Rio Branco, 22 de setembro de 2026.

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Morre Zuenir Ventura, jornalista que levou a história de Chico Mendes de Xapuri para o Brasil

Zuenir Ventura ao lado da primeira mulher de Chico Mendes – Foto cedida

O jornalismo brasileiro perdeu nesta terça-feira (22), Zuenir Ventura, um de seus nomes mais reconhecidos, aos 95 anos, no Rio de Janeiro. Jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, ele construiu uma carreira marcada pela cobertura de episódios decisivos da história recente do país. Entre suas reportagens mais importantes está aquela que estabeleceu uma relação especial entre seu trabalho e Xapuri, no Acre: a investigação sobre o assassinato de Chico Mendes.

Poucas semanas depois da morte do líder seringueiro, assassinado em 22 de dezembro de 1988, Zuenir Ventura foi enviado pelo Jornal do Brasil ao Acre para investigar o crime. No início de 1989, passou cerca de um mês na região, acompanhando personagens, ouvindo testemunhas e tentando compreender as circunstâncias que haviam levado à execução de Chico Mendes.

O resultado foi a série de reportagens “O Acre de Chico Mendes”, publicada pelo Jornal do Brasil. O trabalho teve repercussão nacional e recebeu dois dos mais importantes reconhecimentos do jornalismo brasileiro: o Prêmio Esso e o Prêmio Vladimir Herzog.

A série também registrou Xapuri em um momento decisivo de sua história. A pequena cidade do interior do Acre, até então praticamente desconhecida para grande parte do país, passou a ocupar espaço no noticiário nacional e internacional depois do assassinato de Chico Mendes.

A força da reportagem estava justamente em não tratar o assassinato apenas como um crime isolado. Zuenir mergulhou no ambiente social, político e fundiário do Acre para compreender quem era Chico Mendes, quais conflitos estavam por trás de sua luta e por que sua morte havia provocado repercussão tão grande.

Os registros da série mostram que o jornalista esteve diversas vezes em Xapuri, acompanhando personagens diretamente relacionados ao caso. Uma das reportagens, por exemplo, tratou da situação das testemunhas do assassinato e das dificuldades enfrentadas pela Justiça na região.

A documentação acadêmica sobre a série também registra diferentes reportagens dedicadas a Xapuri e seus personagens, incluindo textos sobre Genésio Ferreira da Silva, testemunha-chave do caso, e outros protagonistas dos conflitos que envolviam Chico Mendes.

Foi justamente durante essa apuração que Zuenir conheceu Genésio, então com 13 anos. O garoto era uma das principais testemunhas do assassinato e permanecia sob proteção policial em Xapuri. A situação de risco levou o jornalista a se envolver pessoalmente com o destino do adolescente.

Em entrevista ao Portal Sesc São Paulo, em 2014, Zuenir contou que retornou diversas vezes a Xapuri e passou a temer que Genésio fosse morto. Posteriormente, o menino foi levado para o Rio de Janeiro e permaneceu sob sua tutela até completar 18 anos.

Da reportagem ao livro

A relação de Zuenir com a história de Chico Mendes não terminou com a publicação das reportagens. Em 2003, ele lançou “Chico Mendes – Crime e Castigo”, livro que recuperou a série O Acre de Chico Mendes e acrescentou novos elementos obtidos em outras viagens ao Acre e durante o acompanhamento do julgamento dos assassinos do líder seringueiro.

A obra foi dividida em três grandes momentos: o crime, o castigo e o que aconteceu posteriormente com os personagens envolvidos na história. Assim, uma reportagem produzida a partir de uma viagem a Xapuri acabou se transformando em uma obra de referência sobre Chico Mendes e sobre o contexto em que ele viveu e morreu.

A marca deixada no Acre

Zuenir Ventura construiu uma trajetória muito mais ampla que sua passagem pelo Acre. Foi autor de livros como 1968 – O Ano que Não Terminou e Cidade Partida, trabalhou em veículos como Jornal do Brasil, Veja, IstoÉ e O Globo e, em 2014, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, onde ocupava a cadeira 32.

Mas, para Xapuri, sua passagem teve um significado particular. Ao chegar à cidade para investigar a morte de Chico Mendes, Zuenir ajudou a transformar uma tragédia local em uma história conhecida em todo o país. Sua reportagem apresentou aos leitores brasileiros não apenas o líder seringueiro, mas também o universo dos seringais, os conflitos pela terra, a violência contra trabalhadores rurais e a luta pela preservação da floresta.

Mais de três décadas depois, a cobertura continua sendo uma das referências jornalísticas sobre o assassinato que mudou a história de Xapuri e projetou Chico Mendes internacionalmente.

A morte de Zuenir Ventura encerra a trajetória de um jornalista que passou décadas contando as histórias de outras pessoas. Entre tantas, a história de Chico Mendes ocupa um lugar especial e, dentro dela, Xapuri é personagem fundamental.

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