Rio Branco, 21 de junho de 2026.

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Aos 92 anos, ex-seringueiro preserva a memória dos benzedores da floresta acreana

Em casa, deitado em sua rede, Seu Tatá impressiona pela lucidez aos 92 anos – Foto Raimari Cardoso

Sentado em uma rede na varanda de sua casa no bairro Pantanal, em Xapuri, cercado pelas lembranças de uma vida que atravessa quase um século de história do Acre, Otacílio Martins de Oliveira, conhecido por todos como Seu Tatá, carrega uma memória cada vez mais rara. Aos 92 anos, ele é um dos últimos benzedores da floresta acreana ainda vivos, guardião de uma tradição que durante décadas representou esperança para famílias isoladas nos seringais, muito antes da chegada de postos de saúde, estradas ou qualquer assistência médica regular.

Ex-seringueiro, catequista, mateiro e líder comunitário, Seu Tatá viveu grande parte da vida na colocação Bom Levar, no Seringal São Pedro, nas margens do Rio Xapuri, há várias horas de barco na sede do município. Ali, além do trabalho duro da extração da borracha e da castanha, dedicou incontáveis horas a uma missão que nunca lhe trouxe lucro, mas lhe rendeu respeito e gratidão: benzer ou rezar nas pessoas que chegavam até ele com os mais variados problemas de saúde.

Os males da floresta e a força da crença popular

As doenças que levavam as famílias a procurar os benzedores nem sempre encontravam correspondência na literatura médica. Nos seringais, especialmente entre as crianças, eram comuns relatos de males conhecidos popularmente como “mau-olhado”, “quebranto”, “vento caído”, “espinhela caída”, “ramo”, “vermelha” e outras enfermidades transmitidas de geração em geração pela tradição oral.

Em um contexto de grande isolamento, sem médicos, hospitais ou acesso fácil a medicamentos, essas explicações faziam parte da forma como as comunidades compreendiam a doença e o sofrimento. Quando uma criança adoecia repentinamente, chorava sem parar, perdia o apetite ou apresentava febres persistentes, era comum que a família recorresse primeiro ao benzedor.

A confiança nessas práticas era enorme. Segundo relatos de antigos moradores dos seringais, muitas pessoas apresentavam melhora logo após as primeiras rezas. Os tratamentos geralmente eram realizados em três sessões, repetidas em dias seguidos ou em intervalos determinados pelo benzedor. Quando os sintomas desapareciam completamente, dizia-se que a cura havia sido “fechada”.

Seu Tatá recorda que boa parte dos atendimentos que realizava envolvia justamente crianças e pessoas acometidas por males populares, além de casos de “cobreiro”, nome pelo qual era conhecida uma doença de pele associada hoje ao herpes-zóster. Em todos os casos, a reza era acompanhada por uma profunda confiança dos pacientes e de suas famílias.

Mais do que um ritual religioso, a ‘benzeção’ representava acolhimento, esperança e cuidado comunitário. Em muitos lugares da floresta, era a única assistência disponível para quem enfrentava uma doença ou uma situação de emergência. E isso era feito sob uma condição inegociável: não havia pagamento ou qualquer tipo de recompensa material pela ação.

“Algumas pessoas queriam pagar, faziam questão de ‘dar um agrado’, mas eu sempre respondia que não, de maneira alguma. Eu não vendia as palavras de Deus”, resume Seu Tatá, com a calma e a simplicidade de quem nunca enxergou a atividade como um ofício, mas como um dever cristão.

Um seringueiro que nasceu na cidade

A história de Seu Tatá tem uma particularidade pouco comum entre os antigos moradores da floresta. Diferentemente da maioria dos seringueiros de sua geração, ele não nasceu dentro de um seringal. Veio ao mundo em 1934, na cidade de Sena Madureira. Ainda adolescente, acompanhou o pai para trabalhar nas cabeceiras do Rio Iaco, no Seringal Amapá, onde teve seu primeiro contato com a vida na floresta. A decisão foi uma opção a se alistar para lutar na Segunda Guerra Mundial.

Em 1949, a família se mudou para Xapuri e se estabeleceu na colocação Bom Levar, no Seringal São Pedro. Ali ele construiria sua trajetória, formando família, criando filhos e testemunhando algumas das transformações mais profundas ocorridas na região ao longo do século XX. “Lá eu trabalhei muito, no corte [seringa], na coleta [castanha], botava roçado e até casa eu construía. Só saí dali para vir para a cidade, em 1988, e aqui estou até hoje”, conta.

Com a esposa, Maria Neres, com quem convive há mais de seis décadas – Foto Raimari Cardoso

A cura pela fé

Nos tempos em que os varadouros eram as únicas estradas e as viagens podiam durar dias, a população dos seringais tinha poucas alternativas diante da doença. Um médico era um luxo distante e, em muitos casos, a única ajuda disponível vinha das parteiras, dos remédios da floresta e dos benzedores. Foi nesse contexto que Seu Tatá passou a ser procurado.

A prática começou ainda na juventude, quando participou de atividades religiosas promovidas pela Igreja Católica e recebeu a missão de ensinar catecismo a crianças que se preparavam para a Primeira Comunhão. Aos poucos, aprofundou seus estudos religiosos e começou a ser chamado para rezar por pessoas enfermas.

As histórias que guarda na memória ajudam a compreender a importância que os benzedores exerciam nas comunidades da floresta. Em uma ocasião, caminhou cerca de seis horas durante a noite para atender uma mulher que havia acabado de dar à luz e enfrentava complicações porque a placenta não havia sido expelida. Segundo ele, após as orações, a situação se estabilizou. “Rezei três vezes, até que a moça ‘desocupou’. Foi Deus”, garante ele. A família, agradecida, quis fazer uma grande festa, mas ele recusou e retornou para casa.

Em outra situação, atendeu o músico e sanfoneiro Juvenal Aquino, que sofria com o cobreiro. Após as rezas, o problema desapareceu. As viagens para atender chamados podiam durar horas e, muitas vezes, eram realizadas de madrugada. Ainda assim, ele nunca cobrou pelos atendimentos. “Eu tinha prazer em ir. Não sentia fome, nem cansaço. Eu acho que é Deus que põe isso na gente. Um dom que a gente precisa abraçar. Eu fiz isso de coração”, relata.

Uma rede de solidariedade na floresta

Muito além da dimensão religiosa, os benzedores desempenhavam um papel social fundamental nos seringais. Em uma época marcada pelo isolamento geográfico, pela ausência de hospitais e pela dificuldade de comunicação, figuras como Seu Tatá funcionavam como pontos de apoio para comunidades inteiras. Eram procurados para rezar por crianças adoecidas, vítimas de acidentes, pessoas acometidas por doenças de pele, febres e complicações de parto.

Sua fama ultrapassou os limites de Xapuri. Segundo ele, pessoas de Sena Madureira, da Bolívia e até visitantes vindos de outros estados chegavam em busca de ajuda. Hoje, porém, essa tradição praticamente desapareceu. Com o avanço da medicina, a ampliação dos serviços públicos de saúde e o envelhecimento dos antigos moradores da floresta, os benzedores tornaram-se cada vez mais raros. Muitos levaram seus conhecimentos consigo, sem deixar sucessores. Seu Tatá também deixou de exercer a atividade há vários anos, orientado pelos médicos. “Foi por causa do AVC. O doutor disse que não posso mais”, explica enquanto pressiona com a mão direita uma pequena bola de borracha como fisioterapia para a paralisação parcial que tem no membro.

Uma vida construída na floresta

Ao lado de Seu Tatá está dona Maria Neres Evangelista, de 83 anos, sua companheira há mais de seis décadas. Juntos construíram uma numerosa família. Dos filhos que tiveram, sete permanecem vivos. Mas a trajetória do casal também revela as dificuldades enfrentadas pelas famílias seringueiras em uma época de escassos recursos de saúde. Dona Maria conta que teve cerca de vinte gestações ao longo da vida, entre filhos natimortos e crianças que morreram poucos dias após o nascimento, realidade comum em comunidades isoladas da Amazônia durante boa parte do século passado.

Foi nesse ambiente de desafios que o casal criou os filhos e construiu sua história. Além de seringueiro, Seu Tatá trabalhou como comboieiro, noteiro e mateiro, atividade responsável pela abertura e demarcação de limites entre seringais. Também participou da vida religiosa das comunidades e acompanhou de perto as mudanças que transformaram a floresta acreana.

Entre as lembranças mais marcantes está a convivência com Chico Mendes. O líder seringueiro realizou reuniões na colocação Bom Levar, onde Seu Tatá morava. As assembleias chegavam a reunir moradores de diversas colocações, convocados a cavalo pelos varadouros da região. Para ele, Chico Mendes representava a defesa dos trabalhadores da floresta e o direito dos moradores permanecerem em suas colocações. “Ele foi um homem bom para mim a para quem vivia na floresta”, diz. 

Uma memória que resiste

As lembranças de Seu Tatá ajudam a contar uma parte da história do Acre que raramente aparece nos livros. Uma época em que a vida dependia da floresta, da solidariedade entre vizinhos e da fé compartilhada pelas comunidades seringueiras. Enquanto muitos dos antigos benzedores já partiram, ele permanece como testemunha viva de uma tradição que marcou gerações.

Sua trajetória revela que, nos seringais acreanos, a cura nem sempre chegava pelas mãos da medicina. Muitas vezes, ela vinha pelos caminhos estreitos da mata, conduzida por homens simples que dedicavam seu tempo a ajudar os outros sem esperar nada em troca. Hoje, prestes a completar 93 anos, no próximo dia 2 de setembro, Seu Tatá preserva não apenas as próprias lembranças, mas a memória de uma forma de viver que ajudou a sustentar comunidades inteiras no coração da floresta amazônica.

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