
Mileny Andrade (estagiária), sob supervisão de Leônidas Badaró
A Festa de São Sebastião, em Xapuri, vai muito além da devoção ao santo padroeiro. A celebração também é marcada pelas histórias de vida de pessoas que ajudaram a construir a tradição ao longo dos anos. Nesta segunda-feira, 19, durante a cobertura do evento, o Portal Acre encontrou um desses personagens: Raimundo Honorato, de 75 anos, morador do Seringal Boa Vista, às margens do Rio Xapuri.
Natural do Ceará, seu Raimundo chegou ao Acre apenas com um mês de vida. Foi batizado no estado e construiu toda a sua vida em terras acreanas. Se considera xapuriense de coração e carrega na fala e na memória a história do povo da floresta.
Seringueiro desde muito cedo, seu Raimundo começou a cortar seringa aos 10 anos de idade, após perder o pai. Ao todo, foram 60 anos de trabalho na extração do látex, atividade que marcou profundamente sua vida. Hoje, mesmo sem depender mais da seringa para sobreviver, ele ainda mantém o hábito de entrar na mata.
“Eu ainda corto seringa. Não é por viver disso, é por saudade. Sinto muita saudade de cortar a seringa”, disse. Além do látex, ele também segue quebrando castanha, mantendo viva a relação com a floresta e com o modo de vida extrativista.

Morando no Seringal Boa Vista, seu Raimundo carrega lembranças de um tempo difícil. Sem oportunidades de estudo, ele conta que não aprendeu a ler nem a escrever, algo que lamenta até hoje. “Eu sinto muito por não ter tido estudo. Não tive essa oportunidade”, relatou, ao lembrar da infância marcada pela perda dos pais e pela necessidade de trabalhar desde cedo.
Mesmo diante das dificuldades, ele se orgulha da própria trajetória. “Nunca mexi no alheio. Fiquei jogado no mundo, mas sempre fui um homem direito”, afirmou, destacando os valores que aprendeu ao longo da vida.
Devoto de São Sebastião, seu Raimundo participa da festa todos os anos. Para ele, a celebração é um momento especial de fé, encontro e gratidão. “É uma festa muito bonita. Todo ano a gente vem, visita, participa, ajuda como pode”, contou. Durante o evento, ele participa do bingo e contribui com doações para apoiar a igreja na realização da festa.
Ao passar pelo espaço histórico montado no centro de Xapuri, seu Raimundo se emocionou ao ver uma péla de borracha, exatamente como a que produzia quando era seringueiro. e ao tempo em que trabalhava na mata. “Quando eu vi a borracha ali, me deu saudade do tempo que eu cortava seringa”, disse.
Histórias como a de Raimundo Honorato mostram que a Festa de São Sebastião é feita não apenas de tradição religiosa, mas também de personagens que representam a identidade, a memória e a resistência do povo xapuriense. São vidas simples, marcadas pelo trabalho, pela fé e pela ligação profunda com a floresta, que ajudam a manter viva a história de Xapuri.







