Rio Branco, 12 de setembro de 2026.

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Primeira Concha Acústica de Xapuri recebe nome de Luiz Beleza, mestre de gerações de músicos da cidade

Luiz Beleza, ainda jovem, integrando a Banda de Música Dona Júlia Gonçalves Passarinho – Foto cedida

Antes mesmo de receber seus primeiros shows, a primeira Concha Acústica de Xapuri já carrega uma história daquelas que a famosa cidade acreana é especialista em produzir. O espaço em construção na Praça São Gabriel, conhecida também como Praça de Eventos, foi oficialmente denominado Concha Acústica Mestre Luiz Beleza da Silva, em homenagem a um dos nomes mais importantes da trajetória musical do município.

A denominação foi oficializada pela Lei Municipal nº 1.319, de 8 de setembro de 2026. A escolha reconhece a contribuição de Luiz Beleza para a música, a cultura e a formação de músicos em Xapuri. A homenagem foi proposta por músicos, artistas, amigos, admiradores e cidadãos da cidade, por meio de um memorial, documento que reúne aspectos da trajetória de um homem cuja vida se confunde com a história musical xapuriense.

Nascido em 2 de outubro de 1953, no Seringal Venezuela, colocação Esperança, Luiz teve contato com a música ainda jovem. Estudou com nomes que marcaram época em Xapuri, entre eles Padre Carlos, Félix Pereira, Cardosinho, Carlos Koury e o maestro Tenente Rui Francisco de Melo.

Passou por grupos como Os Vibrantes e pela Banda de Música Dona Júlia Gonçalves Passarinho, onde chegou à função de contramestre. Durante mais de cinco décadas, destacou-se como trompetista, contrabaixista, guitarrista, violonista e vocalista.

Luiz Beleza (1º da esquerda para a direita) com colegas músicos de Xapuri – Foto cedida

Mas seu maior legado talvez esteja na influência exercida sobre quem veio depois. O ex-bancário e também músico Almir Santana Ribeiro conheceu Luiz quando chegou do seringal, em 1966, e o considera seu primeiro amigo em Xapuri. Os dois estudaram música juntos e fizeram parte da primeira turma da Banda Dona Júlia.

“Ele logo despontou como uma pessoa bem influente e passou a exercer a liderança entre a turma, era sempre o primeiro a concluir os ensaios e ficava a ajudar a um e outro”, relembra.

Em 1976, Luiz também ajudou Almir a ingressar no conjunto Super Sonic, onde participaram de bailes que marcaram a vida cultural da cidade. Para Almir, a influência de Luiz ultrapassou a música.

“Ele sempre à frente de tudo, com seu jeitão maneiro mas com a cabeça sempre à frente uns 10 anos. Com a sua simplicidade marcou a vida de muita gente, deixou uma marca indelével na cultura da nossa cidade, mexeu e marcou muitos corações”, acrescenta.

Um mestre que deixou discípulos

A mesma influência aparece no depoimento do Capitão Adalcimar Cruz, maestro do Exército Brasileiro, que reconhece em Luiz uma referência decisiva em sua formação.

“Luiz foi um grande incentivador e professor dedicado no ensino dos jovens e, de forma muito especial, seu talento ficou marcado na Banda de Música Dona Júlia Gonçalves Passarinho, onde inspirou uma geração de músicos que continuam em atividade”, afirma.

Multi-instrumentista, Beleza, marcou uma geração de músicos em Xapuri – Foto cedida

De acordo com o memorial, Luiz dava aulas de violão, orientava iniciantes e ajudava jovens a desenvolver repertório, transmitindo não apenas conhecimentos musicais, mas também disciplina, dedicação e amor pela cultura.

Antônio Cosmo da Rocha, o Magrão, amigo e companheiro de trajetória artística, destaca justamente essa combinação entre talento e humanidade. Ele descreve Luiz como uma “figura iluminada”, marcada pela humildade, generosidade e muita sensibilidade.

“Era um homem à frente de seu tempo, cuja contribuição para a cultura local transcendeu gerações. Essa homenagem, além de muito adequada, faz uma grande justiça ao que esse cara fez por Xapuri, pela nossa história e nossa cultura”, enfatiza.

Já o bancário aposentado, empresário do ramo de hospedagem e memorialista João Lopes Mendes Filho, o João Garrinha, chama atenção para o talento intuitivo do músico.

“Luiz tinha a rara habilidade de tocar praticamente qualquer instrumento ‘de ouvido’, guiado por uma percepção musical privilegiada e por uma profunda conexão com a arte”, endossa.  

Um nome para a história

Luiz poderia ter buscado outros caminhos, mas escolheu permanecer em Xapuri, onde construiu família, amizades e seu legado cultural. Trabalhou durante anos no serviço público municipal e manteve a música como parte permanente de sua vida. Por volta de 2019, problemas de saúde interromperam uma trajetória artística de mais de meio século.

Agora, seu nome estará ligado ao primeiro espaço construído na cidade especialmente para receber músicos, artistas e manifestações culturais. É justamente nesse ponto que a homenagem ganha força e legitimidade: a Concha Acústica nasce para ser palco de novos talentos, enquanto Luiz Beleza passou a vida ajudando a formar esses talentos.

O memorial que fundamentou a proposta resume o sentido da homenagem ao defender que seu nome permaneça associado ao espaço como símbolo de arte, sensibilidade, generosidade e compromisso com a cultura xapuriense.

Quando as primeiras apresentações acontecerem na Concha Acústica Mestre Luiz Beleza da Silva, o palco não terá apenas um nome, mas também uma memória, acima de outras coisas, muito emotiva, pois a obra de Luiz Beleza não ficou apenas nas músicas que tocou e nos eventos que abrilhantou, mas, sobretudo, nas pessoas que ajudou a formar e nas muitas amizades que construiu em Xapuri.

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