Sócias, elas relatam que quando ouviram o governador Gladson Cameli afirmar em uma carreata eleitoral que faria a ponte adquiriram terrenos e começaram a investir em uma estrutura que conjugará hotel, restaurante, pousada e clube com piscinas
As irmãs Rosemere Ferreira da Silva, 41 anos, a Rose, e Maria de Jesus Ferreira da Silva, 35, são exemplo vivo de como, entre vários fatores, o empreendedorismo também depende de fé. Sócias no restaurante Vitória Régia, em Xapuri, elas celebram o bom momento vivido pela cidade com obras estruturantes como a Estrada da Variante e, especialmente, a Ponte da Sibéria — que, segundo afirmam, tem impulsionado os negócios e reacendido sonhos antigos.

Parte das expectativas das irmãs se materializa em um grande empreendimento que ambas começaram a construir no bairro Sibéria, hoje prestes a se conectar ao centro da cidade por meio da nova ponte. É curiosa a maneira como a obra que tanto está mexendo com os anseios dos xapurienses se tornou a motivação para que elas se atirassem de cabeça em um projeto ousado que inclui clube com piscinas e brinquedos infantis, churrascaria, espaço para eventos, pousada com chalés, hotel e restaurante.
“Assim que ouvimos, em uma carreata das eleições de 2018, o governador Gladson Cameli dizer que faria a ponte, nós corremos, compramos os terrenos e começamos a investir. Nós apostamos nessa obra e nunca duvidamos de que ele seria capaz de cumprir com a promessa que fez. Hoje, ao ver esse sonho sendo realizado eu fico muito emocionada e grata a Deus por termos acreditado”, diz Rose com lágrimas nos olhos.
O empreendimento está sendo construído há dois anos com recursos próprios — elas não conseguiram acessar financiamento bancário — e parte dele será inaugurado a partir de 2026. “Estamos trabalhando com todo o nosso empenho para entregar esse sonho. A pousada deve ser inaugurada no começo do ano que vem”, explica Maria de Jesus.
Infância difícil
Rosemere e Maria fazem parte de uma família numerosa, com 11 irmãos, dos quais cinco são filhos de pai e mãe. As duas são filhas de Raimundo Alves da Silva, o conhecido Branquinho Sanfoneiro, um dos pioneiros da formação do bairro Sibéria, e de Francisca Ferreira Correia. Com a mãe deficiente e um pai já idoso, a vida na infância não foi fácil, obrigando-as a crescer em condições de extrema vulnerabilidade e tendo que trabalhar muito cedo.
Entretanto, a cozinha já fazia parte dos dons da família antes mesmo delas nascerem. Os avós maternos, Luís Criança, um dos primeiros a empreender em Xapuri no ramo de pensões — pequenos restaurantes tradicionais —, e Maria Correia, que trabalhava ao lado do marido no antigo Mercado Municipal, deixaram um legado que ajudou a moldar a vocação que hoje as irmãs transformaram em negócio.
Após a morte do pai, Rose e Maria passaram a vender doces e produtos diversos para sobreviver. Ainda adolescentes, vendiam bananinha frita, brigadeiros, castanhas cristalizadas e outros quitutes nas escolas e na tradicional Festa da Sibéria. Mas, apesar das dificuldades, foi a partir dessa experiência que nasceu o espírito empreendedor que marcaria suas vidas.
O apoio essencial de Dona Carmita

Figura central nessa história é Dona Carmita Pereira de Souza, outra baluarte da comunidade Sibéria e criadora da histórica Saboaria Xapuri, um empreendimento comunitário que marcou época no bairro. Para Rose e Maria, ela foi uma espécie de segunda mãe e ainda um grande exemplo de liderança feminina, de trabalho coletivo e de solidariedade.
Rose lembra que ela e a irmã chegavam da escola e corriam para a saboaria. Lá, aprendiam a cortar, embalar e vender sabão e sabonetes, recebendo em troca lanches, doces e, principalmente, cuidados. Foi com Dona Carmita que elas aprenderam a preparar castanhas cristalizadas e bombons de cupuaçu, habilidades que se tornaram fundamentais na trajetória delas.
A saboaria também foi um refúgio emocional para as irmãs. “Fomos criadas sem mãe, não havia família para cuidar. Ali, crescemos protegidas sem se desviar para nada errado. A Dona Carmita cuidava de nós”, recorda Rose. Ela lembra que o ex-casal João Jorge e Maria Luceni, lideranças políticas e comunitárias do bairro, também tiveram papel de apoio importante na adolescência das duas.
Vocação para cuidar
A falta de proteção na infância e episódios de violência e abuso que ambas enfrentaram despertaram nelas um propósito forte: o de cuidar de outras crianças e famílias em vulnerabilidade. Rose e Maria falam disso com a convicção de quem transformou dores, traumas e dificuldades em uma missão maior. Elas mantêm anotado em um velho diário um projeto de criação de uma casa de apoio para crianças cujos pais são dependentes químicos ou não conseguem oferecer suporte adequado aos filhos.
Elas contam que querem oferecer estudo, alimentação, cuidado e acompanhamento, usando parte dos lucros dos empreendimentos. “Se nós tivéssemos tido um apoio maior, talvez tivéssemos sofrido menos. E eu quero zelar para que outras crianças não passem pelo que nós passamos”, diz Rose, que está se formando em enfermagem. A formação de Maria como técnica em enfermagem e seu curso atual de psicanálise clínica reforçam a condição de assumir o compromisso de cuidar de gente. “Quero entender a dor das pessoas e contribuir com elas”, afirma a irmã mais nova.
O primeiro restaurante
A entrada definitiva no mundo da alimentação veio aos poucos. Antes de empreender, as duas trabalharam em casas de família, onde aprimoraram o gosto pela cozinha. Maria diz que sempre foi mais tímida e retraída. Rose, ao contrário, tinha a energia da liderança. Foi ela quem insistiu para que alugassem o primeiro ponto comercial, uma decisão que Maria inicialmente resistiu a tomar, mas depois cedeu. “Tudo que eu sou hoje, eu devo à minha irmã”, reconhece.
A oportunidade de abrir o primeiro restaurante só foi possível graças a muito esforço e renúncia. As irmãs venderam gado e outros bens, fruto de anos de economia e de abrir mão de luxos femininos para investir no próprio negócio. Esse sacrifício tornou o empreendimento ainda mais significativo para elas. O primeiro ponto alugado foi um sucesso imediato. Ali aprenderam, juntas, a cozinhar profissionalmente e a lidar com o público.
Vitória Régia

Com o tempo, consolidaram o restaurante com o nome de Vitória Régia, que atende diariamente café da manhã, almoço e jantar. Para as irmãs, o movimento crescente tem relação direta com as obras recentes da cidade. A construção da Estrada da Variante já trouxe boas oportunidades. Mas é a Ponte da Sibéria que representa para elas um divisor de águas — tanto na economia local quanto na vida pessoal.
“Desde que começaram a construção da estrada e da ponte, a gente não parou mais de trabalhar. Só com as obras já mudou tudo. E quando ficar pronta, vai ser sobrenatural. Xapuri nunca mais será a mesma. Quem não prosperou até hoje, vai prosperar com toda certeza”, prevê Maria.
Um olhar para futuro

Com trabalho duro e lembranças difíceis, as irmãs enxergam o futuro com entusiasmo. Carregam consigo a gratidão aos que as ajudaram e o compromisso de retribuir à comunidade. “Eu adoro cuidar de pessoas. Tudo que vivemos foi preparo para o que estamos construindo agora. Nós queremos resgatar crianças, cuidar delas como cuidaram da gente”, diz Rose
O sucesso do restaurante Vitória Régia e o novo empreendimento que está prestes a nascer fazem Rosemere e Maria de Jesus sentir que a história que começou com pequenas vendas na escola chega agora a uma fase de realização pessoal, empresarial e comunitária. A trajetória delas simboliza o que está por vir em Xapuri: uma cidade que renasce a partir de pessoas que, apesar de tudo, apostam em crescer junto com ela.








