
O Acre, há mais de um século integrado ao território brasileiro pelo Tratado de Petrópolis, volta ao centro do debate econômico nacional. Não pela novidade dos números do Ranking de Competitividade dos Estados 2024, do Centro de Liderança Pública (CLP), já amplamente divulgados na semana passada pela imprensa local e que nos colocam na condição de terceira unidade federativa que mais cresce no país, mas pelo que esses dados revelam sobre o futuro de um estado historicamente percebido como periférico.
O desempenho recente recoloca a economia acreana em uma posição incomum, sustentada sobretudo pelo pilar de potencial de mercado, e reflete um ambiente em que a variação do PIB real se tornou o principal demonstrativo de um ciclo econômico que surpreende observadores dentro e fora da região.
Crescimento do PIB: o motor do avanço
Embora responda por apenas 0,2% do PIB brasileiro, o Acre registrou em 2024 o maior crescimento real da série histórica iniciada em 2002: 14,7%, somando R$ 26,3 bilhões, o maior desde o início da série histórica do IBGE em 2002 e muito acima da média nacional e da média da Região Norte, que colocou o estado entre os três que mais expandem no Brasil, atrás apenas de Roraima e Tocantins.
É uma diferença expressiva se comparada aos 3,2% do Brasil e aos 2,9% da média da Região Norte. O salto tem raízes conhecidas: agronegócio em expansão, exportações em alta e investimentos em infraestrutura, mas levanta questões estratégicas sobre o que esse ritmo acelerado significa no longo prazo.
Para o governador Gladson Cameli, o resultado consolida uma estratégia iniciada em 2019: “A nossa economia vem crescendo gradativamente, o resultado do boletim comprova isso. Temos gerado emprego e renda, e investimos naquilo que tem dado retorno: as pessoas. Com a colaboração de cada acreano e cada acreana conseguimos chegar a esse resultado expressivo”, afirmou em publicação da Agência de Notícias do Acre.
Do Tratado de Petrópolis ao novo mapa econômico
Se há pouco mais de um século o Acre entrou oficialmente no território brasileiro por meio do Tratado de Petrópolis — operação equivalente em números atuais a cerca de R$ 2,5 bilhões —, agora ele retorna ao debate nacional por razões econômicas, não geopolíticas. A antiga narrativa de que o estado foi “trocado por um cavalo”, repetida no folclore popular, contrasta com uma realidade em que produtividade, exportações e logística explicam melhor o peso crescente da região.
O relatório do CLP mostra que, embora o Acre ainda esteja longe das primeiras posições, seu ritmo de avanço é um dos mais intensos do país. O estado ganhou posições não apenas em Potencial de Mercado, mas também em Eficiência da Máquina Pública, Segurança Pública, Capital Humano, Infraestrutura e Inovação, todos com variações positivas em relação ao ano anterior.
Exportações viram o novo eixo da economia
No cotidiano econômico, o que sustenta essa sensação de avanço é o desempenho das exportações. Entre janeiro e outubro, o Acre registrou alta de 12% no volume exportado, puxado por carne bovina, carne suína e soja. O superávit de US$ 80,2 milhões reforça a leitura de que o agronegócio passou a ocupar um papel central na formação do PIB estadual.
Segundo Assurbanipal Mesquita, secretário de Indústria, Ciência e Tecnologia (Seict), o momento abre oportunidades inéditas: “O desempenho crescente das exportações gera um impacto muito favorável. Fortalece o ambiente de negócios, estimula a atração de novos investimentos e contribui para a produção local”, afirma.
Ele explica que o avanço da indústria de proteína animal tem servido como eixo de expansão para outras cadeias produtivas. “O crescimento das exportações só contribui com o Acre, fortalecendo o emprego e ampliando oportunidades”, acrescenta.
Esse movimento aparece, ainda que de forma discreta, no próprio ranking: o Acre melhora sua posição em infraestrutura e inovação, pilares tradicionalmente sensíveis para estados amazônicos.
O impulso das cidades e do setor público
Serviços, comércio e administração pública também mantêm relevância. O relatório aponta melhora na Eficiência da Máquina Pública, área em que o estado ganhou cinco posições, reflexo de ajustes fiscais, maior clareza nas contas e melhoria na qualidade da informação contábil.
Esse avanço é importante porque indica que o salto econômico não ocorre isoladamente: há sinais de que o aparato estatal está conseguindo acompanhar o ritmo da economia, ainda que com limitações.
Avanços que chamam atenção, mas não resolvem tudo
Os dados positivos convivem com fragilidades crescentes. O Acre piorou no pilar Solidez Fiscal, perdendo três posições, e em Educação, com queda de duas colocações — um alerta porque ambos os pilares são fundamentais para sustentação de longo prazo do crescimento.
Outros desafios já conhecidos seguem presentes: infraestrutura limitada, dependência de commodities e pressões sobre a sustentabilidade ambiental. Localizado em área sensível da Amazônia Legal, o estado vive o desafio de conciliar expansão do agronegócio com preservação da floresta e proteção de populações tradicionais.
O relatório indica que, para transformar crescimento em competitividade duradoura, o Acre precisará avançar em diversificação produtiva — bioeconomia, turismo de natureza e indústria leve aparecem como caminhos possíveis.
Um estado em transição
O Acre se encontra num ponto em que dados animadores e restrições históricas se encontram. A economia avança, o ranking detecta melhora real em áreas estratégicas e o ambiente de negócios se fortalece. Ao mesmo tempo, persistem desafios que podem limitar a continuidade do ciclo atual.
A grande questão é se a combinação de crescimento econômico, ganho relativo em competitividade e fortalecimento do mercado externo será suficiente para inaugurar um novo capítulo de desenvolvimento — ou se o boom atual é apenas a expressão estatística de uma base econômica pequena.
Mais de um século após o Tratado de Petrópolis, permanece em aberto a pergunta: os R$ 2,5 bilhões investidos pelo Brasil no Acre finalmente se pagam ou o país ainda superestima o avanço do estado?








