
Uma das perguntas centrais que atravessam Xapuri e a Reserva Extrativista Chico Mendes trinta e sete anos após o assassinato do líder sindical é simples, mas profunda: há futuro para os jovens da floresta dentro da própria floresta? A trajetória de Jurivan Bezerra Rios ajuda a responder — e, ao mesmo tempo, a tensionar — essa questão.
Filho de extrativista, nascido no seringal Albrácia, colocação Gurgel, dentro da Unidade de Conservação, Jurivan cresceu entre o cotidiano da mata e a formação política promovida pelas organizações comunitárias que surgiram a partir da luta liderada por Chico. Ainda criança, mudou-se com a família para o seringal Sibéria, colocação Maloca. Como tantos outros jovens da Resex, precisou sair do território para continuar estudando.
Hoje, aos 36 anos, Jurivan é servidor público estadual, agente socioeducativo, gestor ambiental, licenciado em Química, pós-graduado em gestão pública e em meio ambiente. Em 2020, recebeu o Prêmio Chico Mendes de Resistência, na categoria Jovem Liderança. Em Xapuri, presidiu o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e trabalhou no Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Apesar disso, ele carrega uma inquietação: por que jovens formados, filhos da floresta, precisam se afastar definitivamente dela para seguir contribuindo com a vida pública?
Formado politicamente nos cursos do Centro dos Trabalhadores da Amazônia (CTA), Jurivan representa uma geração que nasceu após Chico Mendes, mas foi profundamente influenciada por sua história de luta em defesa da floresta e do modo tradicional de se viver nela. Para ele, o líder seringueiro não é apenas uma lembrança forte ou um símbolo, mas uma referência concreta de organização coletiva, justiça social e responsabilidade intergeracional.
Em mais uma entrevista da série Vozes do legado de Chico Mendes, publicadas nesta semana pelo Portal Acre, Jurivan fala sobre formação, conflitos na Resex, críticas ao legado de Chico Mendes e os desafios de atualizar regras sem desmontar o sentido histórico da reserva.

Entrevista — Jurivan Bezerra Rios
Portal Acre — Como você conheceu a história de Chico Mendes e qual a importância dele para sua formação pessoal?
Jurivan — Falar de Chico Mendes, para mim, é motivo de muito orgulho. Eu não o conheci pessoalmente — tinha apenas três meses quando aconteceu a tragédia do assassinato —, mas cresci ouvindo sua história dentro da minha família e da minha comunidade. Aos 14 anos, entrei para os cursos de capacitação oferecidos pelo antigo CTA. Ali, a presença de Chico era constante. Toda formação enfatizava sua importância, seus valores, sua luta. O CTA, infelizmente extinto hoje, formava jovens e adultos destacando o papel das populações tradicionais e reforçando esse legado. Por isso me entristece quando ouço pessoas falando mal de Chico, diminuindo sua trajetória. O legado dele transcende quem o conheceu e transcende Xapuri. É nacional, é internacional. É a história de um homem simples, guerreiro, batalhador, que assumiu uma causa maior do que ele mesmo — a ponto de entregar a vida por ela.
Portal Acre — O que mudou na percepção da comunidade da Resex ao longo do tempo? Por que algumas pessoas criticam Chico hoje?
Jurivan — Eu costumo dizer que muitas críticas de hoje nascem da falta de memória. Na época da luta, nada do que temos hoje existia: não tinha ramal, não tinha energia, não tinha celular, não tinha tecnologia. Mesmo assim, mobilizavam-se 300, 400 pessoas para um empate, porque a causa era coletiva. Depois que o território foi garantido, cada um começou a trabalhar mais para si, as condições de vida melhoraram e veio uma certa independência. Com isso, muitos se esquecem que só estão lá por causa da luta coletiva — e que quem encabeçou isso foi Chico Mendes. Hoje, algumas pessoas estão na reserva sem perfil extrativista, chegaram depois, com objetivos diferentes, e não entendem o propósito da área. Isso gera conflito e alimenta o discurso de que o extrativismo não sustenta mais. Mas é preciso lembrar: aquilo é uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável. Enquanto a lei não mudar, é preciso respeitar os limites, as regras e o propósito original.
Portal Acre — Como você vê os problemas atuais da Resex, como os conflitos na Maloca, a grilagem e o desmatamento?
Jurivan — A crise recente na região da Maloca é um exemplo claro disso tudo. Acompanhamos decisões judiciais, embargos, retiradas, e tudo isso nasce de práticas ilegais que alguns tentam normalizar: vender partes da colocação, picotar área, segmentar, desmatar além do permitido. Isso vai contra a legislação e contra o fundamento da reserva. Muitas dessas pessoas desconhecem — ou fingem desconhecer — que crimes ambientais dentro da Resex têm consequências. Aí surgem os conflitos, as ações do ICMBio, a pressão política para mudar o plano de manejo. Teve até audiência pública defendendo flexibilizações. Eu até acho que algumas atualizações podem ser necessárias — o plano é antigo. Mas atualizar não é o mesmo que desmontar. Acabar com a reserva seria rasgar tudo o que aconteceu lá atrás: o sangue derramado, as vidas perdidas e todo o sentido da luta de Chico Mendes.
Portal Acre — Como você compreende o debate sobre a atualização do Plano de Utilização? O que precisaria mudar?
Jurivan — Sou a favor de atualizar aquilo que o tempo tornou defasado, mas sempre dentro do espírito da reserva. Não é acabar, não é liberar tudo, não é transformar em colônia agrícola. Chico não lutou para isso. Eu falo muito de um tema pouco discutido: o direito dos filhos de seringueiros. Sou assentado no cadastro do ICMBio porque meu pai permaneceu na colocação. Fiz faculdade, passei em concurso, mas surge a dúvida: posso voltar a viver lá? O servidor público não pode ter propriedade na reserva, mas e o filho de seringueiro que quer contribuir, quer usar sua formação para ajudar a comunidade? Com a internet chegando na mata, cada vez mais jovens vão estudar, se formar, e muitos vão querer voltar. O plano precisa prever isso. São essas pessoas que podem renovar a reserva, trazer conhecimento e fortalecer a ideia de que ela ainda tem futuro.
Portal Acre — Qual é, para você, o verdadeiro significado do legado de Chico Mendes hoje?
Jurivan — O legado de Chico Mendes não é uma história para ser guardada em livro — é um pacto social. É o motivo pelo qual tanta gente ainda tem sua colocação hoje.As pessoas que dizem que a reserva não tem mais sentido ignoram que, se ela acabar, é como jogar fora tudo o que foi conquistado pela luta de Chico e de tantos outros. Chico não defendia estagnação. Ele defendia um tipo de desenvolvimento que não destruísse o que sustenta a própria vida das comunidades.A reserva existe porque ele entendeu que sem floresta não tem futuro — nem para quem mora nela, nem para quem mora fora. Se algumas regras precisam ser atualizadas, que sejam. Mas o legado, esse não pode ser desmontado.







