
Claudio Ezequiel Passamani[1]
A tragédia que resultou na morte de duas profissionais da educação dentro da Escola Instituto São José, em hipótese alguma, deve ser interpretada como um evento isolado. Quando a violência atravessa os muros escolares, ela não nasce nesse espaço; ela é socialmente construída e, posteriormente, manifestada.
O episódio ocorrido, protagonizado por um adolescente de apenas 13 anos, não se limita a um caso policial. Trata-se de um fenômeno social, educativo, político e também digital, que exige mais do que comoção: exige análise crítica e autocrítica coletiva.
Na educação, é amplamente reconhecido que a aprendizagem ocorre por meio da experiência, da observação e da convivência social. A teoria da aprendizagem social, desenvolvida por Albert Bandura, sustenta que crianças e adolescentes aprendem comportamentos ao observar modelos, especialmente aqueles que ocupam posições de autoridade, influência ou admiração.
Na contemporaneidade, esses “modelos” não se restringem mais ao convívio familiar ou escolar. Eles são amplamente difundidos por meio da internet e das redes sociais, ampliando significativamente o alcance de discursos e comportamentos.
Isso implica que discursos, atitudes e práticas sociais não são neutros. Quando figuras públicas — sejam políticas, religiosas ou midiáticas — normalizam o ódio, incentivam a intolerância ou defendem a violência como solução, estão, consciente ou inconscientemente, ensinando.
A internet tem desempenhado papel central na amplificação de discursos sociais. Plataformas digitais e redes sociais possibilitam a rápida disseminação de ideias, inclusive aquelas marcadas por intolerância, radicalização e discurso de ódio.
Nesse ambiente, conteúdos violentos ou polarizados tendem a ganhar maior visibilidade, seja pelo engajamento, seja por algoritmos que favorecem conteúdos de maior impacto emocional. Como consequência, cria-se um cenário em que a agressividade verbal e simbólica se torna cotidiana.
No contexto brasileiro recente, parte desses discursos foi amplamente difundida por lideranças e segmentos associados ao bolsonarismo, que passaram a defender, de forma recorrente, o armamento civil e o enfrentamento direto como resposta à criminalidade. A internet, nesse processo, funcionou como vetor de expansão dessas ideias, ampliando seu alcance e influência.
A ideia de que “mais armas trarão mais segurança” ignora evidências empíricas que apontam que o aumento da circulação de armas tende a elevar os índices de violência, acidentes e conflitos letais. Além disso, a repetição constante desses discursos contribui para a naturalização da violência como instrumento legítimo de resolução de conflitos.
Quando tais mensagens são consumidas por crianças e adolescentes, que ainda estão em processo de formação, seus efeitos tornam-se ainda mais significativos.
A escola São José, cenário da tragédia, não pode ser analisada de forma isolada. Como instituição social, a escola reflete as tensões, desigualdades e contradições presentes na sociedade — agora também mediadas pelo ambiente digital.
O adolescente envolvido no episódio não deve ser compreendido apenas como autor de um ato, mas também como sujeito inserido em um contexto social e digital que influencia sua formação. Essa abordagem não elimina a responsabilidade individual, mas amplia a compreensão das causas.
Entre os fatores que contribuem para esse cenário, destacam-se a exposição constante a conteúdos violentos na internet, a fragilidade das políticas públicas voltadas à saúde mental e a banalização da agressividade nos espaços sociais e digitais.
A tragédia analisada impõe à sociedade a necessidade de uma reflexão profunda. Não é possível combater a violência sem questionar os discursos e práticas que a alimentam — inclusive aqueles disseminados no ambiente digital. Esse trágico ato não foi motivado pela tão falada “ideologia de gênero”, que nunca chegou às escolas, mas por ato de ódio semeado pelas redes sociais.
Precisamos compreender que parte da sociedade vive uma contradição evidente: ao mesmo tempo em que condena a violência, consome, compartilha ou apoia conteúdos que a reforçam. Diante disso, torna-se essencial questionar: que tipo de conteúdo estamos consumindo e compartilhando na internet? Que valores estão sendo transmitidos às novas gerações? A sociedade tem promovido uma cultura de paz ou reforçado a lógica do ódio e do confronto? Sem autocrítica, não há transformação social efetiva.
A tragédia que vitimou duas profissionais da educação não pode ser reduzida a um episódio isolado. Trata-se de um alerta sobre o impacto combinado de fatores sociais, políticos e digitais na formação de comportamentos.
A teoria da aprendizagem social demonstra que todos os indivíduos exercem influência no processo educativo — e, na era digital, essa influência é ampliada exponencialmente.
O enfrentamento da violência exige mais do que medidas de segurança. Exige a revisão de discursos, práticas e comportamentos, tanto no mundo físico quanto no digital, com o objetivo de construir uma sociedade baseada no respeito, no diálogo e na responsabilidade coletiva.
A pergunta que permanece é direta: que sociedade estamos formando quando nossas lideranças, em vez de pregar o respeito, a responsabilidade e o diálogo, semeiam ódio, polarização e naturalizam a violência?
[1] Professor, ex-presidente do SINTEAC, mestre em Serviço Público e Política Social – USAL – Salamanca (Espanha)
Nota da redação: Cláudio Ezequiel está em Goiânia e mesmo em tratamento contra um câncer na coluna, fez questão de se posicionar sobre o assunto e provocar o necessário debate.








