
Quando o Portal Acre entrou no ar, em 5 de maio de 2025, não era apenas mais um site de notícias surgindo em Rio Branco. Era a aposta de três jornalistas experientes em dar uma virada de chave nas suas rotinas profissionais e construir uma marca própria, em um ambiente sabidamente disputado e, muitas vezes, marcado por pressões políticas e econômicas.
Um ano depois, o projeto idealizado por Leônidas Badaró, Daigleíne Cavalcante e Fredson Camargo começa a mostrar os contornos de uma proposta que vai além da mera publicação diária de notícias. Trata-se de uma engrenagem que envolve bastidores intensos, decisões estratégicas, escolhas editoriais e o trabalho coeso de uma equipe que sustenta a principal marca do veículo: a credibilidade.
Badaró: a visão editorial
Com mais de duas décadas e meia de atuação no jornalismo acreano, em várias frentes — desde quando começou na Rádio Educadora 6 de Agosto, em Xapuri — Leônidas Badaró não esconde que a decisão de criar o Portal Acre nasceu menos de uma ambição empresarial e mais de uma necessidade pessoal e profissional.
“Eu sou extremamente feliz com o que faço, mas precisava de algo novo, um novo combustível. O desafio não foi empreender, eu nunca tive essa ‘vibe’, mas a oportunidade de sair do mesmo e criar algo novo, uma marca. Acho que isso me impulsionou, sem dúvida alguma, a topar o desafio do Portal Acre”, afirma.
Apesar da mudança de rota, Badaró diz que nunca duvidou da recepção positiva do público. Para ele, o momento que simbolizou a consolidação do Portal veio de forma simples, fora do ambiente digital.
“Eu estava na fila do supermercado, com três meses de site, quando uma senhora me abraçou e disse: ‘Eu sou aposentada e gosto muito de informação, e sentia que precisava de algo novo aqui e o seu portal representa isso’. Foi o reconhecimento que mais me marcou”, relembra.
Ao longo desse primeiro ano, um dos desafios recorrentes foi lidar com a percepção sobre o papel do jornalismo. “Há uma confusão muito grande sobre o que é fazer jornalismo de forma isenta, principalmente no meio político. Mas isso já era esperado”, afirma.
Ele também destaca um ponto que considera essencial para a credibilidade do projeto: a responsabilidade com a equipe. “Em um ano, nunca atrasamos um dia de salário de nenhum colaborador. Isso é algo marcante para um site pequeno e sem padrinho político”, pontua.
Fredson: os bastidores da construção
Se a ideia parecia sólida, a execução exigiu resiliência. No jornalismo desde 2006, o publicitário Fredson Camargo lembra que o projeto levou cerca de um ano de planejamento e meses de obra até ganhar forma.
“Foram cinco meses de obras. A gente tinha planejado dois meses e meio, mas o dinheiro acabou. O crédito nas lojas já tinha sido usado todo, até mais que o limite e o valor do material de acabamento custava R$ 33 mil. Aí eu pensei, e agora? Olhei pro céu e disse: Senhor é contigo”.
A solução, segundo ele, veio de maneira rápida e inesperada: “Um cliente me ligou e disse que ia me pagar um acerto do ano passado. Foi exatamente o valor da entrada que eu precisava e a obra não parou. Aí tive certeza do dedo de Deus no projeto Portal Acre”, relata.
Hoje, depois de um ano de estrada, ele resume a engrenagem do Portal como uma divisão clara de funções, com colaboração constante entre os três sócios.
“Desde o início, dividimos funções no site. O Badaró lidera o jornalismo com nosso apoio. Daigleíne conduz o marketing e as redes, e eu cuido da gestão e dos negócios. Cada um responde pela sua área, mas todos se ajudam — e é assim que tem dado certo.”
Daigleíne: rotina intensa e crescimento orgânico
Para Daigleíne Cavalcante, o primeiro ano do Portal Acre foi marcado por intensidade, tanto na produção quanto na gestão. Segundo ela, o trabalho em um site de notícias vai muito além da publicação. “Nos primeiros meses, eu e o Fredson trabalhamos todos os dias das 6h à 1h da madrugada. Era desafio em cima de desafio, mas fomos vencendo”, relata.

Jornalista formada pela Ufac, com 17 anos de experiência, Daigleíne é palestrante, mentora e estrategista em comunicação e oratória. Mas o currículo não a impediu de se surpreender e emocionar durante o primeiro ano do site. Entre os momentos mais marcantes, ela relembra a cobertura da Expoacre do ano passado, que ajudou a impulsionar o Portal.
“Com dois meses de vida, montamos uma estrutura grande para transmissão ao vivo. No começo, achávamos que seria difícil conseguir entrevistados. No quarto dia, tivemos que pedir para parar de agendar entrevistas, porque não cabia mais. Foi ali que vi a força do Portal Acre”, conta.
Outro episódio simbólico foi a matéria sobre o atleta paralímpico Luan Pereira, que precisava de uma cadeira de rodas adaptada e conseguiu o equipamento após a repercussão da reportagem. “É bom saber que de fato nós ajudamos pessoas”, celebra.
Na estratégia de crescimento, ela destaca uma decisão que considera fundamental: “Decidimos não fazer tráfego pago. Queríamos conquistar as pessoas de forma orgânica, e tem dado certo.”
Hoje, o Portal reúne mais de 70 mil seguidores, somando Instagram, Facebook e TikTok, além do público que acompanha os conteúdos via WhatsApp. São mais de 22 milhões de visualizações mensais em todas as plataformas.
Um projeto em evolução
Passado um ano daquele mês de maio marcado por ansiedade e expectativas, o Portal Acre ainda é, nas palavras de seus próprios criadores, um projeto em evolução. Entre acertos, dificuldades e reconhecimento de autoridades públicas e pessoas anônimas, a experiência do primeiro ano revela que, mesmo em um cenário competitivo, há espaço para iniciativas que apostam na credibilidade como pilar de uma comunicação comprometida com o cidadão.
E, sobretudo, a trajetória de Fredson, Daigleíne e Badaró demonstra que o jornalismo local continua sendo construído diariamente — entre decisões editoriais e a resposta do público, especialmente aquele mais simples, como a senhora do supermercado, cujo abraço e reconhecimento valem mais do que qualquer premiação.








