
A universalização do saneamento básico é apontada por diferentes estudos como uma das políticas públicas com maior capacidade de gerar retorno social e econômico. No Acre, onde os investimentos ainda figuram entre os menores do país, o tema ganha relevância diante dos desafios para ampliar o acesso aos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário.
Em entrevista ao Portal Acre, a engenheira civil e doutoranda da Rede Bionorte Daniela Silva Tamwing Aguilar, especialista em saneamento e atualmente diretora de Planejamento e Gestão do SUS na Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre), analisa os impactos do saneamento sobre a economia e a saúde pública.
Ela também explica por que o estado ainda enfrenta dificuldades para avançar na universalização dos serviços e defende que o saneamento seja tratado como uma política de Estado, baseada em planejamento, continuidade e sustentabilidade.
Portal Acre — Muitas pessoas ainda enxergam o saneamento apenas como uma obra de infraestrutura. Por que ele deve ser entendido também como um investimento em desenvolvimento econômico?
Daniela Tamwing — É importante que a sociedade compreenda que o saneamento básico vai muito além da construção de redes, estações de tratamento ou sistemas de abastecimento. Essas estruturas são fundamentais, mas representam apenas uma parte de um serviço essencial e permanente. Quando uma população tem acesso regular à água potável e ao tratamento adequado dos esgotos, há redução das doenças de veiculação hídrica, menos internações, menos afastamentos do trabalho e da escola e menor pressão sobre o sistema de saúde. O saneamento tem relação direta com saúde, educação, produtividade, desenvolvimento urbano e redução das desigualdades sociais. Por isso, precisa ser compreendido como uma política estruturante de desenvolvimento, e não apenas como uma obra pública.
Portal Acre — O estudo aponta que a universalização do saneamento poderia gerar quase R$ 6 bilhões em retorno econômico para o Acre. Na prática, o que esse número representa?
Daniela Tamwing — Esse valor demonstra que o saneamento não deve ser visto apenas como despesa pública. Há impactos imediatos durante a implantação das obras, com geração de empregos, contratação de serviços e movimentação da economia. Mas os efeitos mais importantes aparecem no médio e no longo prazo. A população adoece menos, os gastos com saúde diminuem, os trabalhadores produzem mais, as crianças faltam menos à escola e as cidades se tornam mais valorizadas e atrativas para investimentos. Os benefícios alcançam diferentes setores da economia e melhoram a qualidade de vida da população.
Portal Acre — Além da saúde pública, quais setores também são beneficiados pela ampliação do saneamento?
Daniela Tamwing — A saúde é um dos setores mais diretamente beneficiados, mas os efeitos se espalham por toda a sociedade. Crianças que adoecem menos tendem a frequentar mais a escola e ter melhores condições de aprendizagem. Os trabalhadores reduzem os afastamentos por doença e aumentam sua produtividade. Além disso, a melhoria da infraestrutura urbana favorece a valorização imobiliária, estimula novos empreendimentos e amplia a atratividade dos municípios para investimentos, contribuindo para o desenvolvimento econômico.
Portal Acre — O que ajuda a explicar esse cenário?
Daniela Tamwing — O investimento em saneamento possui um ciclo longo. Entre a captação dos recursos e a execução das obras existem etapas como elaboração de projetos, licenciamento, contratação e execução, o que faz com que parte dos investimentos apareça nas estatísticas apenas anos depois. O Acre também passou por um período de reestruturação de seus projetos de regionalização dos serviços. Hoje já existem recursos captados e novas iniciativas em andamento, embora isso ainda esteja longe de ser suficiente para garantir a universalização. O desafio continua sendo ampliar os investimentos e assegurar sua continuidade ao longo dos próximos anos.
Portal Acre — Quais são hoje os principais desafios para que o Acre consiga universalizar o saneamento?
Daniela Tamwing — Não existe um único obstáculo. O desafio envolve fatores financeiros, técnicos, institucionais, culturais e de planejamento. É preciso garantir sustentabilidade econômico-financeira aos serviços, fortalecer a capacidade técnica dos órgãos responsáveis e manter políticas públicas de longo prazo. Grandes sistemas de saneamento normalmente ultrapassam o período de uma gestão, por isso os projetos precisam sobreviver às mudanças administrativas e ser tratados como políticas de Estado.
Portal Acre — Que soluções são mais adequadas para os municípios acreanos, especialmente os de pequeno porte e comunidades isoladas?
Daniela Tamwing — A Amazônia possui grandes distâncias, comunidades ribeirinhas, áreas de difícil acesso e forte sazonalidade dos rios. Por isso, muitas vezes são necessárias soluções descentralizadas, modulares e adaptadas às características locais. Existem experiências que podem servir de referência, mas não há um modelo único. Cada município precisa adotar soluções compatíveis com sua realidade ambiental, social, econômica e cultural, garantindo segurança da água, continuidade do serviço e sustentabilidade operacional.
Portal Acre — Qual mensagem a senhora considera importante deixar para a sociedade?
Daniela Tamwing — O saneamento precisa ser compreendido como um serviço essencial e uma política estruturante de desenvolvimento. Investir em saneamento é investir na prevenção de doenças, na educação, na produtividade, na proteção ambiental e na redução das desigualdades sociais. Também é investir na dignidade das pessoas. Ter acesso à água potável, a um banheiro adequado e a um ambiente livre de esgoto a céu aberto não deveria ser visto como um privilégio, mas como uma condição básica de cidadania. O desafio do Acre é grande, mas é possível superá-lo com planejamento, conhecimento técnico, responsabilidade institucional e continuidade das políticas públicas.







