Rio Branco, 1 de maio de 2026.

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CPT-AC repudia chacina no sul do Amazonas e denuncia escalada da violência no campo na região de fronteira com o Acre

As três vítimas da chacina registrada no último sábado no sul do Amazonas – Foto montagem

A Comissão Pastoral da Terra no Acre (CPT-AC) divulgou nesta semana uma nota pública de repúdio após mais um episódio de violência no campo registrado no sul do Amazonas, na região de fronteira com o Acre. O caso, ocorrido na noite do último sábado (25/4), resultou na morte de três pessoas na Gleba Recreio do Santo Antônio, área rural do município de Lábrea, território inserido na chamada Amacro — região marcada por conflitos fundiários e pressão sobre áreas de floresta.

As vítimas foram identificadas como Antônio Renato, de 32 anos; Josias Albuquerque de Oliveira, conhecido como “Pica”, de 45; e o adolescente Arthur Henrique Ferreira Said, de apenas 14 anos. Segundo relatos de testemunhas, o grupo estava em uma caminhonete quando foi surpreendido por uma emboscada na cabeceira da ponte da Gleba Pauene. Após os disparos, o motorista perdeu o controle do veículo, que caiu em um igarapé. Outros dois ocupantes conseguiram fugir.

De acordo com a Polícia Militar do Amazonas, dois suspeitos foram presos e armas de grosso calibre — incluindo um fuzil e duas pistolas — foram apreendidas. As famílias das vítimas, no entanto, afirmam que o crime teria sido encomendado por um fazendeiro da região, já citado em outros episódios de violência. A investigação sobre a possível autoria intelectual segue em andamento.

Região é chamada de “terra sem lei”, onde predomina a violência – Foto cedida

Nota denuncia “terra sem lei” e omissão do poder público

Na nota, a CPT-AC afirma que a região sul do Amazonas tem se consolidado como uma espécie de “terra sem lei”, onde conflitos por terra são frequentemente resolvidos pela violência. A entidade aponta que a escalada dos crimes está diretamente associada à omissão do poder público e à fragilidade das políticas de proteção às populações do campo.

“O cenário revela mortes, ameaças e violações sistemáticas de direitos humanos”, diz o documento, ao destacar a situação de vulnerabilidade enfrentada por trabalhadores rurais, lideranças comunitárias e defensores ambientais.

A pastoral também ressalta que cada morte representa não apenas uma perda irreparável, mas um ataque direto à justiça social, sobretudo em um contexto histórico de desigualdade no campo.

Conflito antigo e área sem regularização

A Gleba Recreio do Santo Antônio é uma área federal com histórico de disputas. Parte do território foi regularizada e transformada no Projeto de Assentamento (PA) Monte, enquanto outra parcela permanece sem regularização fundiária — justamente onde os conflitos mais intensos têm ocorrido.

Segundo registros da própria CPT, os embates na região são documentados desde pelo menos 2018, com relatos de ameaças, atentados e tentativas de homicídio contra trabalhadores rurais. Testemunhas afirmam que as vítimas já haviam sido alvo de ataques anteriores após desentendimentos com o mesmo fazendeiro apontado como suspeito.

“Eles já tinham ido à delegacia após uma discussão e, na volta, foram baleados por pistoleiros. Continuaram na terra, e agora foram emboscados”, relatou um morador, que também destacou o poder bélico dos criminosos.

Moradores da região relatam que o período de chuvas intensas agrava o isolamento das comunidades, dificultando o acesso por estradas precárias e limitando a comunicação devido à instabilidade de internet. Segundo eles, essas condições acabam sendo exploradas por grupos armados para executar ataques com menor risco de reação imediata das autoridades.

Diante do novo episódio de violência, a CPT-AC cobra investigação rigorosa e célere dos crimes no campo; responsabilização dos autores e mandantes; garantia de proteção aos trabalhadores rurais e comunidades ameaçadas; fortalecimento de políticas públicas e mecanismos de mediação de conflitos agrários; e respeito aos direitos territoriais e humanos das populações do campo.

A entidade encerra a nota reafirmando o compromisso com a defesa da vida e da dignidade humana: “Não aceitaremos o silêncio nem a normalização da violência. Nenhuma morte a mais no campo”.

O caso reacende o alerta sobre a persistente violência agrária na região da Amacro, onde a disputa por terra, associada a interesses econômicos e à ausência do Estado, continua produzindo um cenário de insegurança e impunidade.

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