Rio Branco, 14 de julho de 2026.

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127 anos depois, historiador acreano afirma: chamar Luiz Gálvez de “imperador” é um erro histórico

Gálvez ficou conhecido na história como “Imperador do Acre” – Foto cedida

Neste 14 de julho, quando se completam 127 anos da proclamação da República Independente do Acre, uma interpretação apresentada pelo historiador e cineasta acreano Adalberto Queiroz reacende o debate sobre um dos personagens mais emblemáticos da formação do estado. Para ele, a expressão “Imperador do Acre”, amplamente difundida ao longo das últimas décadas, representa um equívoco histórico que precisa ser revisto.

Segundo Queiroz, Luiz Gálvez Rodríguez de Arias não apenas proclamou uma república, como estruturou um governo baseado em princípios republicanos e democráticos. Por isso, sustenta o historiador, não faz sentido atribuir-lhe um título associado justamente ao modelo político que ele dizia combater.

“Alguém que pregou que Galvez era um imperador e errou feio. Foi um erro histórico absurdo. Galvez detestava impérios, era um democrata. E nós embarcamos nessa mentira, nessa fake news, e estamos pregando isso até hoje, que precisa ser desfeito, precisa ser esclarecido”, afirma.

Adalberto Queiróz classifica Gálvez como imperador é um erro histórico – Foto acervo pessoal

O nascimento da República Independente do Acre

A data de 14 de julho já ocupava um lugar de destaque na história mundial por marcar a Queda da Bastilha, em 1789, episódio que deu início à Revolução Francesa. Exatamente 110 anos depois, Luiz Gálvez escolheu simbolicamente o mesmo dia para proclamar, em Puerto Alonso — atual município de Porto Acre —, a República Independente do Acre.

Naquele momento, o território ainda pertencia oficialmente à Bolívia, conforme estabelecia o Tratado de Ayacucho, de 1867. Entretanto, a região era ocupada majoritariamente por brasileiros, sobretudo nordestinos atraídos pelo ciclo da borracha, que mantinham relações econômicas e culturais muito mais intensas com Belém e Manaus do que com La Paz.

O aumento da presença administrativa boliviana e a cobrança de impostos sobre a produção de borracha alimentaram um ambiente de insatisfação entre seringalistas, comerciantes e trabalhadores, criando as condições para o movimento liderado por Gálvez.

A interpretação do historiador

Na avaliação de Adalberto Queiroz, a própria denominação adotada por Gálvez demonstra qual era seu projeto político. Para ele, isso evidencia que o líder do movimento pretendia construir uma nação baseada em instituições, e não em um governo pessoal.

“Ele criou uma República Independente do Acre. Criou ministérios, sistemas de saúde, de educação, de transporte, sistema jurídico. Afinal de contas, Galvez fez tudo que uma nação precisa. Quer dizer, a nascente da República já foi muito democrática e foi praticamente entre dois povos, os bolivianos e os brasileiros que estavam aqui, e mais os agregados, que eram de outros países”, argumenta.

Ele também recorda que Gálvez chegou ao Acre depois de descobrir, quando atuava no consulado boliviano em Belém, um projeto que previa a entrega da exploração do território a um consórcio formado por interesses ligados aos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha.

Segundo o historiador, diante da possibilidade de o Acre passar ao controle de potências estrangeiras e da falta de interesse demonstrada tanto pela Bolívia quanto pelo próprio governo brasileiro em assumir imediatamente o território, Gálvez convenceu brasileiros, bolivianos e representantes de outras nacionalidades que viviam na região de que a saída seria criar um novo país.

“Se o Brasil não nos quer e a Bolívia está entregando irresponsavelmente o Acre, fundemos outra nação”, resume Queiroz ao reconstituir o pensamento atribuído a Gálvez.

Literatura e memória

Monumento a Gálvez em frente à Assembleia Legislativa do Acre – Foto cedida

A imagem de Luiz Gálvez como “Imperador do Acre” ganhou projeção nacional principalmente após a publicação, em 1976, do romance Galvez, Imperador do Acre, do escritor amazonense Márcio Souza. Misturando fatos históricos, humor, ironia e sátira política, a obra tornou-se um dos maiores clássicos da literatura produzida na Amazônia e contribuiu para popularizar o personagem muito além das fronteiras acreanas.

Para Adalberto Queiroz, entretanto, a força da ficção acabou influenciando a memória coletiva. O historiador observa que o título passou a identificar hotéis, equipes esportivas e diversas referências culturais ligadas ao nome de Gálvez, embora, segundo ele, não encontre respaldo na natureza republicana do governo instituído em 1899.

Debate sobre a história acreana

Mais do que corrigir uma nomenclatura, Adalberto Queiroz defende que o episódio seja discutido em escolas, universidades e instituições culturais como forma de aprofundar o conhecimento sobre a formação política do Acre.

Apesar da constestação do historiador, Gálvez é ‘cultuado’ como imperador do Acre – Foto reprodução

Na avaliação do pesquisador, compreender o papel desempenhado por Luiz Gálvez ajuda a entender como o movimento iniciado em 14 de julho de 1899 abriu caminho para as revoluções seguintes, lideradas por Plácido de Castro, e culminou na assinatura do Tratado de Petrópolis, em 1903, quando o território foi definitivamente incorporado ao Brasil.

Passados 127 anos da proclamação da República Independente do Acre, o episódio continua despertando novas interpretações. E, para Adalberto Queiroz, uma delas merece especial atenção: antes de ser lembrado como um “imperador”, Luiz Gálvez deveria ser reconhecido como o fundador da primeira república criada em solo acreano.

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