Rio Branco, 24 de janeiro de 2026.

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Acre registra taxas elevadas de feminicídio e volta a acender alerta em 2025

Acre contabilizou 14 vítimas de feminicídio ao longo de 2025 – Foto: reprodução

Estado liderou ranking nacional e enfrenta nova alta após breve redução apesar de avanços institucionais no enfrentamento à violência de gênero

Um crime que não começa no fim. O feminicídio, forma mais extrema da violência contra a mulher, não surge de maneira isolada. Ele é resultado de um processo contínuo de agressões, geralmente inserido em relações íntimas de afeto marcadas por controle, desigualdade e histórico de violência. No Acre, essa realidade se expressa de forma contundente nos números e no perfil das vítimas, revelando uma estrutura social ainda fortemente atravessada por referências patriarcais.

Entre 2018 e 2020, o estado alcançou a maior taxa proporcional de feminicídios do Brasil, posição que motivou a intensificação de estudos e ações institucionais voltadas à prevenção e responsabilização dos agressores. O levantamento elaborado pelo Centro de Atendimento à Vítima (CAV), em parceria com o Observatório Criminal do Núcleo de Apoio Técnico (NAT) e o Gabinete da Procuradoria-Geral de Justiça do Acre, analisou esse período crítico e reforçou que, em praticamente todos os casos, havia registros prévios de violência doméstica.

Números recentes e novo sinal de alerta

Dados do Feminicidômetro do Observatório de Violência de Gênero (OBSGênero) indicam que, até 16 de dezembro de 2025, o Acre contabilizou 14 vítimas de feminicídio. Em 2024, o estado havia registrado a menor taxa dos últimos sete anos, com 1,82 morte por 100 mil mulheres. No entanto, números parciais de 2025 apontam uma taxa estimada de 2,81 por 100 mil, representando um aumento de cerca de 50% em relação ao ano anterior. Esse crescimento reacende o risco de o Acre voltar às primeiras posições do ranking nacional e evidencia a fragilidade de avanços que não sejam acompanhados por políticas públicas permanentes e integradas.

Quem são as vítimas e onde os crimes ocorrem

O perfil dos feminicídios no estado revela padrões semelhantes aos observados em nível nacional, porém com índices ainda mais concentrados. No Acre, 92% das vítimas são mulheres negras; 75% tinham entre 18 e 44 anos; 75% dos crimes ocorreram dentro da residência da vítima; 67% foram cometidos com arma branca; 100% dos autores eram companheiros ou ex-companheiros, todos no contexto de violência doméstica e familiar. Os dados reforçam que o lar, espaço associado à proteção, permanece sendo o local de maior risco para mulheres em situação de violência.

Enfrentamento institucional e planejamento estratégico

O combate ao feminicídio foi incorporado como prioridade estratégica pelo Ministério Público do Acre (MPAC) durante a revisão participativa de seu Planejamento Estratégico e também no âmbito do Planejamento Estratégico Nacional do Ministério Público (2020–2029), conduzido pelo Conselho Nacional do Ministério Público.

No Plano Geral de Atuação (PGA 2020–2021), o tema está inserido no objetivo de “aprimorar a efetividade da persecução civil e penal, assegurando direitos e garantias de vítimas e acusados”, com foco na construção de ações integradas de enfrentamento ao feminicídio. A proposta envolve desde a qualificação das investigações até o fortalecimento da rede de proteção às vítimas e seus familiares.

Prevenção exige ação antes do desfecho

O OBSGênero adota o paradigma da prevenção, destacando que o feminicídio nunca é a primeira violência. A estratégia passa por três níveis: prevenção primária, com educação e enfrentamento à misoginia; prevenção secundária, com intervenção precoce em casos já identificados; e prevenção terciária, voltada à responsabilização, reparação e garantia de direitos.

Apesar dos marcos legais recentes e de iniciativas estaduais voltadas à proteção das mulheres, os dados demonstram que o desafio permanece estrutural. O avanço ou retrocesso nos indicadores depende da continuidade das políticas públicas, da articulação entre instituições e do engajamento da sociedade no reconhecimento e no enfrentamento da violência de gênero.

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