
Em meio a campanhas de conscientização contra as diversas violências enfrentadas por mulheres, a advogada Marina Belandi, conhecida como “especialista em direitos dos produtores rurais”, e vice-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Acre (OAB/AC), entre 2016 e 2021, usou as redes sociais na tarde desta terça-feira, 10, para expor um caso grave de ameaça envolvendo um suposto membro de organização criminosa. Além da coação, o homem que ameaça Belandi questiona sua qualificação enquanto mulher e advogada.
“Neste momento, não escrevo apenas como advogada, mas como mulher que sentiu na pele o peso do silenciamento que tentam impor a tantas outras todos os dias. O relato que segue não é um caso isolado; é o retrato de um sistema onde o crime desafia as instituições dentro de seus próprios gabinetes”, diz a advogada nas redes sociais.
Segundo o relato de Belandi, a ameaça teria surgido após o atendimento de uma cliente envolvendo uma suposta dívida contra o homem. Assim, a advogada e a cliente, que já havia passado por extorsão e ameaças, buscaram amparo em uma delegacia, com o auxílio de autoridades policiais.
“Ao assumir a interlocução como profissional, o cenário se tornou ainda mais sombrio. Diante do meu pedido técnico por um contrato ou via judicial para resolver a suposta dívida, a resposta foi o escárnio”, continua o relato.
Ameaças se intensificaram
Em entrevista ao Portal Acre, Marina Belandi relata que as ameaças contra a cliente vinham acontecendo desde o ano passado, e se intensificaram especialmente neste mês. Segundo ela, em uma das situações, pessoas chegaram a invadir a residência da cliente. Nesta terça-feira, 10, as ameaças, foram direcionadas à Belandi.
Em capturas de tela anexados na postagem, é possível ver as mensagens em cunho ameaçador:
“A senhora ‘tá’ de brincadeira. ‘Tá’ defendendo uma pilantra. O nosso negócio envolve muito dinheiro”, diz.
Em outra mensagem, a advogada cita o desrespeito às instituições. Por meio de outro contato, uma das imagens mostra o homem pedindo acesso à localização da advogada.
“Você não venha me intimidar. Nós não tememos ninguém e principalmente o sistema”, diz o homem, nas mensagens.
Em um dos áudios, o homem cita que outros membros estavam “para matar ou morrer” contra a advogada e a cliente:
“Eu tentei, com toda a humildade, de várias formas, para ele ter contato com a senhora, para resolver de uma boa maneira, entendeu? Só passou, estava com essa advogada aí, ela veio crescer para cima de mim, agora vai dar ruim, tá? O cara mandou a operação, mandou ela mandar a localização, ela foi para a delegacia, na polícia civil, elas estão lá. Agora está com ela, entendeu? Se o cara reagir, entendeu? Não tenho medo de nada não, entendeu? Eles estão para matar ou morrer, entendeu?”, diz.
“Não recuaremos”
“Pois saibam, todos, que NÃO RECUAREMOS!”.
O forte relato nas redes sociais de Belandi envolve uma situação que ela cita como “misoginia explícita”, durante a tentativa de invalidar a profissional, ao exigir falar com um homem.
“Ouvir que ‘deveria haver um homem para tratar disso’ ou ter o endereço residencial citado como arma de intimidação não é apenas um ataque à profissional; é uma tentativa de expulsar as mulheres da linha de frente da justiça”, disse, em entrevista ao Portal Acre.
Belandi finaliza dizendo que não vai recuar diante da situação, e cita que a OAB e as autoridades de segurança devem ter um olhar sensível para o exercício da profissão da mulher advogada:
“O ataque a uma advogada no exercício de sua função é um ataque ao Estado Democrático de Direito. Quando uma profissional é ameaçada por sua identidade de gênero e por sua postura ética, o recado do crime é claro: eles querem que as mulheres recuem. Querem que tenhamos medo de ocupar espaços de defesa e de proteção”, relata na publicação das redes sociais.
Ao Portal Acre, Mariana Belandi relatou que um boletim de ocorrência foi registrado na delegacia. Um pedido de medida protetiva também foi solicitado. Nesse momento, ela e a cliente aguardam as autoridades competentes.
“Existe um silêncio ensurdecedor que ocorre logo após uma ameaça. É o momento em que a técnica jurídica se choca com a brutalidade do real. O sentimento de impotência tenta se sentar à mesa conosco. Ele questiona nossa segurança, invade nossa privacidade e usa o nosso gênero como tentativa de desqualificação”, finaliza a advogada, em entrevista.












