
O amor materno costuma ser associado ao cuidado, proteção e acolhimento. Mas, para muitas mulheres, a maternidade também se transforma em luta diária por inclusão, dignidade, acesso à saúde e respeito. Neste Dia das Mães, celebrado neste domingo, 10, histórias de mães atípicas acreanas revelam uma rotina marcada por desafios, mas também por superação, perseverança e amor incondicional.
Entre terapias, consultas, adaptações e enfrentamento ao preconceito, essas mulheres compartilham experiências que vão além da maternidade tradicional. São mães que aprenderam a decifrar o mundo pelos olhos dos filhos e que transformaram dificuldades em força para seguir.
“Ser mãe atípica é viver em estado de alerta”, diz ativista Shirlei Lessa
Natural de Xapuri, Shirlei Lessa atua hoje na defesa dos direitos das pessoas com deficiência e acompanha centenas de mães atípicas no Acre. Coordenadora da região Norte do Movimento Orgulho Autista do Brasil (MOAB), ela também integra conselhos estaduais e municipais ligados à pauta da inclusão.

Mãe de João Rerfton, de 31 anos, diagnosticado com Síndrome de Klippel-Feil, Shirlei conta que descobriu a condição do filho ainda nos primeiros dias de vida e, desde então, passou a enfrentar uma rotina intensa de cuidados e busca por inclusão.
“Ser mãe atípica é ser onça, defensora incansável. É viver em estado de alerta 24 horas, aprender a decifrar o mundo pelo olhar do filho”, afirma.
Ao longo da trajetória, ela afirma que precisou se reinventar como mulher e mãe. Entre madrugadas pesquisando diagnósticos, acompanhamento terapêutico e enfrentamento ao preconceito, Shirlei acredita que a independência conquistada pelo filho foi construída a partir da sua persistência.
Hoje, além da militância, ela acompanha cerca de 286 mães atípicas por meio de ações em parceria com a Secretaria da Mulher e entidades voltadas às pessoas com deficiência. O trabalho inclui cursos, ações de empreendedorismo e incentivo ao esporte paralímpico.
Apesar dos avanços, Shirlei ressalta que o preconceito ainda faz parte da realidade dessas famílias.
“Um dos principais desafios é a verdadeira inclusão. Ainda há muito preconceito, inclusive vindo de pessoas que nem imaginamos”, relata.
“Mãe atípica vive duas vidas em uma”, relata Maria Vercilândia

A servidora pública Maria Vercilândia de Olinda deixou Tarauacá para viver em Rio Branco em busca de tratamento e qualidade de vida para o filho Francisco Emanuel, de 18 anos, diagnosticado com paralisia cerebral.
Maria conta que o diagnóstico demorou a chegar por dificuldades no acesso a atendimento especializado. Francisco utiliza cadeira de rodas, possui dificuldade na fala e espasmos, mas, segundo a mãe, o amor ajudou a enfrentar o processo de forma mais leve.
“Ser mãe atípica é acreditar no impossível. É levantar mesmo quando o corpo não aguenta, é engolir o choro quando se quer gritar”, diz.
Entre os principais desafios, a servidora pública cita a falta de acessibilidade, escassez de profissionais especializados, dificuldades no transporte e o preconceito enfrentado pelas pessoas com deficiência.
“Olhares de discriminação e nojo ainda existem. Para algumas pessoas, deficiência parece algo contagioso”, lamenta.

A servidora pública afirma que mães atípicas não querem ser vistas como heroínas, mas sim tratadas com respeito.
“Ter um filho ou filha com deficiência não é um fardo, não é uma escolha, é um ato de amor e fé. Ela [a mãe atípica] vive duas vidas em uma, vê o que ninguém mais vê. As mães atípicas não querem títulos, queremos respeito e dignidade”, destaca.
Entre lágrimas e conquistas, Vanda Barroso acompanhou o filho até a universidade

Criada no seringal São João do Caramano, em Xapuri, Vanda Barroso, de 45 anos, viu a rotina mudar completamente após perceber que o filho Davi apresentava um comportamento diferente das outras crianças. O diagnóstico de autismo veio ainda na infância, após observações feitas por professoras durante o período escolar.
Vanda relembra episódios difíceis da infância do filho, marcado pela hiperatividade e pela dificuldade de adaptação. Na época, porém, pouco se falava sobre autismo.
“Naquele tempo a gente nem sabia o que era autismo. Eu só sabia que precisava acompanhar o ritmo dele”, conta.

Hoje, Davi tem 21 anos e está concluindo a faculdade de Licenciatura em Música na Universidade Federal do Acre (Ufac). Vanda acompanha o filho até hoje nas atividades acadêmicas, apresentações musicais e treinos físicos.
“Tudo que ele conquistou foi com muita perseverança. Eu sempre estive junto dele, na escola, nas consultas, nas dificuldades e nas vitórias”, afirma.
Além da graduação, Davi também se prepara para tentar ingresso na Polícia Militar, sonho incentivado pela mãe, que segue ao lado do filho em cada etapa.
“Eu sou a fã número um dele”, resume Vanda.
A natação transformou a vida de Rickley e fortaleceu ainda mais o vínculo com a mãe
A dona de casa Gleiciane Sampaio, de 37 anos, dedica a rotina integralmente ao acompanhamento do filho Rickley, de 17 anos, diagnosticado com paralisia cerebral e baixa visão.

Gleiciane conta que a mudança começou após conhecer um projeto da Universidade Federal do Acre (Ufac) voltado para crianças com deficiência. Foi por meio da natação que Rickley passou a desenvolver mais autonomia, autoestima e interação social.
“Eu pensava que ele nunca aprenderia a nadar, mas hoje ele nada e já conquistou 17 medalhas nas Paralimpíadas Escolares”, relata.

Segundo Gleiciane, as viagens e competições ajudaram o filho a ganhar ainda mais confiança.
“Ele voltou das viagens querendo fazer as coisas por si mesmo. Isso foi emocionante para mim”, conta.
Ela reconhece que ainda existem muitos obstáculos para mães atípicas, principalmente relacionados ao acesso à inclusão e à informação, mas acredita que a perseverança transforma vidas.
“Nunca desistam dos seus filhos porque eles podem ir muito além. O amor de uma mãe é a força que move o mundo”, finaliza.








