Rio Branco, 15 de maio de 2026.

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Tribunal de Justiça relembra crime ocorrido há 85 anos e que permanece vivo na memória acreana

Documentos históricos, como a convocação dos jurados em jornal da época, são preservados pelo arquivo do TJAC – Foto: Arquivo TJAC

Neste domingo, 25, completam-se 84 anos do início do julgamento de um dos crimes mais bárbaros da história do Acre, ocorrido em 25 de novembro de 1941, em Rio Branco. O caso, que vitimou a jovem professora Rosalina de Souza Silveira, voltou a ser lembrado em publicação feita neste sábado, 24, no portal do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC), assinada pela jornalista Miriane Teles, com base em documentos históricos preservados pelo Arquivo da instituição.

O julgamento teve início em janeiro de 1942, durante a primeira sessão ordinária do Tribunal do Júri da então Comarca de Rio Branco. O réu, Lázaro Ferreira Nunes, já condenado por outros crimes, foi sentenciado de forma unânime a 30 anos de reclusão pelo assassinato da professora, pena que somada às anteriores chegou a 60 anos.

Rosalina tinha apenas 20 anos quando foi morta com nove golpes de punhal. À época, o crime chocou profundamente a pequena e tranquila capital acreana, provocando comoção popular e uma das maiores manifestações coletivas já registradas em um funeral no território. A violência extrema e a brutalidade do ato fizeram com que o caso se fixasse no imaginário popular, atravessando décadas.

Com o passar dos anos, a jovem professora passou a ser vista por muitos como uma “milagreira”. Seu túmulo, localizado no Cemitério São João Batista — o mais antigo da capital — tornou-se local frequente de visitas, orações e promessas, reforçando o caráter simbólico que a vítima assumiu na memória coletiva acreana.

Segundo o historiador Marcos Vinícius, ouvido na reportagem do TJAC, Rosalina lecionava no antigo Grupo Escolar 7 de Setembro, que funcionava onde hoje está o Palácio das Secretarias. No trajeto diário entre casa e trabalho, ela passava pela área da antiga penitenciária de Rio Branco, local onde o agressor cumpria pena e realizava serviços externos. A obsessão que ele desenvolveu pela jovem, agravada ao descobrir que ela namorava um sargento da Força Aérea Brasileira, culminou no crime premeditado.

Documento preservado pelo TJAC que destaca a revolta da sociedade com o crime – Foto: Arquivo TJAC

O assassinato ocorreu em plena via pública, quando Rosalina seguia para o trabalho. O autor foi preso em flagrante após tentar tirar a própria vida. Mais de 40 testemunhas foram ouvidas, e uma carta deixada por Lázaro revelou que o crime havia sido planejado.

Naquele período, ainda não existia no ordenamento jurídico brasileiro a tipificação do feminicídio, criada apenas em 2015. Hoje, o caso seria classificado como crime hediondo, exemplo de como a violência contra as mulheres atravessa gerações e permanece como uma chaga social.

Décadas depois, o réu chegou a ser beneficiado por indulto concedido pelo então presidente Getúlio Vargas, após cumprir parte da pena em penitenciárias fora do Acre. Ainda assim, a punição jamais apagou o impacto do crime sobre a sociedade local.

A história de Rosalina também inspirou a literatura acreana. Em 2016, o escritor Antônio Stélio lançou o romance “Rosalina, Meu Amor”, obra que busca eternizar na ficção um episódio que marcou profundamente o estado. Para o autor, tratar do tema foi uma forma de preservar a memória histórica e cultural do Acre.

Capa da romance escrito por Antônio Stélio, inspirada na história da morte de Rosalina – Foto: reprodução

O resgate feito pelo Tribunal de Justiça do Acre, ao revisitar os autos do processo, reafirma a importância da memória como instrumento de reflexão. Passados 84 anos, o crime contra Rosalina de Souza Silveira segue como um símbolo doloroso da violência de gênero e um alerta permanente para que histórias assim não se repitam.

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