
Uma experiência pessoal marcada pela angústia de precisar de atendimento de emergência para a própria mãe deu origem a um projeto tecnológico que pretende reduzir etapas e tornar mais ágil o acionamento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A proposta, ainda em desenvolvimento, reúne recursos como geolocalização em tempo real, histórico de saúde do paciente, inteligência artificial, comandos de voz e definição inteligente de rotas para ambulâncias.
A iniciativa é liderada pelo empreendedor e analista de sistemas Enarde Fernandes, em parceria com Anderson Santos Fernandes, profissional de tecnologia e inovação. O projeto já passou por programas de apoio ao desenvolvimento de soluções inovadoras e, atualmente, seus responsáveis realizam uma pesquisa para compreender as principais dificuldades enfrentadas pela população durante o acionamento do serviço de emergência.
Segundo Enarde, a ideia surgiu depois que sua mãe apresentou sinais de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e ele precisou ligar para o Samu. Em meio à tensão daquele momento, percebeu a dificuldade de fornecer rapidamente todas as informações necessárias durante o atendimento inicial.
“Foi o pior momento da minha vida, porque eu pensei que naquele dia ia perder minha mãe”, relata.
Durante a ligação, além de se identificar, Enarde precisou responder perguntas relacionadas ao quadro clínico da mãe, como doenças preexistentes, medicamentos utilizados e outras informações necessárias para orientar o atendimento. Apesar de conhecer parte do histórico de saúde dela, afirma que a situação de emergência dificultou até mesmo lembrar informações que normalmente saberia responder.
“Mesmo eu sabendo de algumas informações sobre a saúde da minha mãe, naquele momento delicado as coisas somem da cabeça. Eu realmente não sabia quais medicamentos ela tomava para a pressão alta. Naquele momento, nem lembrava se era pressão alta ou baixa”, conta.
A experiência levou o profissional de tecnologia a pensar em uma ferramenta capaz de disponibilizar previamente parte dessas informações à central de atendimento. A premissa do projeto é simples: em situações como AVC e parada cardiorrespiratória, reduzir o tempo gasto entre o pedido de socorro, a triagem e o deslocamento da equipe pode ser determinante para o atendimento ao paciente.
Dados do paciente seriam enviados automaticamente
Pela proposta, o usuário poderia manter previamente cadastradas no aplicativo informações pessoais e de saúde. No momento de uma emergência, dados necessários à identificação e ao atendimento poderiam ser encaminhados à central, diminuindo a necessidade de repeti-los verbalmente em uma situação de estresse.
Entre as informações previstas estão histórico médico, comorbidades, medicamentos utilizados e outros dados relevantes para auxiliar a equipe na avaliação inicial da ocorrência.
A ferramenta também pretende utilizar a geolocalização do celular para informar a posição do solicitante em tempo real. A lógica seria semelhante à utilizada por aplicativos de transporte, nos quais a localização do usuário é identificada pelo próprio sistema.
Atualmente, quem aciona um serviço de emergência pode precisar informar endereço e referências para indicar onde está a ocorrência. Para Enarde, automatizar parte desse processo poderia reduzir o tempo necessário para localizar o paciente e também diminuir dificuldades de comunicação.
“Se tem um minuto para o atendente coletar essas informações do teu nome, as informações do paciente, quais medicamentos ele toma, a localização principalmente, ponto de referência e endereço detalhado, isso já leva mais que um minuto”, explica.
A proposta não pretende eliminar a atuação dos profissionais responsáveis pela regulação e pelo atendimento. As informações digitais funcionariam como suporte para acelerar etapas e fornecer dados adicionais aos profissionais.
Aplicativo prevê inteligência artificial e rotas para ambulâncias
Outro recurso em desenvolvimento é a utilização de inteligência artificial para auxiliar na triagem inicial das ocorrências. Conforme a proposta apresentada pelos responsáveis pelo projeto, o sistema poderia organizar informações fornecidas pelo usuário e contribuir para indicar características e prioridades do atendimento.
A decisão final, entretanto, continuaria dependendo da avaliação humana. Segundo Enarde, a tecnologia funcionaria como ferramenta de apoio aos profissionais, e não como substituição do processo de decisão realizado pelas equipes responsáveis pelo atendimento.
O projeto também prevê um sistema de rotas para auxiliar o deslocamento das ambulâncias. A ferramenta buscaria identificar caminhos mais rápidos entre a unidade ou veículo disponível e o local da ocorrência, considerando situações como congestionamentos, interdições e ruas em obras.
Com isso, a expectativa dos desenvolvedores é atuar em diferentes etapas do atendimento: desde o acionamento e localização do paciente até a disponibilização de informações clínicas e o deslocamento da ambulância.
Comando de voz pode ampliar acessibilidade
A acessibilidade também está entre os pontos previstos. O projeto trabalha na implementação de um assistente de voz que permitiria solicitar atendimento sem necessariamente manusear o aparelho celular.
A ideia é que um comando previamente definido possa iniciar o pedido de socorro e conduzir o usuário por perguntas necessárias para completar o acionamento.
Além de beneficiar pessoas com deficiência ou dificuldades para utilizar a interface convencional do telefone, Enarde cita situações em que a própria emergência impossibilite o uso das mãos.
Um dos exemplos apresentados pelo desenvolvedor é o de uma vítima de acidente de trânsito presa às ferragens. Caso o celular esteja próximo e o sistema esteja habilitado, a pessoa poderia tentar solicitar socorro por voz mesmo sem conseguir alcançar ou operar fisicamente o aparelho.
Plataforma também é pensada para a gestão pública
Embora a experiência do usuário seja uma das principais frentes do projeto, os desenvolvedores afirmam que a solução não está sendo concebida somente como um aplicativo instalado no celular da população.
A proposta inclui uma plataforma destinada à central de atendimento, capaz de receber e organizar as informações enviadas pelos usuários em tempo real. Também está prevista a criação de painéis de indicadores os chamados dashboards para reunir dados que possam auxiliar gestores na tomada de decisões.
A intenção é que informações consolidadas sobre os atendimentos possam, futuramente e dentro das regras aplicáveis ao tratamento de dados, contribuir para identificar demandas, acompanhar indicadores e subsidiar planejamento e políticas públicas relacionadas ao atendimento de urgência e emergência.
A área de proteção das informações também integra o conhecimento técnico envolvido no projeto. Enarde é bacharel em Sistemas de Informação e pós-graduando em Cibersegurança e Governança de Dados pela PUC Minas.
Projeto passou por programas de inovação
A iniciativa já participou do HealthTech, programa de inovação voltado ao desenvolvimento de soluções para a área da saúde. De acordo com Enarde, a participação possibilitou ao projeto receber consultoria e passar por um processo de aprimoramento da proposta.
Segundo ele, o programa é desenvolvido pelo Sebrae em parceria com o Hospital de Amor de Barretos, em São Paulo.
O projeto também foi selecionado no Programa Centelha, iniciativa de estímulo à inovação e ao desenvolvimento de novos negócios. A passagem pelos programas, segundo os responsáveis, tem contribuído para validar aspectos da solução e aperfeiçoar o modelo antes de uma eventual implementação.
Neste momento, a equipe realiza uma pesquisa voltada aos usuários para identificar dificuldades enfrentadas por quem já precisou acionar o Samu. A intenção é utilizar essas respostas para compreender quais funcionalidades são mais necessárias e aperfeiçoar o projeto.
Outro objetivo é apresentar a proposta ao poder público, uma etapa considerada fundamental pelos desenvolvedores para que a solução possa, futuramente, ser integrada à estrutura de atendimento de emergência.
Portanto, apesar das funcionalidades planejadas e da participação em programas de inovação, o aplicativo ainda está em desenvolvimento e não integra atualmente o sistema oficial de atendimento do Samu.
Tecnologia desenvolvida por profissionais acreanos
Enarde Fernandes é empreendedor, bacharel em Sistemas de Informação, profissional de tecnologia e consultor em Ciência, Tecnologia e Inovação. Atualmente, cursa pós-graduação em Cibersegurança e Governança de Dados pela PUC Minas.
Ele também é fundador da Agência Tech X, voltada ao desenvolvimento de soluções digitais e produtos tecnológicos, e possui experiência na criação de sistemas para diferentes setores, incluindo instituições públicas, organizações de saúde e empresas.
Anderson Santos Fernandes, que também participa da iniciativa, é mestre em Administração e analista de sistemas, com pós-graduações nas áreas de Gestão, Inovação Tecnológica e Filosofia. Atua há mais de 18 anos no setor educacional, é professor de Empreendedorismo e Inovação e desenvolve atividades ligadas ao ecossistema de tecnologia acreano.
Anderson também atua como embaixador da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) no Acre e é responsável pelo Departamento de Tecnologia da Informação da Junta Comercial do Estado do Acre (Juceac), além de trabalhar com consultoria e projetos relacionados à inovação.
Para os idealizadores, o desafio agora é avançar na validação da solução e demonstrar de que maneira a tecnologia pode ser incorporada ao atendimento de emergência. A ideia que nasceu de um dos momentos mais difíceis vividos por Enarde tornou-se, assim, um projeto que busca transformar aquela experiência pessoal em uma ferramenta capaz de reduzir etapas justamente quando cada minuto pode fazer diferença.
Como participar da pesquisa?
Sua experiência pode ajudar a melhorar o atendimento do SAMU 192.
Se você já utilizou o serviço 192, participe desta breve pesquisa e contribua para o desenvolvimento de uma nova ferramenta.
Não utilizou? Compartilhe com um amigo ou familiar que já tenha usado.








