
No dia em que Chico Mendes completaria 81 anos — esta segunda-feira, 15 de dezembro — foi oficialmente aberta a 37ª Semana Chico Mendes 2025, marcada por uma cerimônia carregada de simbolismo, encontros históricos e vozes que mantêm viva a semente plantada pelo líder seringueiro. A abertura ocorreu em um local também emblemático, o Painel dos Mártires, onde está situada uma samaúma, considerada como uma das árvores mais altas da Amazônia.
A abertura teve como ponto central a entrega do Prêmio Chico Mendes de Resistência 2025, precedida por um gesto que apontou para o futuro: a premiação dos estudantes Ellen Clys Vasconcelos Maciel, 16 anos, e Calebe dos Santos D’Ávila, 16 anos, ambos da Escola Divina Providência, vencedores do concurso “Carta para Chico Mendes”, iniciativa que incentiva jovens a dialogarem com a história, os valores e os ensinamentos do líder acreano.
A solenidade reuniu lideranças históricas do movimento social rural, como Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, primo de Chico Mendes; Júlio Barbosa de Aquino, ex-prefeito de Xapuri e atual presidente do Conselho Nacional dos Povos Extrativistas (CNS); o advogado Gumercindo Rodrigues; o vereador por Rio Branco André Kamai; além de amigos e companheiros de luta do líder seringueiro, entre eles Raimundo Monteiro, Sabá Marinho e Simplício.

Dos homenageados com o Prêmio Chico Mendes de Resistência, apenas Daniel de Souza não pôde comparecer por motivos de saúde. Liderança quilombola respeitada nacionalmente, Souza tem trajetória marcada pela defesa incansável dos territórios tradicionais e foi peça-chave na construção e consolidação da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). Todos os demais estiveram presentes para receber o reconhecimento.
Os homenageados de 2025
Relevância Institucional – Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM)
Criada há mais de uma década, a REPAM atua em toda a Pan-Amazônia como uma grande rede de articulação da Igreja Católica junto a povos da floresta, comunidades tradicionais e movimentos sociais. Seu trabalho é pautado na defesa da vida, dos territórios e da biodiversidade, promovendo justiça socioambiental, direitos humanos e incidência política a partir da realidade local.
Representando a instituição, o secretário-adjunto Rodrigo Fadul destacou o caráter coletivo do reconhecimento: “A Repam se alegra ao receber esse prêmio porque ele é resultado de mais de 11 anos de trabalho em toda a Pan-Amazônia. Somos uma organização feita de várias pessoas e de várias outras organizações. Nosso papel é servir como uma plataforma de articulação das lutas e resistências das pessoas que vivem na floresta e que a promovem”, afirmou.
Personalidade – Daniel de Souza
Reconhecido nacionalmente como uma das principais lideranças quilombolas do país, Daniel de Souza tem trajetória marcada pela defesa dos territórios tradicionais e pela construção da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). Sua ausência física na cerimônia não diminuiu o peso simbólico do reconhecimento, que reafirma sua contribuição histórica à luta por direitos, justiça e dignidade.
Jovem Liderança – Matheus Silva Azevedo
Extrativista, ribeirinho e jovem liderança amazônida, Matheus Azevedo representa uma geração que transforma vivência territorial em ação política concreta. Atuante no Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) e no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República, Matheus destacou o protagonismo da juventude: “Nós já não somos só a esperança, nós somos um esperançar que se move, que age e que está em defesa da vida dos povos da floresta. Enquanto Chico estiver vivo dentro de nós, nós também estaremos vivos, fazendo resistência.”
Povos Originários e Comunidades Tradicionais – Resex Praia do Canto Verde (CE)
Localizada no litoral do Ceará, a Reserva Extrativista Praia do Canto Verde é símbolo de resistência comunitária frente à especulação imobiliária e aos grandes empreendimentos. Com forte organização social, a comunidade construiu um modelo de gestão territorial baseado na pesca artesanal, no turismo de base comunitária e na defesa do bem comum.
O prêmio foi recebido por Roberto Carlos Lima Ribeiro, presidente da Associação de Moradores: “Essa conquista não é minha, é de todos da Praia do Canto Verde, dos que já não estão conosco e dos que continuam na luta. A comunidade nos ensinou que é preciso ter resistência na mente e no coração para continuar a história de Chico Mendes em qualquer lugar deste país.”
Ativismo nas Redes – Deputada Federal Célia Xakriabá
Primeira mulher indígena eleita deputada federal por Minas Gerais, Célia Xakriabá tem se consolidado como uma das vozes mais firmes na defesa dos povos originários no Congresso Nacional. Educadora e ativista, ela relacionou o legado de Chico Mendes às lutas atuais contra retrocessos ambientais: “Uma pessoa não morre quando deixa um legado. Chico Mendes nos chamou para a grande aliança da floresta. Ele permanece vivo cada vez que pegamos o microfone no Congresso e lutamos contra o PL da devastação.”
A ideia que permanece
Encerrando a solenidade, Angela Mendes, filha primogênita de Chico Mendes e presidente do Comitê Chico Mendes, fez um pronunciamento marcado por memória, alerta e renovação de compromissos: “Meu pai não era só um homem e não era uma data, ele é uma ideia viva. Estamos aqui 37 anos depois o celebrando e suas ideias. Vivemos um cenário de muitos retrocessos, com ataques aos direitos dos povos e dos territórios. Isso faz com que a gente renove nossa energia para continuar seguindo os passos dele.”








