
Em um cenário onde o Acre se projeta internacionalmente como um “case de sucesso” em economia verde (SISA e REDD+), o legado de Chico Mendes será colocado à prova mais uma vez. A partir do próximo dia 15, quando se realiza mais uma Semana Chico Mendes, a programação traz um tema provocativo: “O Desaguar da COP30”, buscando conectar a diplomacia climática da conferência de Belém (PA) com a persistente e violenta realidade dos territórios extrativistas.
A agenda do Comitê Chico Mendes se divide entre Xapuri (15 a 18/12), berço do ativista, e Rio Branco (19 a 22/12), culminando no dia 16 de dezembro, data da morte do líder seringueiro em 1988, com a tradicional caminhada solene ao seu túmulo saindo da casa onde ele viveu os últimos anos de sua vida e foi assassinado no tristemente célebre 22 de dezembro de 1988.
A dualidade da Amazônia acreana
O Acre carrega a responsabilidade de ser o estado que inspirou as políticas de desenvolvimento sustentável e o conceito de Reservas Extrativistas (Resex). Recentemente, a comitiva estadual liderada pelo governador Gladson Cameli, pela vice-governador Mailza Assis e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) celebrou sua atuação na COP30, destacando a longevidade do Sistema de Incentivos a Serviços Ambientais (SISA) e os resultados de redução de desmatamento.
O discurso oficial, endossado por autoridades, é de que a vitória na preservação da floresta é fruto da governança e escuta ativa dos povos tradicionais. “A trajetória do Acre nas políticas ambientais é resultado de um esforço coletivo que valoriza o conhecimento tradicional, a escuta ativa e a justiça social. Nosso modelo inclui quem realmente protege a floresta”, afirmou o secretário de Estado de Meio Ambiente, Leonardo Carvalho, em encontro realizado durante a COP com a equipe do Environmental Defense Fund (EDF).
Também participaram da reunião a secretária de Políticas para os Povos Indígenas, Francisca Arara; a presidente do Instituto de Mudanças Climáticas do Acre (IMC), Jaksilande de Lima; e Mark Moroge, vice-presidente da área de florestas da instituição do EDF, que é uma das principais organizações ambientais do mundo, sem fins lucrativos, que combate as mudanças climáticas com soluções inovadoras que colocam as pessoas no centro das ações.
Assim, o Acre se posiciona como um modelo, com políticas que, na teoria, remuneram o extrativista por manter a floresta em pé. No entanto, essa narrativa de sucesso é constantemente confrontada por manifestações e notas de alerta da própria base e de órgãos de fiscalização:
A persistência dos “empates” e a violência: Meses antes da Semana Chico Mendes, o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) denunciou publicamente o aumento de ações criminosas e a tentativa de incêndio contra agentes dentro da própria Reserva Extrativista Chico Mendes durante a Operação Suçuarana, na região da Resex conhecida como Maloca, em Xapuri. A ameaça central, segundo o órgão, é a expansão ilegal da pecuária, evidenciando que o conflito histórico que vitimou o líder em 1988 não só continua vivo, como está se acirrando no chão da floresta.
O risco da “desvirtualização” das Resex: O movimento socioambiental questiona se a institucionalização da pauta, embora necessária, não estaria “domesticando” o modelo de resistência. Líderes como Angela Mendes, filha de Chico Mendes, presentes na COP30, reafirmaram que a luta não pode ser apenas protocolar e que a “vitória depende de nossa organização e disciplina”. A agenda de debates da Semana busca, justamente, resgatar a luta pela justiça socioambiental e não apenas a métrica de carbono.
O chamado da juventude e a arte como resistência
O “Desaguar da COP30” sinaliza que a luta pela Amazônia não está apenas nos gabinetes, mas na rua, na arte e na cultura. A programação da Semana Chico Mendes será precedida pelo retorno do Festival Varadouro, após 15 anos de pausa, unindo a força da cena musical amazônica e latino-americana ao debate socioambiental.
Essa integração da cultura (juventude, arte e música) com o ativismo político (debates, rodas de conversa e a caminhada solene ao túmulo de Chico Mendes) demonstra que a nova geração de defensores da floresta busca um “novo empate”: um que utilize o conhecimento tradicional, a tecnologia (citada em parcerias governamentais) e, principalmente, a mobilização social para garantir que as promessas climáticas globais da COP30 cheguem de forma justa e efetiva ao ribeirinho, ao extrativista e ao indígena.
Angela Mendes ainda afirmou durante a conferência que a ideia de levar a memória de seu pai para a COP30 surgiu assim que foi noticiado que o evento seria realizado na Amazônia. “Não pode ter uma COP30 sem falar de Chico Mendes, do seu legado, como o patrono do meio ambiente brasileiro, como herói brasileiro. Sem chances de ter uma COP aqui e a gente não trazer toda a grandiosidade do legado que ele deixa para a humanidade. Porque as reservas extrativistas são um legado para sempre. Isso foi o que nos motivou a estar presente”.
A Semana Chico Mendes 2025 se configura, portanto, como um termômetro da Amazônia. Ela testará se o Acre será capaz de manter o equilíbrio entre ser um “laboratório de sustentabilidade” global e, ao mesmo tempo, proteger seus ativistas e suas Reservas dos ataques internos que ameaçam o cerne da luta de Chico Mendes. A resposta, a partir do dia 15, será dada pelos próprios povos da floresta.








