
Depois de encerrar o primeiro semestre de 2026 sem registrar nenhum feminicídio consumado, o Acre voltou a conviver com uma sequência de assassinatos de mulheres por razões de gênero. Somente em julho, três casos foram registrados em municípios diferentes, interrompendo um período de aparente estabilidade e reforçando o alerta para a violência contra as mulheres no estado.
A mudança no cenário ocorre no mesmo mês em que o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelou que o Acre encerrou 2025 com o pior indicador proporcional do país. A taxa chegou a 3,2 feminicídios para cada 100 mil mulheres, a mais alta entre todas as unidades da Federação. Em números absolutos, o estado passou de oito vítimas em 2024 para 14 em 2025, um aumento de 74,3%.
O anuário mostra ainda que, enquanto no Brasil 44,4% das mulheres vítimas de homicídio foram assassinadas em razão do gênero, no Acre essa proporção alcançou 66,7%. Na prática, duas em cada três mulheres mortas de forma violenta no estado foram vítimas de feminicídio.
Três crimes em menos de um mês
O primeiro feminicídio de 2026 ocorreu em 5 de julho, na comunidade Japãozinho, zona rural de Cruzeiro do Sul. Juliana Barbosa Cerqueira, de 44 anos, foi morta a facadas pelo ex-marido, Aldemir Abreu de Oliveira, de 46 anos. Segundo a investigação, ela estava em processo de separação, possuía medida protetiva contra o agressor e havia decidido encerrar um relacionamento de cerca de 30 anos. Após o crime, o autor tirou a própria vida.
Menos de 48 horas depois, em 6 de julho, Maria Ferreira da Silva Almeida, de 49 anos, foi assassinada a facadas pelo marido, Osmar Pinheiro da Silva, de 58 anos, bombeiro militar da reserva, em uma residência localizada no km 27 da rodovia entre Manoel Urbano e Feijó. Conforme a Polícia Civil, a principal linha de investigação aponta que o crime foi motivado por ciúmes e ocorreu na presença da filha do casal. Depois de matar a esposa, o autor também cometeu suicídio.
O caso mais recente ocorreu na segunda-feira (27), quando o corpo de Reginaria Bandeira da Silva, de 22 anos, foi encontrado em uma área de mata às margens da estrada de Porto Acre, após três dias de buscas. A jovem estava desaparecida desde a sexta-feira (24). O principal suspeito, o ex-marido José Silva dos Santos, de 31 anos, confessou o crime e indicou à Polícia Civil o local onde havia ocultado o corpo. As investigações apontam que o assassinato também teve como motivação o inconformismo com o fim do relacionamento.
Cenário reforça tendência apontada pelos indicadores
A sucessão de casos evidencia que a ausência de feminicídios no primeiro semestre não significava necessariamente uma redução consistente da violência contra as mulheres. O próprio Relatório de Mortes Violentas Intencionais da Polícia Civil já apontava que, entre janeiro e junho, haviam sido registradas 21 tentativas de feminicídio no estado, indicando que a violência permanecia presente mesmo sem mortes consumadas.
Com os três assassinatos registrados em julho, o Acre volta a enfrentar um cenário semelhante ao observado em 2025, ano em que liderou o ranking nacional da violência letal contra mulheres. Os casos também reforçam uma característica recorrente desse tipo de crime no estado: todos tiveram como principais suspeitos homens com vínculo afetivo ou conjugal com as vítimas, em contextos marcados pelo término do relacionamento, ciúmes ou controle sobre a vida das mulheres.








