Rio Branco, 10 de junho de 2026.

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Bairro Sibéria, em Xapuri, celebra 39 anos de organização comunitária

Dona Carmita é uma das pessoas mais moradoras mais conhecidas e respeitadas da Sibéria – Foto Raimari Cardoso

Quando dona Carmita Pereira de Souza chegou ao pequeno povoado localizado na margem esquerda do Rio Acre, em Xapuri, em 1962, aos 17 anos de idade, o lugar estava muito longe de ser propriamente um bairro. Muito menos imaginava-se que um dia ali haveria escola, unidade de saúde, energia elétrica, ruas estruturadas e uma ponte ligando os dois lados da cidade.

Aos 82 anos, ela testemunhou praticamente toda a transformação da comunidade e hoje vê sua história se confundir com a da Associação dos Moradores do Bairro da Sibéria, que completa 39 anos de fundação nesta quarta-feira, 10 de junho.

“Quando cheguei aqui, isso não era bairro. Era a ‘cocheira’. O pessoal dos seringais vinha para cá, deixava os cavalos, a borracha, a castanha e atravessava para a cidade. A Casa Zaire comprava muita produção. Era um movimento muito grande. A gente não imaginava que um dia a Sibéria seria do jeito que é hoje”, relembra.

Criada em 10 de junho de 1987, a Associação dos Moradores nasceu justamente para ajudar a transformar aquela realidade. Segundo o atual presidente da entidade, Josimar dos Santos Silva, a iniciativa surgiu da mobilização de moradores históricos liderados por Luiz Damião do Nascimento e pela professora Francisca Macedo.

“Naquele momento, a Sibéria não tinha energia elétrica, rede de esgoto, prédios públicos e praticamente não existiam veículos circulando. O transporte era feito por animais e pelos comboios que traziam a produção dos seringais. A associação surgiu para unir a comunidade e lutar por melhorias para o nosso povo”, explica o líder comunitário.

Dona Carmita lembra que ao chegar onde hoje é o bairro da Sibéria, o local não tinha a mínima estrutura – Foto Raimari Cardoso

Os relatos de dona Carmita e de Josimar mostram que a origem da comunidade está diretamente ligada ao ciclo dos seringais. O local funcionava como ponto de apoio para trabalhadores da floresta que precisavam atravessar o Rio Acre para negociar produtos ou resolver questões na cidade.

União para conquistar melhorias

Ao longo das últimas décadas, a Associação de Moradores se tornou uma das principais ferramentas de mobilização da comunidade. Para Dona Carmita, muitas das conquistas só aconteceram porque os moradores aprenderam a lutar coletivamente. Entre eles, estava seu esposo, Carlos Nogueira de Souza, o conhecido “Bola”, outro pioneiro da Sibéria.

Entre as conquistas mais marcantes ela menciona a chegada da energia elétrica, quando a comunidade ajudou comprando postes de madeira e todo mundo colaborou como podia. Outro marco lembrado pela pioneira foi a abertura da Estrada de Petrópolis, hoje extensão da rodovia AC-485.

“Eu lembro do dia em que começaram o serviço. Tinha uma árvore muito grande na entrada e o Jorge Kalume [então governador] deu a primeira machadada. A comunidade toda foi assistir porque aquilo representava esperança para nós”, rememora.

Josimar avalia que as lutas relatadas por dona Carmita ajudaram a construir a estrutura que existe atualmente no bairro.

“Hoje nós temos ruas, iluminação pública, unidade de saúde, escola estadual, unidade de educação infantil, farmácia e diversos serviços que não existiam há 30 ou 40 anos. Tudo isso é resultado da luta de gerações de moradores e dos presidentes que passaram pela associação.”

A ponte que mudou a realidade da comunidade

Se existe uma obra que simboliza a história de luta e de transformação da Sibéria, ela é a ponte inaugurada no final de 2025. Durante décadas, a travessia do Rio Acre foi um dos maiores desafios enfrentados pelos moradores.

“Quem viveu aqui sabe o sofrimento que era depender da travessia pelas catraias ou canoas. Teve gente que passou aperto para chegar ao hospital. Teve situações muito difíceis que a comunidade enfrentou por causa disso”, recorda Dona Carmita.

Para Josimar, a ponte representa a maior conquista da história recente da comunidade.

“Foi uma luta de muitos anos da associação e de toda a comunidade. Muitas pessoas sonharam com essa obra e algumas nem chegaram a vê-la pronta. Hoje ela beneficia não apenas a Sibéria, mas toda a população que utiliza essa ligação entre os dois distritos”, salienta.

Uma comunidade que continua avançando

Josimar Santos é presidente da Associação de Moradores do Bairro da Sibéria – Foto Raimari Cardoso

Ao completar 39 anos de fundação, a Associação dos Moradores da Sibéria mantém o mesmo propósito que inspirou seus fundadores em 1987: buscar melhorias para a população. Segundo Josimar, novos projetos já estão em andamento.

“Em breve vamos iniciar a construção de um novo centro comunitário. Será uma sede ampla, preparada para atender melhor os moradores e servir como espaço para reuniões, eventos e atividades da comunidade.”

O presidente destaca que a associação permanece ativa e comprometida com as demandas do bairro.

“Temos muito a agradecer a todos os ex-presidentes, diretores e moradores que ajudaram a construir essa história. O que a Sibéria é hoje não foi obra de uma única pessoa, mas de uma comunidade inteira que acreditou na força da união”, reconhece.

Para Dona Carmita, que viu a comunidade nascer quando ainda era apenas uma parada de seringueiros às margens do Rio Acre, o sentimento é de gratidão.

“Eu me sinto feliz. Agradeço a Deus por ter saúde para ver tudo isso. Vi a Sibéria crescer, vi as pessoas lutarem e conquistarem tantas coisas. Hoje olho para essa comunidade e tenho orgulho de tudo o que ela se tornou.”

Entre as lembranças da antiga cocheira e os projetos para os próximos anos, a história da Sibéria continua sendo escrita pela mesma força que motivou seus fundadores há 39 anos: a capacidade de sua gente de se unir em torno de objetivos comuns para transformar a realidade de um dos lugares mais representativos da força e da luta do povo acreano.

Sem dúvida alguma, ponte sobre o Rio Acre é a maior conquista da comunidade em quase quatro décadas de existência – Foto Raimari Cardoso

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