
O Brasil perdeu para a Noruega e o sonho do hexa foi adiado outra vez. Durante algumas semanas, fomos novamente o país do futebol, vestimos sem temores políticos a camisa amarela, decoramos as ruas, estudamos adversários dos quais até pouco tempo atrás mal sabíamos apontar a localização no mapa e descobrimos, com impressionante rapidez, que entendemos mais de futebol do que o treinador da Seleção.
É uma tradição nacional que se repete a cada quatro anos, quando milhões de brasileiros se transformam em técnicos, comentaristas e especialistas em preparação física, tática e até gestão de grupo. Sabemos quem deveria ser convocado, quem deveria bater o pênalti e, principalmente, quem é o culpado quando tudo dá errado, porque sempre haverá alguém a quem atribuir a responsabilidade pela eliminação.
Pode ser o Ancelotti, que convocou ou escalou mal, o Bruno Guimarães, que perdeu o pênalti, o Endrick, que perdeu um gol na cara do goleiro, a arbitragem, a imprensa, o gramado, o calor ou alguma misteriosa conspiração do universo contra o futebol brasileiro. O que dificilmente conseguimos admitir é a possibilidade muito mais simples de que o adversário tenha jogado melhor. A Noruega jogou e, assim, terminou mais uma Copa para o Brasil.
Mas não há tempo para lamentações prolongadas, porque outro campeonato já começou e está em pleno andamento. Guardamos as bandeiras, aposentamos temporariamente os especialistas em futebol e convocamos os experts em política, que, curiosamente, são quase sempre as mesmas pessoas.
Quem comentava escalação e esquema tático passa a presumir alianças partidárias, enquanto quem estudava a tabela da Copa começa a acompanhar as pesquisas eleitorais, que funcionam como uma espécie de classificação do campeonato político brasileiro. Tem candidato subindo, candidato caindo, empate técnico, margem de erro e, naturalmente, torcedor dizendo que a pesquisa está comprada porque seu escolhido aparece atrás.
No Brasil, não apenas escolhemos candidatos, nós os escalamos, e quase sempre acompanhamos uma eleição com a mesma paixão com que seguimos um campeonato de futebol. Defendemos políticos como se fossem nossos clubes, mesmo quando eles erram, perdem oportunidades, fazem escolhas incompreensíveis ou colocam gente duvidosa na equipe. A fidelidade permanece, porque mudar de opinião política, para muita gente, parece ser ainda mais difícil do que mudar de time.
Indiscutivelmente, futebol e política representam duas das grandes fábricas nacionais de esperança. Antes da Copa, acreditamos que o Brasil será campeão e, antes das eleições, renovamos a expectativa de que finalmente aparecerá alguém capaz de resolver os problemas do país. Durante a campanha, a saúde vai melhorar, a educação será prioridade, a segurança será reforçada, a corrupção será combatida, a economia vai crescer, os empregos aparecerão, as estradas serão recuperadas e, finalmente, o Brasil, o estado e o município vão mudar.
Independentemente do grupo político em que estamos inseridos, o discurso lembra bastante a preparação para uma Copa. Todo mundo está treinando bem, o ambiente é excelente, o time está unido, nunca estivemos tão preparados e as expectativas são as melhores possíveis, pelo menos até a bola começar a rolar e a realidade entrar em campo.
Depois das eleições, assim como depois de uma eliminação na Copa, começa a procura pelos culpados, e aqui eles também são muitos. O Congresso, a Assembleia ou a Câmara não deixaram governar, a oposição atrapalhou, a imprensa perseguiu, a herança recebida era pior do que se imaginava. O cenário mudou, faltaram recursos, apoio e tempo para cumprir aquilo que havia sido prometido. Faltou quase tudo, menos promessa.
Também indiscutivelmente, um dos nossos maiores problemas é confundir esperança com confiança cega. Esperar que as coisas melhorem é necessário no futebol, na política e na vida, mas quando entregamos a razão junto com a esperança, vestimos uma camisa e deixamos de enxergar os defeitos do nosso time ou escolhemos um candidato e passamos a considerar qualquer crítica dirigida a ele como uma ofensa pessoal, começamos a perder o jogo.
É nesse momento que adversários se transformam em inimigos, discussões políticas destroem amizades e famílias e milhões de pessoas passam a acreditar que um jogador será capaz de salvar sozinho uma seleção ou que um político, independentemente das circunstâncias, das instituições e da própria sociedade, poderá salvar sozinho o nosso barco sempre à deriva.
O Brasil perdeu para a Noruega, doeu, mas passa. Daqui a quatro anos haverá outra Copa, outro treinador (esperamos), novos jogadores (esperemos mais ainda) e novamente milhões de brasileiros estarão convencidos de que, desta vez, ninguém segura o Brasil.
Agora vem a eleição, com candidatos, promessas, pesquisas, debates, alianças improváveis, brigas familiares e grupos de WhatsApp transformados em tribunais eleitorais. Mais uma vez, milhões de brasileiros estarão convencidos de que finalmente encontraram o homem, a mulher ou os representantes que colocarão o país ou estado nos trilhos.
Talvez um dia a gente aprenda que é possível torcer sem deixar de pensar e escolher sem transformar a política em torcida organizada. Enquanto esse dia não chega, seguimos firmes, eliminados da Copa e classificados para a eleição, pois se existe uma coisa que o brasileiro nunca perde é a capacidade de acreditar que o próximo campeonato será diferente.
Raimari Cardoso é radialista há 38 anos e colabora com o Portal Acre desde a sua criação.







