Rio Branco, 7 de maio de 2026.

Sem fronteiras 4

Após 40 anos no SUS, servidora acreana é homenageada e relembra lutas, avanços e desafios da saúde pública

Amigos e companheiros de trabalho ao longo de quatro décadas fizeram um café para homenager Elisama – Foto cedida

Quando entrou para a saúde pública, em 1986, Elisama Lima tinha apenas 19 anos e nenhuma formação na área, visto que foi contratada para trabalhar no antigo prédio da Funasa, na Avenida Antônio da Rocha Viana, onde atuava no setor de estatística. Na época, o Sistema Único de Saúde ainda nem existia efetivamente. Quatro décadas depois, ela segue na Secretaria de Estado de Saúde do Acre.

“Eu não imaginava chegar a esse tempo todo de serviço”, conta. “A gente entra jovem, pensa que talvez fique um período, mas a vida vai levando.”

Ainda nos anos 1980, Elisama participou da Conferência Estadual sobre Saúde da Mulher e foi escolhida como delegada para representar o Acre em Brasília durante as discussões nacionais que ajudaram a construir o SUS. Ela guarda até hoje o certificado do evento assinado por Sérgio Arouca.

Elisama guarda com carinho certificado da primeira Conferência Nacional de Saúde que participou – Foto acervo pessoal

Depois passou pela Maternidade Bárbara Heliodora, onde trabalhou por mais de dez anos. Foi lá também que decidiu fazer o curso técnico de enfermagem no Senac e também passou a atuar junto ao movimento sindical e aos conselhos de saúde.

Ao longo da carreira, presidiu o Conselho Municipal de Saúde de Rio Branco, participou do Conselho Estadual de Saúde, integrou movimentos ligados à saúde da mulher, da criança, do adolescente e também à defesa de pessoas com deficiência e autismo.

Participou também da construção do plano de carreira da saúde, durante o governo Jorge Viana. Segundo Elisama, representantes de várias categorias passaram mais de um ano discutindo a proposta até que ela fosse votada na Assembleia Legislativa.

“Foi uma vitória muito grande para os trabalhadores da saúde. Não era um plano perfeito, mas foi o possível naquele momento”, afirma. “A gente saiu da Assembleia quase quatro horas da manhã depois da votação.”

Mas a caminhada também foi marcada por momentos difíceis. Elisama lembra de uma greve realizada em frente ao Palácio Rio Branco, em que trabalhadores foram reprimidos pela cavalaria da Polícia Militar.

Registro da participação na Conferência Nacional da Mulher em 1986 – Foto acervo pessoal

“Eu vi companheiros sangrando, levando paulada na cabeça. Aquilo me marcou muito”, relata.

Mesmo após tantos anos, ela acredita no SUS e defende que o sistema público avançou muito nas últimas décadas. Para ela, o Acre viveu mudanças importantes, principalmente no que diz respeito à ampliação dos atendimentos especializados e descentralização de serviços de saúde.

“Antes, praticamente tudo precisava ser feito fora do estado. Tratamento de câncer, transplante, exames. Hoje avançou muito, mesmo com todas as dificuldades.”

Elisama também critica a falta de continuidade em algumas políticas públicas e defende que cargos de gestão na saúde devem ser ocupados por pessoas com preparo técnico.

“Às vezes colocam pessoas sem conhecimento nenhum da área para administrar a saúde. Isso prejudica o sistema.”

Elisama com sua homenagem pelos 40 anos de SUS – Foto cedida

Atualmente, ela segue atuando na Secretaria de Estado de Saúde. Depois de 40 anos de serviço público, afirma que a principal motivação para continuar trabalhando ainda é acreditar na saúde pública.

“O que me move é saber que tem gente precisando do SUS todos os dias. A gente pensa em desistir muitas vezes, mas continua porque acredita.”

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