Rio Branco, 27 de junho de 2026.

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Sintomas desafiadores, desinformação e outras questões que cercam a endometriose: conheça um pouco da história de Katrielly Souza, diagnosticada há quase dois anos com a doença

Katrielly, que é influenciadora digital, passou a compartilhar sobre a doença após ser diagnosticada com endometriose – Foto acervo pessoal

Sangramentos fora do período menstrual e crises que pareciam ser de infecção urinária foram alguns dos sintomas que fizeram a criadora de conteúdo digital Katrielly Souza, de 26 anos, procurar ajuda médica no ano de 2024. O diagnóstico não veio tão fácil assim, pois, em um período de quase um ano, Katrielly passou por consultas com quatro ginecologistas, e foi somente no atendimento com um proctologista que concluiu o diagnóstico de endometriose, classificada como extensa e profunda.

Em entrevista ao Portal Acre, Katrielly enfatizou o desconhecimento que tinha sobre a doença na época: “Na verdade, fiquei sem entender muito bem o que aquilo significava. Eu nunca tinha ouvido falar sobre endometriose e precisei começar a estudar e buscar informações para compreender a doença”, disse.

Segundo estimativas divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a endometriose é uma doença crônica que pode acometer 10% (190 milhões) das mulheres em idade reprodutiva no mundo todo. A organização ainda destaca um ponto relatado por Katrielly no início da matéria: a dificuldade em obter um diagnóstico precoce.

Endometriose: o que é e como os sintomas afetam a rotina

A ginecologista Camila Amorim falou sobre o desafio da diagnóstico e o tratamento da endometriose – Foto acervo pessoal

A demora em receber o diagnóstico pode trazer grandes prejuízos para as mulheres que sofrem de endometriose. No entanto, faz-se necessário entender do que se trata a doença e como ela afeta a vida dessas mulheres.

A ginecologista Camila Amorim destaca que a demora para o fechamento do diagnóstico é uma questão relacionada à doença: “Infelizmente, há muito atraso no diagnóstico, sendo comum uma média de cerca de 10 anos desde o início dos sintomas até o diagnóstico. Endometriose é a presença de glândulas do endométrio, que é uma camada interna do útero, fora dele. Ou seja, esse tecido que era para estar no útero está em outros órgãos, como bexiga, intestino, entre outros, provocando uma resposta inflamatória”, explica.

Sobre os sintomas, a médica descreve: “Os principais sintomas são a cólica menstrual muito intensa, que dificulta ou impede a realização das atividades rotineiras, como ir à escola, ao trabalho ou fazer atividade física. Essa dor, normalmente, piora com o passar do tempo. Outro sintoma é a dor ao evacuar, dor durante a relação sexual e a dificuldade para engravidar”.

A médica contextualiza ainda que há sintomas mais desconhecidos, como distensão abdominal, saída de sangue pela cicatriz umbilical em alguns casos e a presença de nódulo abdominal, que fica mais evidente no período menstrual.

Segundo Camila, a gravidade da doença depende do nível que ela apresenta, sendo classificada como mínima, leve, moderada, grave e profunda. Sobre a profunda, Camila explicou: “Endometriose profunda é quando a lesão da endometriose penetra mais do que 5 milímetros no peritônio”.

A médica ainda alerta que pacientes consideradas graves podem não apresentar sintomas, do mesmo modo que pacientes diagnosticadas com endometriose mínima ou leve podem ter sintomas mais fortes. Camila complementa: “Não tem uma correlação da gravidade da doença com os sintomas da paciente, mas na endometriose profunda — essa parte que penetra mais no tecido —, as pacientes tendem a ter mais dor, inclusive ao evacuar no período da menstruação, então elas tendem a ser mais sintomáticas”.

Os variados sintomas da endometriose podem representar, para as mulheres afetadas pela doença, uma diversidade de prejuízos na vida cotidiana que comprometem tanto a realização de tarefas diárias quanto a saúde mental. A profissional afirma que é comum mulheres com endometriose apresentarem quadros de ansiedade generalizada e depressão. A médica pontuou os julgamentos e prejuízos direcionados a essas mulheres devido à demora no diagnóstico.

“A endometriose pode causar tanto transtornos físicos quanto psicológicos nas mulheres, porque elas convivem com uma dor intensa, que pode ocasionar faltas ao trabalho, internações para controle de dor e dificuldades no relacionamento amoroso devido à dor durante a relação sexual. Essas mulheres são vistas, em muitos casos, como preguiçosas pelas faltas, podendo, inclusive, perder os seus empregos”, explica.

Katrielly Souza também enfatizou o preconceito que envolve a endometriose: “É uma doença invisível para quem está de fora, algumas pessoas acabam minimizando os sintomas ou acreditando que estamos exagerando. Infelizmente, isso ainda é muito comum”, destacou.

Tratamento

Sobre o tratamento, Camila Amorim explica que ele é voltado ao controle da dor e a casos de mulheres que pretendem gestar e apresentam dificuldades para engravidar.

Camila destaca ainda que a abordagem necessita de um acompanhamento multiprofissional:

“Tratamos juntamente com o médico da dor, com o médico especialista em sexualidade humana, com fisioterapia pélvica, com nutricionista e profissional de educação física”, explica.

Camila ainda deixou um recado às mulheres que apresentam sintomas de dor durante o período menstrual e que sofrem com impedimentos na realização de tarefas cotidianas: “Que essas mulheres possam procurar um médico especialista, que façam toda uma investigação, uma observação do seu corpo. Outro fator importante é que nem sempre a endometriose vai ser diagnosticada através de exames. Então, mesmo com exames normais, pode ser que você tenha a doença”.

Novos hábitos e uma boa notícia

Katrielly conta que a partir do diagnóstico passou a incluir novos hábitos como atividade física constante e alimentação mais saudável – Foto acervo pessoal

Katrielly Souza relatou que, quando começou a compreender a doença, percebeu a necessidade de repensar seus hábitos, sua relação com a alimentação e as crenças que tinha sobre conhecer o próprio corpo. Segundo a influenciadora: “Foi um processo de adaptação e autoconhecimento”.

O período de rever os hábitos precedeu uma série de mudanças que Katrielly precisou fazer. Além do tratamento medicamentoso, atualmente a jovem mantém uma rotina em que pratica atividades físicas, busca uma alimentação saudável e utiliza alguns suplementos manipulados com orientação profissional.

Sobre os novos hábitos, destacou: “Tudo isso tem contribuído para melhorar minha qualidade de vida e controlar os sintomas”, disse.

Katrielly trabalha com produção de conteúdo digital no Instagram e, a partir do processo com a endometriose, passou a incluir o assunto em seu perfil para conscientizar as pessoas sobre o tema. A influenciadora compartilhou com o Portal Acre que já leu mais de dez artigos científicos relacionados à doença e atualmente sente-se mais segura para falar sobre o assunto.

Recentemente, Katrielly postou um vídeo em seu Instagram celebrando uma boa notícia: a implantação da cirurgia por videolaparoscopia para tratamento da endometriose na Fundação Hospitalar Governador Flaviano Melo (Fundhacre). A ordem de serviço foi assinada pela governadora Mailza, no dia 19 de junho, com um investimento superior a R$ 10 milhões, possibilitado por uma emenda parlamentar do deputado federal Eduardo Velloso.

Na legenda do vídeo, Katrielly escreveu: “Como mulher e paciente de endometriose, essa notícia me traz esperança. Esperança de mais acesso, mais cuidado, mais qualidade de vida e mais atenção às mulheres que convivem diariamente com uma doença crônica muitas vezes invisível”.

Desafios e um encorajamento

Ao falar dos desafios enfrentados por mulheres que têm endometriose, Katrielly enfatizou a desinformação das pessoas sobre o assunto: “A endometriose é muito complexa e se manifesta de formas diferentes em cada mulher. Por isso, muitas vezes o diagnóstico demora, os sintomas são desacreditados e não existe uma fórmula única que funcione para todas”.

A influenciadora ainda encorajou as mulheres que receberam o diagnóstico recentemente ao deixar um recado:

“Busquem conhecimento sobre o próprio corpo e entendam como ele reage aos alimentos, ao estresse e aos hábitos do dia a dia. Procurem profissionais de confiança, como médicos, nutricionistas e outros especialistas que possam auxiliar nesse processo. Receber o diagnóstico pode assustar no começo, mas ele também pode ser o início de uma fase de mais autoconhecimento e cuidado consigo mesma. Não encare isso como o fim de algo, mas como uma oportunidade de aprender a viver melhor e com mais qualidade de vida. Cada mulher terá uma experiência diferente, então evite comparações e respeite o seu próprio processo”.

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