
No Acre, o artesanato indígena não nasce apenas das mãos, nasce da memória, da floresta e da ancestralidade. Cada peça carrega histórias, ensinamentos e uma relação profunda com a natureza. Hoje, esse saber milenar atravessa fronteiras e se transforma também em fonte de renda e autonomia para centenas de famílias.
Esse movimento ganha força por meio da parceria entre o governo do Acre e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), que estruturaram o programa Artesanato Acreano como uma estratégia de desenvolvimento econômico aliada à valorização cultural.
Mais do que fomentar a produção, a iniciativa reconhece o artesanato como expressão viva dos povos indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais e aposta em três pilares essenciais: capacitação, desenvolvimento de produtos e acesso ao mercado.
Para quem vive do artesanato, ele não é apenas trabalho, é identidade. A artesã indígena Amélia Marubo traduz essa conexão com simplicidade e profundidade: “Eu comecei com 12 anos, aprendendo com minha mãe, minha avó e minha irmã. Esse conhecimento vem da família, da vivência”, disse.
Hoje, ela coordena um grupo de mulheres da sua família que viram na produção um caminho para mudar a realidade com o apoio das capacitações. “A gente começou a trabalhar com materiais da floresta, como casca de murumuru e tucumã. Depois, nosso material foi levado para fora”, destacou.
O reconhecimento chegou longe, inclusive com a marca Arezzo. “Em 2025, fomos para Porto Alegre ver o lançamento. Nosso material estava no sapato. Foi muito importante”, ressaltou.
Mas, mesmo com o crescimento, a essência permanece. “A floresta dá tudo, mas a gente também tem que cuidar. Eu não tiro nada verde. Trabalho só com o que já caiu, com o que seria descartado”, destacou
Histórias como a de Jakson Marubo mostram como o artesanato pode mudar destinos. “Eu comecei participando de feiras e hoje tenho minha própria loja. Vivo do artesanato”, afirmou.
Ele destaca o papel das capacitações: “O Sebrae ajudou muito com preço, acabamento e venda. Isso fez diferença”, ressaltou.
Tradição e mercado
Se antes o desafio era produzir, hoje também é vender e vender com valor justo. É nesse ponto que o projeto avança ao conectar diretamente artesãos e compradores.

A coordenadora da Casa do Artesanato Acreano e coordenadora estadual do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), Risoleta Queiroz, reforça o impacto desse apoio. “O artesanato indígena é muito rico. Os turistas chegam e ficam encantados com a diversidade das peças, pulseiras, colares, cestarias. Nas feiras, eles se destacam muito, são muito procurados”, destacou.
Ela observa que o resultado é concreto. “Quando participam das feiras nacionais, eles voltam com um volume de vendas muito grande. A comercialização tem sido um ponto muito positivo”, disse.
A parceria com o governo garante, ainda, ajuda de custo para participação em eventos, além de investimentos em estrutura e logística, ampliando o alcance desses produtos.
Em 2025, a Casa do Artesanato Acreano, localizada na capital, Rio Branco, movimentou mais de R$ 443,5 mil na comercialização de peças produzidas por 130 artesãos que expõem no local. A unidade é coordenada pela Secretaria de Estado de Turismo e Empreendedorismo (Sete).
Força das mulheres
Nos territórios indígenas, são principalmente as mulheres que mantêm viva essa tradição e transformam o artesanato em sustento.
A secretária de Povos Indígenas do Acre, Francisca Arara, destaca essa força. “O artesanato ajuda muito na economia dos territórios. As mulheres dominam essa atividade e conseguem garantir renda para suas famílias.”
Mais que produto, um legado
O artesanato indígena acreano segue crescendo, mas sem perder sua essência. Cada peça vendida carrega não apenas valor econômico, mas também cultural, espiritual e ambiental.
Entre sementes, fibras e grafismos, o que se constrói é mais do que mercado, é dignidade, reconhecimento e futuro.
E, acima de tudo, é a prova de que, quando tradição e oportunidade caminham juntas, o desenvolvimento pode nascer da floresta e ganhar o mundo.
Com informações da Agência de Notícias do Acre








