Rio Branco, 25 de maio de 2026.

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“A Sibéria agora vai ter valor”, afirma ex-seringueiro de Sena Madureira que escolheu Xapuri para viver

Apesar de inauguração estar marcada para às 16h30, seu José Maria chegou ao local antes das 8 horas: Foto Raimari Cardoso

Poucas horas antes da inauguração da Ponte da Sibéria, José Maria Freitas revisita memórias, perdas e esperanças de quem viu a cidade se transformar ao longo de cinco décadas

Na manhã deste domingo, 23, na área coberta preparada para a cerimônia de inauguração da Ponte da Sibéria, entre operários finalizando ajustes, autoridades circulando e moradores fotografando cada detalhe da estrutura histórica, um homem de olhar sereno observava tudo em silêncio, como quem está prestes a ver o desfecho de um capítulo longo da própria vida.

Sentado em uma das cadeiras sob as tendas montadas próximo à cabeceira da ponte no lado do centro da cidade, José Maria Freitas da Silva, de 78 anos, deixava o pensamento correr solto enquanto encarava à distância o começo da estrutura que agora vai unir sonhos e rotinas de milhares de xapurienses.

Nascido no seringal Guanabara, em Sena Madureira, José Maria começou cedo no ofício da borracha, por volta dos 17 anos de idade. Cortou seringa até 1972, e no ano seguinte chegou a Xapuri para trabalhar no seringal Novo Catete, às margens do Rio Acre, mas logo se fixou na cidade, onde construiu família e estabeleceu a sua história.

Foram apenas dois anos morando no bairro Sibéria, mas o suficiente para criar laços que jamais se desfizeram. A família da esposa Jacira Amorim, falecida há alguns anos, é oriunda da margem esquerda do Rio Acre, e por isso, mesmo morando “do lado de cá”, José Maria manteve com a comunidade uma relação de pertencimento.

“Tem gente desse lado que não gosta nem de falar de Sibéria, mas eu gosto. Morei dois anos lá e tenho saudade. Outro dia fui lá e gostei de ver como está tudo bonito, as ruas asfaltadas. Eu não tenho o que dizer da Sibéria”, afirmou.

Enquanto falava, olhava repetidamente para a direção da ponte como se procurasse nela suas próprias lembranças. José Maria viu essa promessa ser feita em campanhas eleitorais por décadas. E como muitos moradores, aprendeu a ouvi-las com cautela. Mas, diferente de outros, nunca perdeu a convicção de que o dia tão esperado chegaria.

“Em toda política falavam nessa ponte, mas só falavam. Mesmo assim, sempre tive a sensação de que ela ia sair. E se existe hoje uma pessoa ansiosa por essa ponte sou eu. Falar em ansiedade e não falar em mim, não falou em ninguém”, brincou.

A memória do ex-seringueiro, que já enfrentou um acidente vascular cerebral, guarda, porém, um detalhe doloroso. Nos últimos dias de vida de sua esposa, eles falaram da ponte e ela fez uma pergunta de difícil resposta.

“Quando a minha mulher estava perto de morrer, eu falando nessa ponte, ela perguntou: será que eu vou passar por ela? Hoje, ela não está aqui, mas eu vou representá-la nesse momento.”

Para José Maria, o impacto da ponte na vida prática dos moradores é evidente. Ele fala com a segurança de quem viveu a travessia por catraias, enfrentou as filas da balsa, esperou sob chuva, pagou por idas e vindas que deveriam ser simples.

“Vai ser um progresso muito grande, principalmente pra Sibéria. Acho que a Sibéria agora vai ter outro valor. Esse negócio de ficar passando em balsa, pagando dinheiro. Até os comerciantes não vão mais pagar pra levar mercadoria pra lá. Pra própria justiça, pra polícia, pra qualquer coisa, agora vai direto e volta. Pra mim isso é um progresso muito grande pra Xapuri. Eu repito: a Sibéria agora vai ter valor.”

Enquanto a cidade se prepara para a festa da inauguração, às 16h30, José Maria permanece na área da cerimônia, como a guardar um lugar privilegiado para assistir a continuidade de uma história que chega ao capítulo da realização. Ele representa milhares de vidas que conviveram com a travessia precária, com o isolamento imposto pelo rio.

Hoje, quando a ponte será finalmente aberta para Xapuri, José Maria também atravessará — simbolicamente — para um novo tempo, levando consigo a memória de dona Jacira, dos seringais, das catraias, dos anos de espera. E também a certeza de que, a partir de agora, como ele mesmo diz, “a Sibéria vai ter valor”.

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