
A Reserva Extrativista Chico Mendes foi a área protegida mais atingida pelo desmatamento dentro de seu próprio território em toda a Amazônia entre outubro e dezembro de 2025. O dado consta no relatório Ameaça e Pressão em Áreas Protegidas, divulgado trimestralmente pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), e reforça um cenário de atenção crescente sobre unidades de conservação acreanas.
O levantamento analisa terras indígenas e unidades de conservação federais e estaduais, identificando onde o desmatamento já ocorre — caracterizando pressão — e onde avança no entorno, configurando ameaça com potencial de invasão futura.
Apesar de registrar uma redução de aproximadamente 40% no número de células de desmatamento em relação ao mesmo período de 2024, a reserva manteve a liderança do ranking, repetindo um padrão já observado nos relatórios referentes aos meses de abril a junho e julho a setembro de 2025.
Acre aparece com frequência nos mapas de risco
O protagonismo da Resex Chico Mendes não é um caso isolado. O estudo mostra que outras áreas protegidas do estado também figuram entre as mais ameaçadas da Amazônia.
A Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema aparece na 8ª posição entre as áreas protegidas com maior ameaça — indicador que mede a concentração do desmatamento em um raio de até 10 quilômetros dos limites territoriais.
Entre as unidades estaduais mais ameaçadas, o Acre também marca presença com três florestas estaduais:
Floresta Estadual do Afluente do Complexo do Seringal Jurupari — 3º lugar
Floresta Estadual do Rio Gregório — 5º lugar
Floresta Estadual do Antimary — 8º lugar
O conjunto desses dados sugere um padrão relevante: embora estados como o Pará concentrem a maior parte dos alertas, o Acre apresenta focos territoriais sensíveis, distribuídos tanto em reservas federais quanto em áreas sob gestão estadual.
Diferentemente do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), que calcula a área total derrubada, o relatório divide a Amazônia Legal em quadrículas de 10 por 10 quilômetros, chamadas de células. A partir delas, os pesquisadores identificam: áreas pressionadas — onde o desmatamento ocorre dentro dos limites; áreas ameaçadas — onde a devastação se aproxima e pode avançar.
No caso da Reserva Chico Mendes — uma das mais emblemáticas experiências brasileiras de uso sustentável da floresta — o avanço do desmatamento possui implicações que vão além da perda ambiental. A pressão atinge diretamente comunidades extrativistas que dependem da floresta para manter modos de vida historicamente associados à conservação. O fato de a unidade aparecer de forma recorrente nos relatórios indica que o fenômeno não é episódico, mas parte de uma dinâmica contínua de ocupação e abertura de novas áreas.
Um alerta seletivo para o Acre
O relatório evidencia a forte concentração dos alertas no Pará, mas também revela que o Acre não está fora da rota da pressão amazônica. Pelo contrário: a presença simultânea de várias unidades no estudo aponta para um cenário de vigilância necessária. Mais do que um volume absoluto de desmatamento, os dados sugerem uma leitura estratégica — a de que o estado enfrenta bolsões localizados de risco, capazes de comprometer territórios protegidos se não houver resposta rápida.
Nesse contexto, a liderança da Reserva Chico Mendes funciona como um sinal claro: proteger essas áreas exige monitoramento permanente, fiscalização efetiva e políticas que fortaleçam as economias da floresta. Afinal, quando o desmatamento atravessa os limites de uma unidade de conservação, o impacto não se restringe ao mapa — ele alcança culturas, modos de vida e parte significativa do patrimônio socioambiental da Amazônia.








