Rio Branco, 26 de outubro de 2026.

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Mailza Assis e o direito de ser tudo – Por Daigleíne Cavalcante

Mailza foi reeleita neste domingo – Foto assessoria

No Acre, Mailza Assis venceu as eleições. Um marco histórico. Pela primeira vez, uma mulher foi eleita diretamente pelo voto popular para governar o estado. Mas, para além do resultado das urnas, essa eleição deixou uma lição que merece ser lembrada: uma mulher pode ser tudo o que quiser. Inclusive aquilo que ninguém acredita que ela seja capaz de ser.

Mailza chegou ao governo desacreditada. Durante boa parte do período em que foi vice-governadora, viveu à sombra de Gladson Cameli. Recebeu uma secretaria, numa decisão que, aos meus olhos, lembrava um pai entregando o celular a uma criança e dizendo: “Pronto, agora me deixa trabalhar”.

O prestígio também não era o mesmo. Recordo-me de uma ocasião em que Gladson visitou uma instituição de governo e houve mobilização, preparação, quase uma cerimônia. Uma semana depois, Mailza esteve no mesmo local, cumprindo uma agenda semelhante. Dessa vez, a recepção foi discreta, restrita a um diretor. A vice-governadora parecia não despertar a mesma reverência.

Mas as águas passam debaixo da ponte. E, quando Mailza finalmente assumiu o governo, encontrou outro desafio: convencer as pessoas de que era capaz de governar.

As pesquisas não lhe eram favoráveis. Nas entrevistas, o nervosismo era perceptível. Faltava desenvoltura, sobrava desconfiança. Os entendidos de política praticamente decretavam, em coro, que Mailza estava fora do jogo.

Como jornalista, acompanho os capítulos da política acreana. E tenho a impressão de que uma das viradas de percepção aconteceu durante a Expoacre, em Rio Branco. Havia desconfiança sobre o que o governo conseguiria entregar. Mas a festa aconteceu, mobilizou o público e ajudou a mostrar uma gestão que buscava conciliar grandes eventos com responsabilidade nos gastos.

Não foi um governo sem crises. Tampouco uma administração imune a críticas. Mas Mailza atravessou momentos difíceis sem fazer do confronto permanente seu principal instrumento político.

Ao longo da campanha, mostrou que talvez nunca seja uma grande oradora. Não tem o perfil de estrela, não parece interessada em transformar cada aparição num espetáculo. Seu estilo é outro. E, gostem ou não dele, as urnas mostraram que existe espaço para mulheres que não se encaixam no modelo de liderança que tantos consideram ideal.

Mailza não precisou se transformar em outra pessoa para vencer.

Mas a vitória, por mais simbólica que seja, não encerra essa história. Pelo contrário. Agora começa a parte mais importante.

O Acre carrega uma realidade dolorosa para suas mulheres. Somos um estado marcado por índices alarmantes de feminicídio e violência doméstica. Há mulheres que vivem com medo dentro da própria casa, meninas vítimas de violência sexual e mães que precisam escolher entre trabalhar e cuidar dos filhos.

Ter uma mulher no comando do governo, acompanhada de outra mulher na vice-governadoria, precisa significar mais do que uma fotografia histórica. Precisa representar oportunidades, proteção, autonomia e políticas públicas que alcancem quem mais necessita.

Não espero que Mailza seja uma governadora perfeita porque é mulher. Nem que carregue sozinha a responsabilidade de corrigir desigualdades construídas ao longo de gerações.

Mas espero que compreenda o tamanho da porta que acaba de atravessar. E, sobretudo, que faça questão de mantê-la aberta para outras mulheres.

Mailza já mostrou que pode chegar onde muitos não acreditavam que chegaria.

Agora esperamos que mostre o quanto outras mulheres também podem avançar quando encontram um governo que as enxerga.

Porque a vitória de Mailza Assis só será verdadeiramente coletiva quando abrir caminhos para outras mulheres.

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