
Em tempos de extrema violência, a sociedade costuma reagir com o instinto mais antigo que carrega: a vingança. Diante de crimes hediondos, a dor coletiva se transforma em fúria, e a fúria busca um alvo. O desejo de “pagar na mesma moeda” surge como resposta imediata, quase automática, travestido de justiça. Mas é justamente aí que mora o perigo, quando justiça deixa de ser punição e passa a ser violência, ela perde seu sentido moral.
Justiça não é sinônimo de crueldade. Justiça é responsabilidade, é limite, é reparação dentro do pacto social que nos impede de voltar ao estado de barbárie. A violência, por outro lado, não educa, não repara, não transforma — apenas multiplica a dor.
Casos de extrema comoção popular, como o brutal assassinato do cachorrinho comunitário conhecido como Orelha, espancado até a morte por adolescentes de classe média alta em Santa Catarina, expõem essa ferida social de forma crua. A revolta foi imediata e compreensível. A violência contra um ser indefeso desperta indignação profunda, especialmente quando envolve jovens que, aos olhos da sociedade, “tinham tudo” e ainda assim escolheram a crueldade.
No entanto, à medida que a indignação cresce, algo perigoso acontece: a sociedade passa a assumir o papel de juíza e carrasca. Nomes são expostos, endereços investigados, ameaças se espalham pelas redes sociais. O ódio se organiza, se legitima e se torna espetáculo. Aqueles que cometeram o crime passam a ser alvos de uma violência que, embora simbólica ou virtual em um primeiro momento, carrega riscos reais, inclusive de morte.
Nesse ponto, a pergunta que se impõe é incômoda, mas necessária: quando a punição desejada se iguala à brutalidade do crime, ainda podemos chamá-la de justiça?
A comoção popular, quando desprovida de reflexão, tende a nivelar todos os atos sob a mesma lógica da violência. O agressor é desumanizado, e a sociedade se autoriza a agir fora da lei, como se a dor legitimasse qualquer resposta. Mas esse movimento não nos torna moralmente superiores ao autor do crime, apenas nos aproxima dele.
Além disso, o sentimento coletivo, alimentado por dor, medo e indignação acaba criando uma urgência por respostas e, sobretudo, por culpados. Nesse cenário, a justiça deixa de ser um processo e passa a ser um desejo imediato de punição. Não importa tanto a verdade, mas o alívio momentâneo de apontar alguém como responsável, como aconteceu aqui mesmo, em Rio Branco pouco tempo atrás.
Quem não lembra, ou melhor, será que ainda alguém lembra da jovem chamada Yara Paulino da Silva, espancada até à morte em via pública após a circulação de um boato de que ela teria matado a filha mais nova e que os restos mortais da criança estavam dentro de um saco de ração em uma área de mata.
Yara foi arrastada de dentro de casa e assassinada no meio da rua como ‘disciplina’ por membros de uma facção criminosa local. A acusação contra ela era tão chocante e revoltante que muitos aceitaram seu fim sem questionar. Somente mais tarde a perícia confirmou que a ossada achada era, na verdade, de um animal. A própria existência da bebê ainda não foi confirmada oficialmente pelas autoridades, e a investigação segue em andamento.
Esse episódio é um exemplo doloroso de como a combinação de medo, boatos e justiça informal pode destruir vidas, inclusive a de inocentes.
Vale destacar que todo e qualquer tipo de crime exige respostas firmes, proporcionais e legais. Exige investigação, responsabilização e punição adequada. O que não exigem é o linchamento, seja físico ou digital. A justiça que se constrói a partir do ódio não cura feridas; apenas cria novas.
Quando pessoas comuns assumem o papel de juízes e carrascos, abre-se um precedente perigoso: o de que a lei é substituível pela emoção do momento. Hoje, o alvo é alguém que cometeu um crime revoltante. Amanhã, pode ser qualquer um que desagrade a multidão.
Defender o devido processo legal, nesses casos, não é proteger criminosos, é proteger a sociedade de si mesma. A verdadeira justiça não se constrói com as mãos sujas de sangue ou com o ódio viralizado nas redes sociais. Ela se constrói com responsabilidade, memória, punição justa e, sobretudo, com o compromisso de não repetir a lógica da crueldade que tanto repudiamos.
Quando a justiça passa a se confundir com a violência que afirma condenar, é sinal de que algo essencial precisa ser revisto. A dor coletiva deve ser reconhecida, acolhida e levada a sério, jamais ignorada. No entanto, convertê-la em sentença é abdicar da própria ideia de civilização.
A indignação social pode servir como termômetro moral, mas nunca como o martelo da justiça, pois se as emoções decidirem quem merece viver, morrer ou ser lançado ao escárnio público, o Estado falhou e, nesse vácuo, a barbárie se instala.
É justamente por isso que se impõe a necessidade de reformulações profundas. Leis mais rígidas, claras e eficazes, que não deixem brechas para a impunidade nem para a vingança.
O caso do cachorrinho Orelha gerou dor e sofrimento coletivo, e essa comoção não pode ser ignorada, nem tampouco esquecida. Em respeito à sua memória, é essencial que os responsáveis sejam punidos com rigor, dentro dos limites da lei e com responsabilidade institucional.
Que a punição cumpra seu papel pedagógico e social. Que os assassinos do cãozinho Orelha, que apesar de tão jovens se revelaram tão covardes e cruéis, aprendam a lição que toda ação gera consequências e que nenhuma forma de maldade ou crueldade contra seres humanos ou contra animais pode existir sem responsabilização.
Justiça, aqui, não é vingança. É a afirmação clara de que a vida, em todas as suas formas, tem valor, merece respeito e, sobretudo, proteção.
Lane Valle é fonoaudióloga, jornalista e colaboradora do Portal Acre.








