
A internet — especialmente a turma das gerações Z e Alfa, inventou um negócio chamado farmar aura. E eu, particularmente, até hoje não entendi direito o que é.
Tem gente que farma aura ficando em silêncio, já tem outros que farma aura postando um story dentro do avião com a legenda “off para recarregar”, que aparentemente rende aura lendária.
Bonito. Confesso.
Agora, Enzo, querido, experimenta farmar aura levando uma criança para a escola às 7h05 de uma terça-feira chuvosa. Imagina quantos pontos isso rende. Eu quase consigo ver as luzes douradas da aura brilhando.
Porque, meus amores, não existe nada que destrua mais a imagem de um ser humano do que discutir seriamente com uma pessoa de cinco anos sobre a necessidade de usar uma calça.
— Mas por que eu tenho que usar calça jeans se prefiro bermuda?
Porque sim, meu filho.
Pensa num “porque sim” que não faz sentido nenhum… a não ser que você ative o modo Rochelle, mãe do Chris, para que a criança entenda o comando, pare de negociar como um advogado trabalhista e termine de se arrumar, porque vocês já estão absurdamente atrasados.
A vida adulta é engraçada porque você sai de casa parecendo um executivo de alta performance:
- Relógio.
- Notebook.
- Camisa passada.
- Perfume caro.
Cinco minutos depois, você está ajoelhado no banco de trás do carro procurando o outro pé do sapato da criança, que só resolveu avisar, já quase chegando à escola, que estava calçando apenas um. E ainda jura que o sapato ficou no carro.
É nessa hora que você percebe que a verdadeira aura não está no café sem açúcar. Está em conseguir chegar na escola antes do portão fechar sem perder a sanidade.
Se alguém filmasse os bastidores da vida adulta, o LinkedIn acabava em uma semana.
Aliás, o LinkedIn é o Instagram da autoestima profissional. Lá todo mundo é apaixonado pelo que faz, inspirado todas as manhãs e “honrado em compartilhar mais um desafio”.
Enquanto isso, na vida real, você acabou de encontrar um tênis infantil dentro da geladeira e ainda nem são oito da manhã.
Depois de tudo isso, a internet continua: “Você precisa farmar aura.”
Aura?
Meu querido, eu estou tentando farmar cinco minutos de silêncio. Aura é luxo.
O máximo de aura que um adulto consegue produzir é quando acha a chave do carro de primeira. Isso é raro. Isso é místico. Isso é praticamente um evento astronômico.
A verdade é que, depois dos trinta, os critérios mudam completamente.
Os adolescentes farmam aura fazendo drift no videogame.
Os universitários farmam aura viajando de mochilão.
Os influencers farmam aura comprando café que custa o mesmo que um almoço.
Já o adulto…
O adulto da vida real farma aura quando lembra que hoje vence o IPVA antes da multa.
Quando troca o filtro do ar-condicionado antes dele virar patrimônio histórico.
Quando consegue sair de casa levando mochila, lancheira, garrafa, casaco, carregador, carteira… e os dois pés do sapato da criança.
Quando abastece o carro antes da luz da reserva acender. Nessa eu ainda não pontuei aura, confesso.
Isso, sim, é um combo lendário.
+500 de responsabilidade.
+300 de estabilidade emocional.
+700 porque ninguém perguntou: “Cadê minha meia?”
A internet romantiza a rotina, mas a realidade é que a gente passa o dia apagando incêndios que nem existiam às oito da manhã.
É uma habilidade impressionante. Você acorda com três tarefas e às dez da manhã já existem vinte e sete. Nenhuma delas foi criada por você.
No fim do dia, alguém pergunta:
— E aí, conseguiu descansar?
Consegui.
Fiquei parado por 42 segundos esperando o micro-ondas apitar.
Foi meu momento de autocuidado.
No fim das contas, talvez a verdadeira aura da vida adulta seja essa.
Sobreviver à semana inteira sem esquecer reunião, sem perder prazo, sem deixar a criança na escola no feriado, sem responder “beijo” para o chefe no whatzapp e sem chamar a professora de “amor”.
Porque se existe uma aura realmente rara, é a de alguém que está cansado, atrasado, cheio de boletos e responsabilidades… e ainda assim consegue rir da própria bagunça.
E, sinceramente? Isso deveria valer bem mais que um story no avião.
Lane Valle é jornalista, fonoaudiológica e colaboradora do Portal Acre








