
A interrupção do crescimento das internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no Acre não significa que o estado tenha superado a pressão sobre a rede de saúde. Enquanto o mais recente Boletim InfoGripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostra que a curva de casos entrou em fase de estabilização, a última avaliação epidemiológica da Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre) aponta que o primeiro semestre de 2026 foi marcado pela instalação de um cenário de alta severidade, resultado do elevado número de hospitalizações registrado ao longo de várias semanas consecutivas.
A análise da Fiocruz, referente à Semana Epidemiológica 25 (21 a 27 de junho), indica que o Acre acompanha a tendência observada na maior parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde os casos de SRAG deixaram de crescer de forma acelerada. Apesar disso, o estado continua classificado em nível de alerta, enquanto Rio Branco permanece entre as capitais brasileiras com incidência elevada da doença, embora sem tendência de crescimento sustentado nas últimas seis semanas.
Essa estabilização ocorre após um primeiro semestre considerado atípico pela vigilância epidemiológica estadual. No boletim da Sesacre, os técnicos destacam que a evolução da curva de internações entre 2024 e 2026 evidencia um quadro compatível com uma crise sanitária de alta severidade, caracterizada pelo aumento expressivo das hospitalizações e pela permanência de níveis elevados de transmissão durante boa parte do semestre. A avaliação reforça que o cenário exige manutenção da vigilância epidemiológica e fortalecimento das medidas de prevenção.
Os números ajudam a explicar essa conclusão. Entre as semanas epidemiológicas 1 e 25, o Acre registrou 1.770 casos de SRAG, crescimento de 34,3% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 1.318 ocorrências, e de 19,7% na comparação com 2024, que somou 1.479 casos. O pico das internações ocorreu na Semana Epidemiológica 22, após um longo período de manutenção da curva em níveis elevados.
A avaliação estadual ajuda a compreender por que a Fiocruz mantém o Acre entre os estados em alerta. Embora o crescimento tenha sido interrompido, o instituto destaca que o estado continua entre aqueles onde os casos de SRAG associados ao vírus sincicial respiratório (VSR) permanecem elevados. Além disso, as hospitalizações por Influenza A, apesar de apresentarem tendência de estabilização ou queda, seguem em patamares considerados altos.
Na prática, isso significa que a desaceleração da curva não representa o fim da circulação intensa dos vírus respiratórios. O Acre convive simultaneamente com elevada atividade do VSR — principal responsável pelas internações de crianças pequenas — e da Influenza A, que continua sendo a principal causa de mortes por SRAG entre idosos no país.
Crianças continuam concentrando as internações
Os dados estaduais confirmam que a população infantil permanece sendo a mais afetada pelas formas graves da doença. Entre as semanas epidemiológicas 1 e 25, foram registradas 453 internações de crianças menores de dois anos, o maior número entre todas as faixas etárias. Em seguida aparecem as crianças de 5 a 9 anos, com 353 hospitalizações, e as de 2 a 4 anos, com 246 casos. Os idosos com 60 anos ou mais somaram 345 internações.
O boletim da Fiocruz mostra que, em nível nacional, o crescimento dos casos já foi interrompido entre crianças menores de dois anos, mas continua entre os idosos. A análise também aponta que o VSR segue predominando nas internações de crianças de até quatro anos, enquanto a Influenza A responde pela maior parte das hospitalizações e dos óbitos entre adultos e idosos.
Municípios
Rio Branco concentra 681 notificações de SRAG, o equivalente a pouco mais de 41% dos casos registrados no estado. Cruzeiro do Sul aparece em seguida, com 244 ocorrências, enquanto Marechal Thaumaturgo contabiliza 138 casos.
Quando a análise considera a incidência por habitantes, entretanto, Marechal Thaumaturgo apresenta a situação mais crítica do Acre, com 807,3 casos por 100 mil habitantes, sendo classificado pela Sesacre como município em situação de “surto extremo”. Também aparecem em condição crítica Feijó, Mâncio Lima e Jordão. Xapuri permanece na faixa de risco alto, enquanto a média estadual segue classificada como de alto risco.
Vacinação continua sendo a principal proteção
Apesar da interrupção do crescimento das internações, tanto a Fiocruz quanto a Sesacre alertam que ainda não é momento de reduzir os cuidados. O instituto recomenda que a população mantenha a vacinação contra gripe e Covid-19 em dia, especialmente entre idosos, crianças e pessoas com comorbidades, além do uso de máscaras em unidades de saúde e ambientes fechados quando houver sintomas respiratórios.
No Acre, a recomendação ganha ainda mais importância diante da baixa cobertura vacinal contra a influenza. Segundo a Sesacre, nenhum dos grupos prioritários atingiu a meta de 90% estabelecida pelo Ministério da Saúde, situação que contribui para a manutenção do elevado número de hospitalizações observado ao longo deste ano.








