Rio Branco, 1 de maio de 2026.

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Quando a maldade veste o rosto da “gente boa”

Parafraseando o cantor e compositor Chico César, só Deus para nos proteger da maldade da “gente boa”. Porque, convenhamos, passamos boa parte da vida tentando distinguir quem realmente é gente boa de quem apenas parece ser. O mal, afinal, nem sempre se apresenta com a face da maldade.

Há algo de profundamente humano nessa percepção. A sociedade nos ensinou a desconfiar do que é explicitamente agressivo, do que soa ameaçador, do que chega com os dentes à mostra. Sabemos reconhecer o lobo. O verdadeiro problema começa quando ele se disfarça de cordeiro.

Na música “Deus Me Proteja”, Chico César vem fazendo uma oração simples, meio irônica, meio sábia, mas profundamente humana. Proteção contra aquilo que não conseguimos perceber de imediato. Contra as máscaras sociais. Contra as intenções escondidas atrás de gestos gentis demais.

O cuidado não é contra inimigos declarados, esses já sabemos identificar. O pedido de proteção é contra os disfarces. Afinal, o mal raramente se anuncia. Ele costuma se apresentar com educação, sorriso fácil e discurso bonito.

Talvez, querido leitor, seja por isso que a canção ressoe tanto com quem a escuta. Ela toca em algo que todos, em algum momento, já experimentamos. A surpresa amarga de perceber que a decepção veio justamente de quem parecia mais confiável.

Mas, calma. A música não é um convite à paranoia ou à desconfiança generalizada. A melodia, quase em forma de oração é um convite à consciência. À percepção de que caráter não se mede pela aparência de bondade, mas pela consistência das atitudes ao longo do tempo.

Além disso, a reflexão cantada por Chico César não se limita apenas aos outros. Ela também se volta para dentro. Quando a música pede proteção “de mim”, há ali um discreto e incômodo chamado à consciência de reconhecer que também somos, muitas vezes, autores das nossas próprias dores

Admitir isso talvez seja uma das verdades mais difíceis. Nem sempre o mal que nos atravessa vem apenas de fora. Muitas vezes ele nasce das nossas escolhas apressadas, dos nossos julgamentos equivocados ou da incapacidade de prever as consequências do que fazemos.

Nesse ponto, quando reconhecemos nossa fragilidade diante dos outros e de nós mesmos, nasce a necessidade de confiar em algo que nos ultrapassa. Deus não surge como fuga, mas como amparo, um horizonte de cuidado quando nossas certezas falham.

Pedir proteção divina, portanto, não significa abrir mão da responsabilidade pela própria vida. Significa reconhecer limites. Reconhecer que somos falhos, que julgamos mal e que nem sempre conseguimos medir o alcance dos nossos atos.

No fundo, a oração implícita na canção é um pedido de lucidez. Que Deus nos proteja da maldade que pode nascer onde esperamos bondade — mas, sobretudo, das armadilhas que criamos para nós mesmos.

Porque talvez a verdadeira proteção não esteja apenas em evitar o mal, mas em desenvolver a sabedoria de reconhecê-lo, inclusive quando ele passa por nós.

Lane Valle é fonoaudióloga, jornalista e colaboradora do Portal Acre.

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