Rio Branco, 6 de março de 2026.

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Seca histórica no Acre revela recifes de ostras de água doce no Rio Muru, em Tarauacá

Recife de ostras exposto pela seca do Rio Muru – Foto cedida

A seca extrema que atingiu o Acre em 2024 trouxe um fenômeno surpreendente no interior da Amazônia: a revelação de pequenos “recifes” formados por ostras de água doce no leito do Rio Muru, em Tarauacá. A descoberta foi feita por pesquisadores Fábio Olmos, Gabriel Serwy Caram e Pedro Bueno Rocha Campos, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e publicada na revista científica Acta Amazonica. O tema também ganhou destaque em reportagem da jornalista Karina Pinheiro no site ambiental O Eco.

O que foi encontrado?

Com o nível do Rio Muru extremamente baixo durante a estiagem, ficaram expostas plataformas naturais de calcário — chamadas de calcrete — que normalmente permanecem submersas. Sobre essas formações, os pesquisadores encontraram densas agregações da ostra de água doce Bartlettia stefanensis, espécie nativa da Amazônia ocidental. Essas ostras estavam tão agrupadas que formavam estruturas semelhantes a recifes marinhos — algo nunca descrito antes para esse tipo de ambiente na região.

Em alguns pontos, as formações chegavam a mais de 20 metros de comprimento e 3 metros de largura, criando pequenas corredeiras no rio. As conchas cobriam completamente as superfícies de calcário, como acontece com recifes de ostras no mar.

As ostras de água doce da família Etheriidae são conhecidas por se fixarem em superfícies duras submersas, como rochas e margens consolidadas de rios. No entanto, a formação de “recifes” sobre grandes plataformas de calcário no meio do leito do rio não havia sido registrada antes no Brasil. A espécie Bartlettia stefanensis ocorre nas bacias do oeste do Amazonas e do alto Paraná, mas pouco se sabia sobre sua ecologia em rios acreanos.

O Rio Muru, que nasce no Peru e corta o centro do Acre antes de desaguar no Rio Tarauacá, possui margens íngremes e camadas naturais de carbonato de cálcio. Durante a seca histórica de 2024, essas estruturas ficaram expostas ao ar, revelando o que antes estava escondido sob a água.

Relação com as mudanças climáticas

Detalha da superfície totalmente coberta pelas ostras – Foto cedida

A seca de 2024 foi considerada uma das mais severas já registradas no Acre. Dados da Agência Nacional de Águas (ANA) indicaram situação de seca “excepcional” entre agosto e outubro daquele ano. O nível do rio caiu drasticamente, deixando trechos rasos, com água na altura do tornozelo. Com isso, os recifes de ostras ficaram totalmente expostos ao sol e ao calor, provocando a morte de grande parte dos indivíduos — um evento de mortandade em massa.

Os pesquisadores alertam que o fenômeno está diretamente ligado ao aumento da frequência de secas extremas, associado às mudanças climáticas e ao desmatamento na Amazônia. Essas alterações no regime dos rios podem afetar não apenas essa espécie, mas todo o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos. Assim como os recifes marinhos servem de abrigo para peixes e outros organismos, essas formações no Rio Muru provavelmente também desempenham papel ecológico importante — ainda pouco estudado.

Espécie sob atenção

Bartlettia stefanensis já foi considerada “Vulnerável” na lista brasileira de espécies ameaçadas. Hoje é classificada como “Dados Insuficientes” no Brasil e “Quase Ameaçada” pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). A descoberta no Acre amplia o conhecimento sobre sua distribuição, mas também acende um alerta: eventos climáticos extremos podem comprometer a sobrevivência da espécie e dificultar sua recuperação.

O que a seca revelou no Rio Muru é mais do que uma curiosidade científica. Trata-se de um sinal claro de como as mudanças climáticas estão transformando a dinâmica dos rios amazônicos. Se por um lado a estiagem permitiu a descoberta de um habitat até então desconhecido, por outro mostrou a fragilidade desses ecossistemas diante de extremos climáticos cada vez mais frequentes.

O fenômeno reforça que o Acre, assim como toda a Amazônia, já sente os impactos concretos das mudanças climáticas — e que a ciência segue desempenhando papel fundamental para compreender e enfrentar esses desafios.

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