Rio Branco, 30 de maio de 2026.

Detran maio 1200x250

Saúde Mental: o cuidado esquecido e negligenciado

A juventude contemporânea enfrenta uma realidade marcada por pressões sociais intensas, excesso de cobranças, violência, bullying, abandono afetivo, relações fragilizadas, exposição constante nas redes sociais e uma necessidade de corresponder às expectativas impostas pela sociedade.

Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em junho do ano passado, apontam que uma em cada seis pessoas no mundo enfrenta a solidão. Entre os grupos mais afetados estão os jovens de 13 a 29 anos. Nesse contexto, a saúde mental dos jovens tem se configurado como uma das principais preocupações vigentes no campo da educação e da saúde pública.

Existe uma negligência coletiva relacionada à saúde mental. Enquanto doenças físicas recebem atenção imediata, exames rápidos e protocolos bem definidos, o sofrimento emocional frequentemente chega silencioso, desacreditado e invisível. Os prontos-socorros testemunham diariamente essa realidade.

Jovens cada vez mais novos chegam as unidades de saúde relatando crises de ansiedade incapacitantes, episódios depressivos profundos, insônia severa, ideação suicida e uso abusivo de substâncias como tentativa de aliviar dores emocionais.

Muitos apresentam sofrimento psíquico tão intenso quanto uma doença física grave, porém ainda enfrentam olhares de julgamento, minimização e até descrédito.

Existe uma tendência social perigosa de romantizar o sofrimento ou reduzi-lo a “frescura”, “fraqueza” ou “falta de Deus”. Esse pensamento contribui diretamente para o agravamento dos quadros, pois impede que muitos procurem ajuda precocemente.

Quando o sofrimento emocional é negligenciado, ele não desaparece — ele se intensifica. E o pronto-socorro acaba se tornando o espelho das falhas sociais relacionadas ao cuidado emocional.

Muitos pacientes chegam em crise porque não encontraram acolhimento antes. Não houve escuta na escola, apoio na família, acesso a acompanhamento psicológico ou políticas públicas eficientes capazes de intervir precocemente.

A emergência recebe aquilo que foi ignorado por muito tempo. Em muitos casos, a tentativa de suicídio não representa necessariamente o desejo de morrer, mas sim o desejo desesperado de interromper um sofrimento insuportável.

Esse cenário evidencia que a saúde mental deixou de ser apenas uma questão individual e passou a representar um importante problema de saúde pública. Uma das características mais perigosas do adoecimento mental é sua invisibilidade.

Diferente de uma fratura exposta ou de um sangramento evidente, a dor emocional nem sempre pode ser vista. Muitas pessoas aprendem a sorrir enquanto estão destruídas internamente. Jovens continuam estudando, trabalhando e convivendo socialmente enquanto enfrentam crises silenciosas diariamente.

Por isso, grande parte dos casos chega ao serviço de urgência apenas quando o sofrimento já atingiu níveis extremos. Muitas vezes, o paciente não precisa apenas de medicação. Ele precisa ser ouvido. Precisa sentir que sua dor é válida. Precisa perceber que sua existência importa.

O acolhimento, nesse contexto, torna-se uma ferramenta terapêutica poderosa. Uma palavra dita com empatia pode representar o primeiro passo para alguém decidir continuar vivendo.

Ignorar a saúde mental não elimina o problema — apenas transfere suas consequências para hospitais, famílias e para toda a sociedade. O paciente em sofrimento psíquico precisa ser visto como alguém que carrega dores, histórias, medos e fragilidades.

Além disso, é fundamental ampliar o acesso à psicologia, psiquiatria, terapias comunitárias, acompanhamento multiprofissional e ações preventivas dentro das escolas, universidades e comunidades.

Afinal, a prevenção ainda é o caminho mais eficiente e falar sobre saúde mental deixou de ser uma opção e tornou-se uma necessidade urgente.

Lane Valle é fonoaudióloga, jornalista e colaboradora do Portal Acre.

Compartilhe em suas redes

Aleac não se omita