Rio Branco, 24 de junho de 2026.

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Há 120 anos, romaria do São João do Guarani mantém viva uma das mais singulares manifestações de fé da Amazônia acreana

Celebração acontece em comunidade distante cerca de 40 quilômetros da área urbana de Xapuri – Foto Raimari Cardoso

Enquanto o restante do país celebra São João Batista com arraiais, quadrilhas e fogueiras, uma tradição única da floresta amazônica mobiliza moradores de Xapuri e comunidades da Reserva Extrativista Chico Mendes. Neste dia 24 de junho, romeiros de diferentes localidades voltam seus passos para a Colocação Guarani, no Seringal Boa Vista, onde há mais de um século se realiza uma das manifestações religiosas mais antigas e emblemáticas do Acre: a festa de São João do Guarani.

Realizada a cerca de 40 quilômetros da área urbana de Xapuri, a celebração reúne elementos da fé católica, da cultura seringueira e da religiosidade popular amazônica. O centro da devoção é o túmulo de um homem simples, um seringueiro para o qual jamais foi cogitado processo de canonização pela Igreja Católica, mas que se tornou, para gerações de moradores da floresta, um intercessor de graças e um símbolo de esperança.

Segundo relatos preservados pela tradição oral, João do Guarani era um trabalhador vindo de Pernambuco durante o ciclo da borracha. Em 1906, acometido por uma grave enfermidade, provavelmente malária, tentou seguir em direção à cidade em busca de socorro, mas morreu no caminho, na região onde hoje se encontra o santuário que leva seu nome.

A devoção teria surgido pouco tempo depois de sua morte. Conta a tradição que dois seringueiros perdidos na mata pediram ajuda à alma do homem que havia falecido naquele local. Após encontrarem o caminho de volta, passaram a divulgar o ocorrido, dando origem a uma corrente de fé que atravessou gerações. Em uma época em que as visitas dos padres aos seringais eram raras e podiam demorar muitos meses para acontecer, o túmulo tornou-se um ponto de oração e encontro espiritual para os moradores da floresta.

Fé popular acolhida pela Igreja

Embora João do Guarani não seja reconhecido oficialmente como santo pela Igreja Católica, a devoção é acompanhada há décadas pela Paróquia São Sebastião, que celebra missas e participa da organização da romaria realizada anualmente na Colocação Guarani.

Para o pároco de Xapuri, padre Wesly Joseph, a relação da Igreja com manifestações como essa passa pelo reconhecimento da fé vivida pelas comunidades e transmitida de geração em geração.

Celebração foi ministrada pelo padre Wesly Joseph, pároco de Xapuri – Foto Raimari Cardoso

“A Igreja Católica tem uma longa tradição de acolher e acompanhar as devoções populares que nascem da fé genuína do povo. A ausência de uma canonização formal não significa que a Igreja rejeite essa devoção. O processo canônico vem depois da devoção popular e não antes. No caso de São João do Guarani, vemos uma história de mais de cem anos de fé, esperança e transformação na vida de muitas pessoas. Isso não é pouca coisa. É uma expressão religiosa profundamente enraizada na realidade do nosso povo”, afirma.

Segundo o sacerdote, a missão da Igreja é caminhar junto das comunidades, orientando e fortalecendo as manifestações de fé sem romper os laços culturais construídos ao longo do tempo.

“A Igreja não fabrica a fé do povo. Ela acolhe essa fé, ajuda a purificá-la e a orientá-la. Nossa missão é garantir que essa devoção permaneça centrada em Cristo e nos valores do Evangelho, mas isso se faz com presença, diálogo e participação. Celebrar o São João do Guarani é também um ato de fidelidade ao nosso povo, que mantém viva essa tradição há muitas gerações”, destaca.

Uma romaria marcada pelo sacrifício

Muito antes da abertura dos ramais e estradas que hoje ligam os seringais à cidade, a peregrinação até a Colocação Guarani exigia esforço e perseverança. Durante décadas, os romeiros percorriam o trajeto a pé ou a cavalo, atravessando quilômetros de floresta para participar da celebração.

Entre essas pessoas está o casal Mário Teles de Souza, de 72 anos, e Marilza Pereira de Souza, 67 anos. Eles são de Xapuri, mas se mudaram há muitos anos para o município de Senador Guiomard. Porém, não deixaram fé para trás. Todos os anos, eles repetem o ritual de se dirigir à localidade agradecer e reforçar a fé.

O casal Mário Teles de Souza e Marilza Pereira de Souza tem mais de anos de devoção ao “Santo Seringueiro” – Foto Raimari Cardoso

“Fui agraciada por João do Guarani quando um de meus filhos nasceu com sérios problemas de saúde. Fiz um voto e fui atendida. Ele se recuperou e hoje tem 47 anos de idade”, ela conta.

Mário diz que São João do Guarani para ele é uma devoção que o acompanha por toda a vida. Ele nasceu em uma colocação próxima ao Guarani e cresceu vendo as pessoas ao seu redor e ele mesmo serem tocadas pela força do “Santo da Floresta”.

“Eu tive um problema muito sério na minha cabeça. Fui a vários médicos, mas a solução só veio com a promessa feita a São João do Guarani. Por isso, só não venho aqui quando Deus não me permitir”, relata.

Para muitos devotos, a dificuldade da viagem era parte da própria demonstração de fé, uma forma de agradecer graças alcançadas ou cumprir promessas feitas ao santo popular. Mesmo após a melhoria do acesso à região, algumas pessoas continuam repetindo o percurso da maneira tradicional, preservando um costume herdado dos antigos moradores dos seringais.

No local onde está o túmulo de João do Guarani, os visitantes costumam acender velas, fazer orações e deixar ex-votos como forma de agradecimento por bênçãos recebidas. A cruz de ferro instalada no santuário, trazida há décadas de Belém do Pará, permanece como um dos símbolos mais marcantes da devoção.

Tradição que une gerações

Além das celebrações religiosas, a festa é também um momento de reencontro das famílias da floresta e de fortalecimento dos laços comunitários. A programação deste ano inclui missa, procissão, acendimento da fogueira, quermesse, torneio de futebol, leilão, bingo e outras atividades tradicionais.

A abertura da programação aconteceu na noite desta terça-feira, 23, com missa e acendimento da tradicional fogueira de São João. Na manhã desta quarta-feira, os fiéis participaramda procissão pela trilha da floresta e da celebração religiosa que marca o ponto alto da festa.

Mais do que um evento anual, o São João do Guarani permanece como um dos mais importantes patrimônios imateriais da cultura popular acreana. Em meio à floresta que testemunhou sua origem, a romaria segue renovando a fé de seus participantes e preservando uma tradição que une espiritualidade, memória e identidade amazônica há mais de cem anos.

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