
Um novo relatório divulgado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) reforça um alerta sobre a situação das reservas extrativistas do Acre. De autoria dos pesquisadores Bianca Santos, Júlia Ribeiro e Carlos Souza Jr., o estudo “Ameaça e Pressão de Desmatamento em Áreas Protegidas”, referente ao período de janeiro a março de 2026, coloca duas importantes unidades acreanas entre as áreas protegidas mais impactadas da Amazônia Legal: a Resex Chico Mendes e a Resex Cazumbá-Iracema.
O dado mais preocupante envolve a Reserva Extrativista Chico Mendes, que aparece como a unidade de conservação federal mais pressionada da Amazônia no período analisado. Isso significa que o desmatamento já está ocorrendo dentro da reserva, cenário considerado mais grave pelos pesquisadores.
No ranking geral de pressão entre todas as áreas protegidas da Amazônia Legal, a Resex Chico Mendes ocupa a quinta posição. O relatório contabilizou quatro células de desmatamento no interior da unidade durante os três primeiros meses do ano.
Já a Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema aparece entre as dez áreas protegidas mais ameaçadas da Amazônia, ocupando a décima colocação no ranking de ameaça. Nesse caso, o desmatamento ocorre no entorno da reserva, dentro de uma faixa de até 10 quilômetros dos limites da unidade, indicando risco iminente de avanço para o interior da área protegida.
Segundo o Imazon, “ameaça” é quando o desmatamento ocorre próximo aos limites da área protegida, enquanto “pressão” é caracterizada pela ocorrência do desmatamento já dentro da unidade.
O relatório aponta que, em toda a Amazônia Legal, 66% das ocorrências registradas entre janeiro e março deste ano foram classificadas como ameaça e 34% como pressão. O número de células com ocorrência de desmatamento cresceu 36% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Para o Acre, os números têm forte peso simbólico. A Resex Chico Mendes é considerada uma das principais referências internacionais do modelo de floresta em pé aliado à permanência das populações tradicionais, criado a partir da luta do líder seringueiro Chico Mendes.
O aparecimento da reserva entre as áreas mais pressionadas reforça sinais observados nos últimos anos, como o avanço da pecuária dentro da unidade, abertura de pastagens e dificuldades enfrentadas pelas atividades extrativistas tradicionais.
Especialistas ambientais vêm alertando para uma mudança gradual no perfil econômico de áreas historicamente vinculadas ao extrativismo, impulsionada pela baixa rentabilidade de produtos florestais, pressão fundiária e expansão da atividade pecuária.
O relatório do Imazon também chama atenção para um novo padrão de desmatamento na Amazônia: apesar da redução da área total desmatada, houve aumento no número de alertas, indicando uma dispersão maior dos focos de devastação. Na prática, isso significa um desmatamento mais pulverizado e territorialmente espalhado, considerado mais difícil de combater.
No caso acreano, o estudo sugere que as reservas extrativistas vivem hoje uma fase de forte tensão entre conservação ambiental e expansão produtiva, justamente em áreas que durante décadas simbolizaram a resistência ao avanço do desmatamento na Amazônia.








