
A diversidade da produção rural é uma das principais características da economia do Juruá, onde mandioca, café e açaí aparecem entre as atividades com maior potencial de expansão. Apesar dos volumes já registrados e de iniciativas de organização produtiva, a região ainda enfrenta dificuldades para transformar essa capacidade em produtos de maior valor agregado e ampliar sua presença nos mercados.
É o que aponta o estudo Território, Produção e Mercado: Vocações econômicas e caminhos para o desenvolvimento no Juruá, elaborado pelo Fórum Empresarial do Acre, com apoio do Sebrae. O levantamento analisa a microrregião formada por Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo e identifica oportunidades em seis áreas: café, mandioca e farinha, açaí, leite, cacau e turismo.
A mandioca apresenta a maior escala de produção entre as atividades analisadas. Os cinco municípios somaram 200.926 toneladas em 2024, segundo dados do IBGE utilizados pelo estudo. Cruzeiro do Sul liderou, com 56.929 toneladas, seguido por Mâncio Lima, com 46.999; Rodrigues Alves, com 41.165; Marechal Thaumaturgo, com 37.003; e Porto Walter, com 18.830 toneladas.
Além do volume, a região conta com um diferencial comercial: a farinha de Cruzeiro do Sul, que possui Indicação Geográfica e reconhecimento de origem. Para o estudo, esse ativo pode ser mais bem aproveitado com melhorias na qualidade, embalagem e regularidade sanitária, além da diversificação dos produtos derivados da mandioca, como fécula, goma, biscoitos e massas.
Café ganha espaço no Juruá
A cafeicultura também aparece como uma das atividades em expansão. Embora Acrelândia tenha tradição no cultivo, o estudo identifica um avanço recente da produção em municípios do Juruá, especialmente Mâncio Lima e Cruzeiro do Sul.
Em 2024, Mâncio Lima registrou 341 toneladas de café, com rendimento médio de 4.547 quilos por hectare. Cruzeiro do Sul produziu 113 toneladas, com rendimento de 3.531 quilos por hectare. Porto Walter apresentou produção de 30 toneladas e rendimento de 3.333 quilos por hectare.
A presença da Coopercafé, em Mâncio Lima, é apontada como um elemento importante para a organização da cadeia, por oferecer estrutura de pós-colheita e beneficiamento. O desafio, segundo o levantamento, é avançar de forma coordenada nas etapas de colheita, secagem, armazenagem e classificação, para garantir um padrão de qualidade reconhecido pelo mercado.
O estudo também destaca a necessidade de aproximar os municípios produtores por meio de assistência técnica e identidade comercial regional, além de explorar a ligação entre o café, a gastronomia e o turismo.
Açaí depende de conservação e processamento
Outra atividade com presença nos cinco municípios é a extração de açaí, que alcançou 1.082 toneladas em 2024. Cruzeiro do Sul respondeu por 358 toneladas, seguido por Marechal Thaumaturgo, com 233; Mâncio Lima, com 223; Porto Walter, com 136; e Rodrigues Alves, com 132 toneladas.
Nesse caso, o principal obstáculo está na perecibilidade do fruto. O intervalo entre coleta, transporte e processamento influencia diretamente o valor comercial, o que torna necessária a instalação de pontos de recepção, equipamentos de conservação, unidades de produção de polpa e estrutura de logística refrigerada.
O levantamento ressalta que a oportunidade não está apenas em aumentar a produção, mas em criar condições para que uma parcela maior do valor gerado pela cadeia permaneça na própria região.
Leite, cacau e turismo ampliam as possibilidades
O estudo também identifica desafios na produção de leite. Os cinco municípios registraram 1,191 milhão de litros em 2024, contra 1,564 milhão em 2020, uma redução de aproximadamente 24%. Cruzeiro do Sul concentrou a maior produção, com 493 mil litros. O beneficiamento artesanal, especialmente a fabricação de queijo, é apontado como uma alternativa para agregar valor, desde que acompanhado de assistência técnica, refrigeração e adequação sanitária.
O cacau, por sua vez, ainda está em fase de formação como atividade econômica. Embora as estatísticas consultadas não registrassem produção cultivada nos municípios até 2024, a pesquisa identificou iniciativas de plantio e organização de produtores em Cruzeiro do Sul e Rodrigues Alves. A recomendação é investir em formação técnica e sistemas agroflorestais antes de buscar uma expansão em grande escala.
No turismo, o Rio Crôa, em Cruzeiro do Sul, e o Parque Nacional da Serra do Divisor aparecem como referências para o desenvolvimento de atividades ligadas à natureza e às comunidades locais. O estudo aponta que a transformação desses atrativos em produtos turísticos depende da integração entre transporte, hospedagem, alimentação, guias, segurança e comercialização de roteiros.
Integração regional
Uma das principais conclusões do levantamento é que o desenvolvimento econômico do Juruá depende da articulação entre os municípios e as diferentes etapas das cadeias produtivas. Cruzeiro do Sul reúne maior estrutura de serviços, comércio e acesso a mercados, enquanto Mâncio Lima e Rodrigues Alves aparecem com funções importantes na produção e no beneficiamento. Porto Walter e Marechal Thaumaturgo ampliam a diversidade produtiva e territorial da microrregião.
Entre as propostas estão investimentos em estruturas compartilhadas de secagem, armazenamento e processamento, assistência técnica continuada, padronização dos produtos e fortalecimento dos canais de comercialização. O estudo também defende maior integração entre produtores, cooperativas, instituições e poder público.
O levantamento foi elaborado a partir de entrevistas, visitas técnicas, dados públicos e informações institucionais. A pesquisa de campo alcançou Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima e Rodrigues Alves. Porto Walter e Marechal Thaumaturgo foram incluídos por meio de dados secundários, sem visitas presenciais nesta etapa.







