sua residência, no bairro Sibéria, de onde é possível observar o vão central da ponte, Dona Maria lembra do trágico destino do filho, com a voz embargada, mas também não esconde a satisfação com a inauguração da obra.
“Estou satisfeita. Só não estou mais satisfeita porque quem queria muito essa ponte era meu filho. Tiraram a vida dele nos 50 anos dele, fazendo a festinha dele. Tiraram a vida do bichinho sem ele merecer”, lamenta.
Quando perguntada sobre o significado de ver a ponte levando o nome de Dimar, ela respira fundo antes de sorrir com melancolia e se manifestar com resignação:
“Fiquei feliz porque tem o nome dele. Mas mais feliz eu era se ele estivesse passando em cima conosco, com a família dele. Aí eu ficava mais feliz. Mas a gente tem que deixar para trás. Deus permite as coisas do jeito que é pra ser. Acho que a sorte dele era essa, ele tinha que cumprir”, ressalta.
O sonho do marido, Carlito

A história da ponte também se confunde com a do falecido marido de dona Maria, Vicente Lima dos Santos, o popular Carlito Piauí, um dos primeiros moradores da Sibéria e defensor incansável da construção da ponte. Ela sorri ao recordar a insistência dele para que ela participasse de reuniões sobre a ponte.
“Ave Maria. Uma vez eu estava trabalhando e ele disse: ‘Maria, deixa esse trabalho e vamos pra reunião’. Ele vivia em reunião pela ponte. Eu dizia: ‘Tu só vive de reunião!’. Ele respondia: ‘Vamos embora, se não essa ponte não vai sair’. Não tem a soma de reuniões que nós fomos. Agora que veio sair, depois de sete anos que ele morreu.”
Seu Carlito faleceu em 2018, sem nunca ver a obra começar. Mas, para dona Maria, a ponte também é um pedaço da história dele — da luta diária, da esperança e da crença de que a Sibéria merecia uma travessia digna.
Uma vida inteira em Xapuri
Filha do Seringal Boa Vista, colocação Enrascado, em Xapuri, Dona Maria casou-se em 1962 — cerimônia celebrada pelo folclórico Padre José — e teve 14 filhos: nove homens e cinco mulheres. Quatro deles morreram ainda pequenos.
Apesar de tudo, ela segue vivendo no mesmo “cantinho”, como diz, guardando memórias e enfrentando as dores que a vida lhe trouxe. “Eu acho que daqui eu só vou para o cemitério. Mas estou aqui pra ver essa ponte, porque sei o quanto meu marido e meu filho queriam isso”, encerra.








