
A noite desta quinta-feira, 4 de dezembro, entrou para a história da ciência acreana. No Rio de Janeiro, a pesquisadora Sonaira Silva, professora da Universidade Federal do Acre (Ufac) – Campus Floresta, em Cruzeiro do Sul, recebeu o Prêmio Para Mulheres na Ciência 2025, uma das mais importantes premiações científicas do país. A conquista ganha ainda mais força pelo lugar de onde vem: o interior da Amazônia, em um estado periférico, com profundas limitações estruturais para o desenvolvimento da pesquisa científica.
A premiação é uma iniciativa do Grupo L’Oréal no Brasil, em parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Unesco no Brasil, que em 2025 completa 20 anos de atuação no país. Ao longo dessas duas décadas, mais de 140 pesquisadoras já foram contempladas, com investimentos superiores a R$ 7 milhões em pesquisas lideradas por mulheres. Apenas nesta edição, foram quase 400 propostas inscritas, vindas de todas as regiões do Brasil, analisadas por mais de cem avaliadores.
Entre tantas trajetórias de excelência, o trabalho desenvolvido no Acre foi reconhecido. “Ter sido escolhida entre tantas candidaturas, sendo pesquisadora do interior da Amazônia, é uma honra e mostra a preocupação da L’Oréal e da Academia Brasileira de Ciências com a representatividade territorial”, destacou Sonaira. Para ela, a premiação também amplia o senso de responsabilidade. “Essa oportunidade me traz um sentimento de compromisso e cobrança para continuar dando o melhor para o desenvolvimento de pesquisas com qualidade e rigor.”
Mulher, cientista e amazônida
Mais do que um prêmio individual, a conquista de Sonaira carrega um poderoso simbolismo para o espaço da mulher na ciência brasileira — especialmente fora dos grandes centros. “O prêmio traz o reconhecimento de que podemos fazer ciência de qualidade em qualquer lugar do Brasil. Mesmo diante dos desafios de investimento, a ciência avança, e o protagonismo feminino avança junto”, afirma.
Ela faz questão de dividir a conquista com quem construiu a caminhada ao seu lado: “Esse prêmio eu dedico aos 13 anos de trabalho coletivo como pesquisadora e professora da Ufac. Dedico a cada aluno e aluna que passou horas na frente do computador mapeando o fogo na Amazônia; àqueles que enfrentaram semanas de campo em lugares distantes e desafiadores; e aos pesquisadores que acreditaram no nosso trabalho”, reconhece.
Mas há também uma história pessoal que atravessa essa conquista. Nascida em Sena Madureira, Sonaira veio de uma realidade simples, mudou-se ainda jovem para a capital, enfrentou dificuldades financeiras, contou com o apoio da família e construiu, passo a passo, uma trajetória que a levaria à universidade, ao magistério superior e ao reconhecimento nacional. “Imaginar que uma menina do interior do Acre pode chegar a esse lugar é uma prova de que a educação e a ciência transformam realidades”, reflete.
Ciência feita no Acre, para o mundo
Engenheira agrônoma com mestrado em produção vegetal pela Ufac e doutorado em ciências de florestas tropicais pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Sonaira é coordenadora do Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGAMA), no Campus Floresta da Ufac. Ela dedica há mais de uma década suas pesquisas ao estudo das queimadas e dos incêndios florestais no Acre e na Amazônia. O laboratório desenvolve projetos estratégicos como o Acre Queimadas e o Monitoramento da Qualidade do Ar no Acre, em parceria com o Ministério Público do Estado (MPAC).
Seu projeto premiado investiga formas de aprimorar o monitoramento das queimadas, combinando sensoriamento remoto, estudos de poluição do ar e inventários florestais. O objetivo é diferenciar queimadas agrícolas de incêndios florestais e compreender os impactos dessas práticas sobre a floresta, o clima, a saúde pública e o uso da terra.
Em seus levantamentos, Sonaira já identificou 237.684 queimadas provocadas por ação humana, sendo 65% relacionadas à atividade agrícola — dados que ajudam a dimensionar a gravidade do problema e a orientar políticas públicas de prevenção e controle. Em um estado onde a floresta é patrimônio, riqueza e também fronteira de conflito ambiental, o trabalho da pesquisadora se transforma em ferramenta de proteção da vida.
Quebrando a lógica dos grandes centros
Um dos aspectos mais simbólicos dessa premiação é o reconhecimento de uma pesquisadora que atua fora do eixo Sul-Sudeste, distante dos grandes centros de pesquisa, enfrentando dificuldades de infraestrutura, acesso e deslocamento. Concorrendo em igualdade com instituições tradicionalmente mais fortalecidas, o trabalho desenvolvido no Acre mostrou que qualidade científica não depende de localização geográfica.
“Quando pensamos em grandes prêmios e grandes laboratórios, normalmente pensamos nas capitais e nas universidades mais estruturadas. Esse prêmio mostra que a ciência de excelência também nasce no interior da Amazônia”, destaca.
Uma conquista coletiva para o Acre
Para além da premiação pessoal, o reconhecimento de Sonaira Silva projeta o Acre no cenário nacional da ciência, fortalece a universidade pública e inspira uma nova geração de estudantes, especialmente meninas que sonham com a pesquisa científica, mesmo diante das adversidades impostas pela realidade amazônica.
Em um estado que convive diariamente com os efeitos da degradação ambiental, das queimadas e das mudanças climáticas, o trabalho da pesquisadora ganha ainda mais relevância porque transforma dados em políticas públicas em defesa da floresta e da saúde da população.
A conquista de Sonaira é, ao mesmo tempo, motivo de orgulho para o Acre e um lembrete poderoso de que investir em ciência, em educação e em mulheres é investir no futuro da Amazônia e do Brasil.








