
Minha tia, carinhosamente chamada de Rainha da Floresta, tinha uma maneira muito particular de traduzir os dias nublados. Sempre que o céu amanhecia cinzento, ela dizia que o dia estava triste. Era uma observação simples, dessas que parecem não ter importância na hora, mas que, com o tempo, ganham outro significado e passam a morar na memória da gente.
Ela se foi recentemente. E, nesta semana, mesmo com o sol brilhando lá fora, me peguei pensando que o tempo também pode ficar triste sem que nenhuma nuvem cubra o céu.
Há dias em que a tristeza não vem da chuva, nem do frio, nem da falta de luz. Ela chega pelas notícias que recebemos, pelas ausências que se anunciam, pelos abraços que, de repente, se tornam os últimos. Chega quando a vida nos lembra, sem pedir licença, que ninguém fica para sempre.
Nesta semana, uma amiga de trabalho perdeu a mãe. Um dia depois, outro grande colega partiu. Ícone do jornalismo acreano, ele deixou uma trajetória de trabalho, histórias e afetos, além de uma comoção que revelou o tamanho de sua presença entre nós.
Em meio a essas despedidas, fiquei observando uma cena que se repete nos velórios, independentemente de quem parte ou da idade que tenha: a surpresa diante da morte. As pessoas dizem que, embora ela seja a única certeza que temos, nunca estamos realmente preparados para enfrentá-la.
E talvez seja exatamente isso.
A morte é uma certeza que a razão conhece, mas que o coração insiste em não compreender por inteiro. Podemos saber que a vida tem um fim, mas nunca estamos completamente prontos para o instante em que alguém deixa de fazer parte dos nossos dias.
Sempre parece cedo demais. Sempre fica alguma coisa por dizer, algum encontro que poderia ter acontecido, um abraço que poderia ter durado um pouco mais.
A despedida tem essa capacidade de nos fazer olhar para a vida de outro jeito. Por alguns instantes, as urgências perdem o tamanho, os problemas parecem menores e aquilo que ontem nos tirava o sono já não ocupa tanto espaço. O que realmente importa ganha contornos mais nítidos: a família reunida, os amigos por perto, uma conversa sem pressa, uma risada compartilhada, a possibilidade de dizer “eu te amo” e ouvir essas palavras de volta.
É curioso como precisamos, tantas vezes, da ausência para reconhecer o valor da presença.
Adiante, a rotina retorna. Os compromissos se acumulam, os telefones tocam, as mensagens chegam, o trabalho nos chama. E corremos novamente, como se o tempo fosse uma estrada longa e sem fim. Mas não é.
A vida acontece justamente nesse intervalo entre uma despedida e outra, nos dias comuns, nublados ou de sol, que nem sempre sabemos valorizar.
Talvez viver melhor seja aprender a não deixar o afeto para depois. Abraçar mais demoradamente. Telefonar sem ter um motivo especial. Visitar quem sentimos saudade. Perdoar quando o coração permitir. Pedir perdão quando for necessário. Estar presente de verdade, em vez de apenas prometer que um dia teremos mais tempo.
Porque o tempo, esse bem tão precioso, não nos pertence por inteiro.
Também penso que estar mais perto de Deus passa por aprender a olhar para a vida com mais ternura. Pela fé que nos ampara quando as palavras faltam, pela esperança de que a despedida não precisa ser o fim de todo amor, pela confiança de que existe algo maior sustentando aquilo que não conseguimos compreender. E, sobretudo, pela maneira como escolhemos tratar as pessoas enquanto caminhamos ao lado delas.
Talvez a nossa melhor forma de honrar quem partiu seja cuidar melhor de quem ficou. Ser mais generosos, menos apressados, mais dispostos a ouvir. Fazer do amor uma prática cotidiana, e não apenas uma palavra bonita pronunciada quando já não há mais tempo.
Não se trata de viver com medo da despedida, nem de transformar cada encontro em uma contagem regressiva. Trata-se justamente do contrário: viver com mais presença, com mais leveza, com a consciência de que a vida é um sopro, mas pode ser um sopro cheio de significado. Que não precisamos esperar uma perda para perceber a beleza de ter alguém ao nosso lado.
Hoje, lembro da minha tia e de sua maneira tão simples de dizer que o dia estava triste. Imagino que ela não soubesse que essa frase ficaria comigo de um jeito tão profundo. Agora entendo que existem tristezas que não dependem do céu e que há saudades capazes de mudar a paisagem de uma vida inteira.
Mas também entendo que o amor permanece. Na lembrança de uma voz, nos ensinamentos que ficam, nas histórias que continuamos contando e naquilo que cada pessoa deixou de bom em nós.
Lá fora, o sol pode continuar brilhando. E, ainda assim, o coração pode sentir falta, recolher-se um pouco e precisar de silêncio. Não há problema nisso. A saudade também é uma forma de reconhecer a importância de quem passou pela nossa vida.
Que a gente aprenda, então, a se despedir com amor, a recordar com gratidão e a viver com mais coragem. Que não faltem abraços, palavras de carinho, encontros e motivos para agradecer. Que Deus nos dê sabedoria para aceitar o que não podemos mudar e sensibilidade para cuidar daquilo que ainda está ao nosso alcance.
Porque, no fim, talvez não sejamos lembrados pelo tempo que permanecemos aqui, mas pelo amor que conseguimos deixar.
E que, nos dias nublados e também naqueles de sol aberto, a gente nunca se esqueça de dizer às pessoas o quanto elas são importantes. Enquanto há tempo, enquanto há presença, enquanto há vida.
Lane Valle é jornalista, fonoaudióloga e colaboradora do Portal Acre.








