Rio Branco, 19 de abril de 2026.

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Artigo de Opinião – ‘Advogar não pode ser uma atividade de risco’

Por Thalles Sales

Thalles Lessa fala sobre assassinato de advogados – Foto acervo pessoal

Há algo profundamente errado quando o exercício da advocacia passa a conviver, com naturalidade inquietante, com notícias de morte. Não se trata mais de episódios isolados, nem de fatalidades desconectadas.

O que se vê, nos últimos tempos, é uma sequência de casos que revelam um cenário preocupante: advogados sendo assassinados em razão direta daquilo que fazem: trabalhar.

Hoje, mais um caso veio à tona. Um advogado foi morto após cumprir uma diligência judicial, no exercício regular da profissão. Mais um. E é justamente esse “mais um” que mais incomoda. Porque ele já não soa como exceção: soa como continuidade.

O que mais inquieta não é apenas a violência em si, mas a sua repetição. Advogados mortos durante diligências, executados após atuarem em processos sensíveis, atacados em seus próprios escritórios ou até em encontros profissionais.

Cada nova notícia já não causa surpresa. Eesse talvez seja o ponto mais grave. Estamos nos acostumando. E não deveríamos!

A advocacia é, por definição, uma atividade de tensão. Ela lida com conflito, com interesses opostos, com perdas e ganhos que muitas vezes são significativos (econômica, política e emocionalmente). Mas isso nunca poderia significar risco à vida. Nunca poderia significar que cumprir um mandado, participar de uma audiência ou assumir uma causa pudesse custar a própria existência.

Não há normalidade possível nisso!

E, diante de mais esse episódio, é inevitável que a indignação dê lugar a algo ainda mais profundo: um certo cansaço. Cansaço de ver a repetição dos fatos. Cansaço de perceber que vidas estão sendo perdidas enquanto as respostas ainda são tímidas. Cansaço de constatar que, em muitos casos, o advogado segue sozinho diante de situações potencialmente perigosas.

Mas é justamente nesse ponto que o debate precisa evoluir.

Se por um lado os episódios recentes escancaram a gravidade do problema, por outro já existem iniciativas que apontam caminhos possíveis. Em Minas Gerais, por exemplo, a OAB elaborou um protocolo de segurança voltado à advocacia, com orientações práticas sobre atuação em diligências, atendimento em escritório, identificação de riscos e medidas preventivas.

Não se trata de solução definitiva, e nem poderia ser. Mas é um passo importante. Um reconhecimento institucional de que o problema existe, é concreto e precisa ser enfrentado de forma organizada.

Mais do que isso: o protocolo mineiro revela algo essencial: a segurança da advocacia não pode ser tratada apenas como uma questão individual. Ela precisa ser pensada de forma estruturada, com diretrizes, planejamento e suporte.

Talvez esse seja um dos caminhos possíveis.

A partir daí, o debate pode (e deve) avançar. É preciso pensar em protocolos mínimos de segurança para diligências sensíveis, especialmente aquelas que envolvem conflitos mais intensos.

É necessário fortalecer canais institucionais de comunicação e resposta rápida diante de ameaças. E é igualmente importante discutir mecanismos que assegurem maior proteção ao advogado no exercício da profissão, reconhecendo a relevância da função que desempenha.

Nada disso se constrói com soluções isoladas. Exige coordenação, maturidade institucional e, sobretudo, prioridade.

Advogar não pode ser (nem pode se tornar) uma atividade de risco.

E talvez já tenha passado da hora de transformarmos essa constatação em algo mais do que um alerta recorrente. É preciso tratá-la como uma pauta urgente, que exige reflexão, ação coordenada e, sobretudo, compromisso real com a proteção da advocacia.

[1] Thalles Sales é advogado, especialista em Direito Público e em Direito Eleitoral e recém empossado juiz eleitoral no TRE/AC.

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