Sob a condição do anonimato, o Portal Acre conversou, com exclusividade, com uma servidora pública que se considera viciada em apostas eletrônicas.
A servidora e mãe de uma filha tem 42 anos e conta que começou a apostar há cerca de dois anos. De lá pra cá, a vida virou um verdadeiro inferno. Ela conta que, no início, o que parecia uma brincadeira e diversão, se tornou um vício a ponto de gastar quase todo o seu salário em apostas eletrônicas.

“Eu comecei como todo mundo, uma amiga disse ‘olha que legal’, e aí comecei como forma de brincadeira. Só que essa brincadeira vai te prendendo de tal forma que eu comecei a apostar toda semana, depois passou a ser a cada dois dias e quando eu percebi eu estava apostando várias vezes por dia, completamente afundada ao ponto de chegar ao final do mês e eu ter gasto boa parte do meu salário em apostas”.
Ela conta que teve a consciência de que tinha passado do ponto em uma determinada manhã. “Eu percebi que já era vício quando um dia eu acordei e a primeira coisa que eu fiz foi pegar o meu celular, que estava ao lado da cama, e antes de fazer qualquer outra coisa, eu joguei. Aí eu tive a consciência de que eu não estava bem e que precisava de ajuda”, detalha.
A servidora pública conta que pediu ajuda e que hoje faz tratamento, e está há mais de três meses sem jogar.
“Eu pedi ajuda para minha filha, conversei, porque já tinham percebido na minha casa que tinha alguma coisa errada. Eu sempre fui muito responsável com minhas contas e algumas começaram a atrasar. Hoje, eu faço um acompanhamento com um psiquiatra e graças a Deus estou conseguindo me livrar do que considero um vício. Eisso serve de alerta para todo mundo”, afirma.
O caso da acreana tem se tornado mais comum do que se imagina. O vício em jogos de apostas eletrônicos é considerado um transtorno patológico desde 2024 e tem Classificação Internacional de Doenças (CID). Segundo um levantamento nacional coordenado pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), uma das principais consequências do uso abusivo das plataformas, para além dos prejuízos financeiros, é o sofrimento mental causado pelos sentimentos de vergonha e culpa.
A temática já foi debatida na Assembleia Legislativa do Estado do Acre (Aleac), que junto a Comissão de Direitos do Consumidor da instituição, debateu a elaboração de políticas de regularização, com o intuito de impedir o endividamento das famílias acreanas, principalmente as em situação de vulnerabilidade.
Para minimizar os danos a nível nacional, o Governo Federal, por meio do Ministério da Fazenda, criou a plataforma “Autoexclusão – Pare de Apostar”. Ao se inscrever, os cidadãos bloqueiam a própria participação em todas as casas de apostas federais autorizadas pelo período mínimo de um mês. O cadastro também bloqueia anúncios e publicidades referentes à prática. A restrição é feita com o cadastro Gov, direto na plataforma.
A iniciativa é voltada aos cidadãos que sentem que as apostas têm afetado negativamente o dia a dia, de forma preocupante.
Em entrevista ao Portal Acre, o médico, pós-graduado em Psiquiatria e Saúde Mental, Moisés Menezes, explica que o gasto excessivo, mentiras e sensação de ansiedade e irritabilidade são alguns dos sinais de alerta.
“É importante ficar atento quando o jogo deixa de ser lazer a passa a causar sofrimento ou prejuízo. Gastar cada vez mais tempo e dinheiro com apostas, sentir dificuldade de parar, irritação e ansiedade quando não consegue jogar, e mentir para familiares, são só alguns dos sinais de alerta”, pontua o médico.

Moisés acrescenta que as plataformas viciam pois estimulam o sistema de recompensa do cérebro. “Esses sites, casas, são construídos para estimular esse sistema por meio de ganhos imprevisíveis. Isso aumenta a liberação de dopamina e mantém a pessoa jogando, e esses quase-ganhos e a chance de recuperar perdas, é o que favorece a perda de controle e uso compulsivo”, destaca.
Viana orienta que, quando o jogo causa sofrimento ou prejuízo, é necessário buscar ajuda qualificada e profissional.
“O tratamento envolve, principalmente, psicoterapia, com destaque para a terapia cognitivo-comportamental, que ajuda a pessoa a reconhecer gatilhos, modificar padrões de pensamento e desenvolver estratégias de controle. Em alguns casos, se houver ansiedade, depressão ou impulsividades associadas, pode ser necessário o uso de medicação. O apoio familiar, organização da vida financeira e afastamento das plataformas, são medidas importantes e essenciais para a melhora”.








