
O casamento infantil ainda faz parte da realidade de milhares de crianças e adolescentes brasileiros e apresenta indicadores preocupantes no Acre. Dados do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que 366 crianças e adolescentes de 10 a 14 anos viviam em algum tipo de união conjugal no estado.
O levantamento nacional identificou 34.202 pessoas de 10 a 14 anos vivendo em união conjugal no Brasil. Desse total, aproximadamente 77% são meninas, o equivalente a 26,4 mil, enquanto cerca de 7,8 mil são meninos.
A situação chama atenção especialmente na Região Norte. Segundo o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), com base nos resultados do Censo 2022, o Norte apresenta proporcionalmente a maior taxa de crianças de 10 a 14 anos em união conjugal do país: 393 casos para cada 100 mil habitantes, ficando à frente do Nordeste, que registra 330 por 100 mil.
No Acre, os 366 casos encontrados pelo Censo representam uma redução em comparação com 2010. Naquele levantamento, haviam sido identificadas 424 pessoas de 10 a 14 anos vivendo em união. A diminuição foi de aproximadamente 13,7% em 12 anos, mas os números mostram que o fenômeno permanece presente no estado.
Um levantamento elaborado a partir dos dados do Censo 2022 e compartilhado nas redes sociais coloca Acre e Amazonas entre os estados com os maiores indicadores proporcionais de uniões envolvendo pessoas de 10 a 14 anos. O gráfico aponta percentual próximo de 0,11% para os dois estados, seguido por Amapá, Roraima e Alagoas. Como essa classificação é uma elaboração a partir dos dados censitários, e não um ranking oficial publicado pelo IBGE, a comparação deve ser interpretada com cautela.
Maioria das uniões acontece sem casamento formal
Outro aspecto importante dos dados é que falar em “casamento infantil” não significa necessariamente que essas crianças tenham passado por uma cerimônia ou possuam registro de casamento em cartório.
Entre as 34.202 crianças e adolescentes de 10 a 14 anos que viviam em união conjugal no Brasil em 2022, 29.619, ou 86,6%, estavam em uniões consensuais, isto é, viviam como casal sem casamento civil ou religioso.
Outros 7% estavam em casamentos civis e religiosos; 4,9% somente no civil; e 1,5% somente no religioso.
A diferença é fundamental porque a legislação brasileira proíbe o casamento de menores de 16 anos em qualquer circunstância desde 2019. As uniões informais, entretanto, continuam ocorrendo e ajudam a explicar por que crianças abaixo dessa idade aparecem nas estatísticas do IBGE.
Brasil tem o 6º maior número absoluto do mundo
O problema ultrapassa as fronteiras do Acre. Documento publicado em maio de 2026 pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) aponta que o Brasil possui atualmente o 6º maior número absoluto de casamentos infantis do mundo, segundo referência do UNICEF/Girls Not Brides apresentada pela instituição.
O documento também informa que, somente em 2024, foram registrados 13.024 casamentos civis envolvendo menores de 18 anos no Brasil.
A dimensão real pode ser ainda mais complexa justamente pela existência das uniões informais, que não aparecem nas estatísticas dos cartórios.
Além da desigualdade de gênero — já que as meninas representam 77% das pessoas de 10 a 14 anos identificadas em uniões —, há diferenças relacionadas à raça e ao território. Conforme o UNFPA, aproximadamente 69% das crianças nessa situação são pretas ou pardas.
Em números absolutos, o Nordeste concentra 39% dos casos identificados pelo Censo, seguido pelo Sudeste, com 25%, e pelo Norte, com 17%. Quando considerada a proporção populacional, porém, a Região Norte passa a apresentar o maior indicador do Brasil.
Impactos podem acompanhar meninas por toda a vida
Para as Nações Unidas, o casamento infantil e as uniões precoces constituem uma violação dos direitos humanos e afetam de maneira desproporcional meninas e adolescentes.
As consequências podem alcançar diferentes aspectos da vida. Estudos reunidos pelo UNFPA associam as uniões precoces à redução das possibilidades de conclusão dos estudos, dependência econômica, maternidade precoce e maior exposição a situações de violência física, sexual e emocional.
O órgão também alerta que pobreza, desigualdade de gênero, exclusão escolar e diferentes situações de vulnerabilidade estão entre os fatores que contribuem para a permanência dessas relações.
A discussão ganhou ainda mais espaço em 2026 com ações de conscientização voltadas ao enfrentamento das uniões precoces e à defesa de que casamento é uma responsabilidade da vida adulta.
Os números encontrados no Acre e em outros estados da Amazônia reforçam o desafio de identificar relações que muitas vezes acontecem fora dos registros oficiais. Para especialistas e organismos de proteção, o enfrentamento passa não apenas pela legislação, mas também pela permanência das crianças na escola, fortalecimento da rede de proteção, assistência social e criação de oportunidades que reduzam situações de vulnerabilidade.
Apesar da redução registrada no Acre entre 2010 e 2022, a existência de 366 crianças de apenas 10 a 14 anos vivendo em algum tipo de união conjugal mostra que o problema permanece presente e exige atenção do poder público e da sociedade.








