
Enquanto o restante do país celebra São João Batista com arraiais, quadrilhas e fogueiras, uma tradição única da floresta amazônica mobiliza moradores de Xapuri e comunidades da Reserva Extrativista Chico Mendes. Neste dia 24 de junho, romeiros de diferentes localidades voltam seus passos para a Colocação Guarani, no Seringal Boa Vista, onde há mais de um século se realiza uma das manifestações religiosas mais antigas e emblemáticas do Acre: a festa de São João do Guarani.
Realizada a cerca de 40 quilômetros da área urbana de Xapuri, a celebração reúne elementos da fé católica, da cultura seringueira e da religiosidade popular amazônica. O centro da devoção é o túmulo de um homem simples, um seringueiro para o qual jamais foi cogitado processo de canonização pela Igreja Católica, mas que se tornou, para gerações de moradores da floresta, um intercessor de graças e um símbolo de esperança.
Segundo relatos preservados pela tradição oral, João do Guarani era um trabalhador vindo de Pernambuco durante o ciclo da borracha. Em 1906, acometido por uma grave enfermidade, provavelmente malária, tentou seguir em direção à cidade em busca de socorro, mas morreu no caminho, na região onde hoje se encontra o santuário que leva seu nome.
A devoção teria surgido pouco tempo depois de sua morte. Conta a tradição que dois seringueiros perdidos na mata pediram ajuda à alma do homem que havia falecido naquele local. Após encontrarem o caminho de volta, passaram a divulgar o ocorrido, dando origem a uma corrente de fé que atravessou gerações. Em uma época em que as visitas dos padres aos seringais eram raras e podiam demorar muitos meses para acontecer, o túmulo tornou-se um ponto de oração e encontro espiritual para os moradores da floresta.
Fé popular acolhida pela Igreja
Embora João do Guarani não seja reconhecido oficialmente como santo pela Igreja Católica, a devoção é acompanhada há décadas pela Paróquia São Sebastião, que celebra missas e participa da organização da romaria realizada anualmente na Colocação Guarani.
Para o pároco de Xapuri, padre Wesly Joseph, a relação da Igreja com manifestações como essa passa pelo reconhecimento da fé vivida pelas comunidades e transmitida de geração em geração.

“A Igreja Católica tem uma longa tradição de acolher e acompanhar as devoções populares que nascem da fé genuína do povo. A ausência de uma canonização formal não significa que a Igreja rejeite essa devoção. O processo canônico vem depois da devoção popular e não antes. No caso de São João do Guarani, vemos uma história de mais de cem anos de fé, esperança e transformação na vida de muitas pessoas. Isso não é pouca coisa. É uma expressão religiosa profundamente enraizada na realidade do nosso povo”, afirma.
Segundo o sacerdote, a missão da Igreja é caminhar junto das comunidades, orientando e fortalecendo as manifestações de fé sem romper os laços culturais construídos ao longo do tempo.
“A Igreja não fabrica a fé do povo. Ela acolhe essa fé, ajuda a purificá-la e a orientá-la. Nossa missão é garantir que essa devoção permaneça centrada em Cristo e nos valores do Evangelho, mas isso se faz com presença, diálogo e participação. Celebrar o São João do Guarani é também um ato de fidelidade ao nosso povo, que mantém viva essa tradição há muitas gerações”, destaca.
Uma romaria marcada pelo sacrifício
Muito antes da abertura dos ramais e estradas que hoje ligam os seringais à cidade, a peregrinação até a Colocação Guarani exigia esforço e perseverança. Durante décadas, os romeiros percorriam o trajeto a pé ou a cavalo, atravessando quilômetros de floresta para participar da celebração.
Entre essas pessoas está o casal Mário Teles de Souza, de 72 anos, e Marilza Pereira de Souza, 67 anos. Eles são de Xapuri, mas se mudaram há muitos anos para o município de Senador Guiomard. Porém, não deixaram fé para trás. Todos os anos, eles repetem o ritual de se dirigir à localidade agradecer e reforçar a fé.

“Fui agraciada por João do Guarani quando um de meus filhos nasceu com sérios problemas de saúde. Fiz um voto e fui atendida. Ele se recuperou e hoje tem 47 anos de idade”, ela conta.
Mário diz que São João do Guarani para ele é uma devoção que o acompanha por toda a vida. Ele nasceu em uma colocação próxima ao Guarani e cresceu vendo as pessoas ao seu redor e ele mesmo serem tocadas pela força do “Santo da Floresta”.
“Eu tive um problema muito sério na minha cabeça. Fui a vários médicos, mas a solução só veio com a promessa feita a São João do Guarani. Por isso, só não venho aqui quando Deus não me permitir”, relata.
Para muitos devotos, a dificuldade da viagem era parte da própria demonstração de fé, uma forma de agradecer graças alcançadas ou cumprir promessas feitas ao santo popular. Mesmo após a melhoria do acesso à região, algumas pessoas continuam repetindo o percurso da maneira tradicional, preservando um costume herdado dos antigos moradores dos seringais.
No local onde está o túmulo de João do Guarani, os visitantes costumam acender velas, fazer orações e deixar ex-votos como forma de agradecimento por bênçãos recebidas. A cruz de ferro instalada no santuário, trazida há décadas de Belém do Pará, permanece como um dos símbolos mais marcantes da devoção.
Tradição que une gerações
Além das celebrações religiosas, a festa é também um momento de reencontro das famílias da floresta e de fortalecimento dos laços comunitários. A programação deste ano inclui missa, procissão, acendimento da fogueira, quermesse, torneio de futebol, leilão, bingo e outras atividades tradicionais.
A abertura da programação aconteceu na noite desta terça-feira, 23, com missa e acendimento da tradicional fogueira de São João. Na manhã desta quarta-feira, os fiéis participaramda procissão pela trilha da floresta e da celebração religiosa que marca o ponto alto da festa.
Mais do que um evento anual, o São João do Guarani permanece como um dos mais importantes patrimônios imateriais da cultura popular acreana. Em meio à floresta que testemunhou sua origem, a romaria segue renovando a fé de seus participantes e preservando uma tradição que une espiritualidade, memória e identidade amazônica há mais de cem anos.







