
Chegamos à véspera da eleição.
E, como todo brasileiro que sobreviveu a uma campanha eleitoral, estamos diante de um sentimento difícil de explicar: não sabemos se comemoramos o fim ou se começamos a sentir saudade do caos.
Porque, vamos combinar, foram semanas intensas, convivendo com bandeiraços a cada esquina, carreatas, jingles, santinhos e vídeos de candidatos olhando para a câmera como se estivessem prestes a salvar — ou assassinar — a pátria.
Amanhã, pelo menos em tese, tudo isso acaba.
O candidato que passou semanas sorrindo para nós na televisão vai desaparecer. De repente, não mais que de repente, me veio um “amém, igreja” à mente agora. Nem imagino por quê…
E como não sentir alívio pelo “pobi” do cabo eleitoral que apareceu cinco vezes na mesma esquina e que, finalmente, vai poder descansar?
Porque passar horas debaixo do sol, segurando uma bandeira que, em alguns casos, parece ter sido dimensionada para um estádio de futebol, acenando para motoristas que fazem de conta que não estão vendo, definitivamente, não é para qualquer um.
E os jingles? Ah, esses são um evento a parte.
Poucas coisas na vida têm a capacidade de sequestrar o cérebro de um cidadão como uma música eleitoral.
Você pode esquecer a senha do banco, o aniversário da sogra e onde deixou a chave do carro.
Mas o refrão daquele candidato que você nem lembra direito por que está concorrendo vai continuar tocando na sua cabeça às duas da manhã. E agora ficou ainda mais difícil escapar com a ajuda da inteligência artificial, até quem não tinha talento para fazer jingle descobriu que pode ter um hit eleitoral.
Por fim, amanhã é dia de ver, rever e conhecer pela primeira vez candidatos que você nem sabia que existiam — até sair pelas ruas e dar de cara com suas ilustres caras estampadas nos santinhos espalhados pelas calçadas e avenidas.
É dia de enfrentar fila, votar e voltar para casa com a tranquilidade de quem acabou de entregar uma prova sem ter certeza se marcou a alternativa certa.
Porque, na véspera de uma eleição, talvez a única certeza possível seja justamente a de que ninguém sabe muito bem o que vem depois.
Então, por enquanto, aproveitemos as últimas horas.
Despedimo-nos dignamente dos santinhos espalhados pelas ruas.
E, se cruzarmos com o último bandeiraço, talvez seja o caso de olhar com alguma ternura. Afinal, ele representa o fim de uma temporada.
Uma temporada barulhenta, exagerada, às vezes engraçada, às vezes cansativa e frequentemente capaz de transformar uma simples volta para casa numa expedição de três dias, especialmente quando você resolve sair às cinco da tarde e descobre que o trânsito decidiu transformar sua cidade em cenário de filme pós-apocalíptico.
Quanto ao futuro, só nos resta esperar.
E talvez essa seja a única coisa sobre a eleição que, até agora, ninguém precisou prometer.
Lane Valle é jornalista, fonoaudióloga e colaboradora do Portal Acre.







