
Chegou aquele período mágico do ano em que você precisa reorganizar o fuso horário do seu filho — criatura que, durante as férias, desenvolveu habilidades importantíssimas, como dormir até o almoço e perguntar o que tem para comer a cada 15 minutos.
Tempo de resgatar mochilas esquecidas no fundo do armário e de encarar, mais uma vez, o despertador que passou semanas em silêncio e agora retorna à ativa, firme em sua missão cruel de tocar antes mesmo do cantar do galo.
Sim, as férias escolares acabaram. Esse breve intervalo em que o tempo perde o sentido, os dias se misturam e o pijama vira traje oficial da casa chegou oficialmente ao fim. A rotina, essa velha conhecida, bate novamente à porta.
Com a volta às aulas, retorna também um esporte olímpico amplamente praticado nos lares brasileiros: montar a lancheira. Um objeto aparentemente inofensivo, mas que carrega dentro de si expectativas irreais, julgamentos silenciosos e um planejamento nutricional impecável… que só existe na sua cabeça.
Porque a lancheira é o momento em que o adulto tenta equilibrar saúde, gosto da criança e praticidade — enquanto a criança rejeita tudo e pede “chocolate e batatinha”. A parte mais legal é que ela costuma sair linda, saudável, organizada, digna de foto, pelo menos nos primeiros dias… e quanto volta está praticamente intacta, exceto pelo biscoito.
Em algum lugar da internet, uma mãe zen corta frutas em formato de estrela. Acho lindo, mas essa, com certeza não sou eu. Porque, vamos combinar, a lancheira não é um evento — é um estilo de vida. Segunda: sanduíche caprichado. Terça: sanduíche. Quarta: come isso e não reclama. Quinta: é o que tinha. Sexta: escolhe qualquer coisa na geladeira, pelo amor de Deus.
O retorno às aulas é isso: caótico, barulhento, cansativo e estranhamente familiar. É reclamar do despertador enquanto ajusta três alarmes. É enlouquecer com a lancheira enquanto já pensa no cardápio do dia seguinte. É sentir saudade das férias e, ao mesmo tempo, admitir (bem baixinho) que a rotina também tem seu charme.
No fim das contas, a gente sobrevive. Com olheiras, café, criatividade duvidosa na cozinha e a certeza de que, quando menos esperar… num piscar de olhos, as férias chegam de novo e as lancheiras voltam a tirar seu merecido descanso.
Boa volta às aulas!
Lane Valle é fonoaudióloga, jornalista e colaboradora do Portal Acre.







