Rio Branco, 20 de junho de 2026.

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Acre revela rede de estradas construída há mais de 2 mil anos por civilização amazônica

Prints do artigo publicado na revista científica Latin American Antiquity – Foto reprodução

Uma extensa rede de estradas construída por povos indígenas da Amazônia há mais de dois mil anos está ajudando a revelar novos aspectos de uma das mais fascinantes civilizações pré-colombianas já identificadas no território acreano. Um estudo publicado na revista científica Latin American Antiquity confirmou a existência de 955 estradas antigas, totalizando cerca de 350 quilômetros de extensão, associadas aos geoglifos e assentamentos que compõem a chamada Civilização Aquiry.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Brasil e da Finlândia e teve a participação do pesquisador acreano Alceu Ranzi, um dos pioneiros no estudo dos geoglifos da Amazônia Ocidental. O trabalho utilizou imagens de satélite e análises de campo para mapear estruturas distribuídas em uma área de aproximadamente 135 mil quilômetros quadrados na região de fronteira entre Brasil e Bolívia, incluindo grande parte do território do Acre.

Segundo Ranzi, as novas descobertas mostram que os monumentos arqueológicos da região faziam parte de uma complexa rede de circulação e integração social.

“Quanto mais a tecnologia e as observações avançam, mais vamos percebendo a presença de estradas e caminhos e a conexão entre eles e os monumentos”, afirmou o pesquisador em entrevista recente à Folha de S.Paulo, que divulgou os resultados do estudo em sua versão online.

Os pesquisadores identificaram dois tipos principais de vias. As estradas mais largas, algumas com mais de 15 metros de largura, aparecem ligadas principalmente aos geoglifos — grandes estruturas geométricas escavadas no solo que serviriam como espaços cerimoniais. Já as estradas estreitas são mais frequentes em antigas aldeias formadas por montículos artificiais e parecem ter sido utilizadas para deslocamentos cotidianos e para conectar comunidades distantes.

A maioria das estradas segue trajetos retilíneos e cuidadosamente planejados. Muitas delas estão alinhadas com os pontos cardeais, indicando que seus construtores possuíam conhecimentos astronômicos utilizados na orientação das obras. Embora a maior parte tenha menos de 500 metros de extensão, algumas alcançam vários quilômetros, chegando a 5,5 quilômetros em um dos casos identificados.

Os dados revelam ainda que cerca de 40% das estradas levavam a ambientes ribeirinhos, evidenciando a importância dos rios para a mobilidade e a subsistência das populações antigas. Outras conectavam diretamente geoglifos e estruturas monumentais, reforçando a existência de uma rede regional integrada. Em alguns casos, os pesquisadores encontraram sequências de caminhos que poderiam interligar assentamentos separados por quase 30 quilômetros.

A Civilização Aquiry

As estruturas estudadas estão associadas à chamada Civilização Aquiry, nome adotado pelos pesquisadores em referência à antiga denominação indígena do rio Acre no idioma apurinã. As evidências arqueológicas indicam que essa tradição cultural floresceu entre alguns séculos antes da Era Cristã e aproximadamente o ano 1000 d.C., sendo responsável pela construção dos geoglifos que hoje se tornaram um dos principais patrimônios arqueológicos da Amazônia.

Os geoglifos consistem em grandes figuras geométricas delimitadas por valetas e aterros de terra. Diferentemente de aldeias permanentes, esses locais apresentam poucos vestígios de habitação doméstica, o que reforça a interpretação de que eram utilizados para cerimônias, encontros coletivos e atividades de caráter ritual.

Um aspecto que chama a atenção dos pesquisadores é o fato de muitas estradas se alargarem à medida que se aproximam desses monumentos, criando uma espécie de avenida monumental destinada a valorizar visualmente os espaços cerimoniais.

Patrimônio ainda escondido sob a floresta

Apesar dos avanços das pesquisas, os cientistas acreditam que apenas uma parte dessa antiga rede de caminhos foi identificada até agora. Grande parte das estruturas permanece coberta pela floresta amazônica.

Para Alceu Ranzi, novas descobertas deverão ocorrer com o uso crescente da tecnologia Lidar, sistema que utiliza pulsos de laser capazes de atravessar a cobertura vegetal e revelar modificações no relevo escondidas sob a mata.

“Esse povo viveu aqui, por alguma razão desapareceu na bruma do tempo, e a floresta cobriu tudo”, resumiu o pesquisador à Folha de S.Paulo.

A expectativa dos especialistas é que o uso dessas novas tecnologias revele conexões ainda mais extensas entre os geoglifos, aldeias e estradas antigas, ampliando o conhecimento sobre uma civilização que transformou a paisagem amazônica muito antes da chegada dos europeus.

O estudo foi assinado por Risto Kalliola, Martti Pärssinen, Alceu Ranzi e Antonia Damasceno Barbosa e reforça a posição do Acre como um dos mais importantes centros arqueológicos da Amazônia e da América do Sul.

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